Aos jovens que estão confusos com tudo o que está acontecendo

Os economistas previram as crises. Os cientistas políticos previram o descrédito dos parlamentares brasileiros. Os pastores profetizaram acerca da derrocada moral. Mas ninguém fez previsão acerca da confusão que tudo isso traria ao mais profundo da mente e do coração da juventude, e, sobretudo nos cristãos. Essas ruínas em que se encontra o cenário econômico, político, moral e social no país fizeram com que muitos vissem sumir do seu dia a dia valores fundamentais e sublimes do reino de Deus, como o amor, a paz, a justiça, o discipulado, a devoção e etc.

É bem verdade que em meio a tudo isso, é mais cômodo assumir um lado, esbravejar textões nas redes sociais, cortar relações com o amigo ou parente que pensa diferente e tocar a vida nesse stress e mau humor todo. Eu observei, vergonhosamente inerte, gente querida perdendo a boa consciência ao se enveredar por esse caminho que é quase sem volta.

Em meio ao caos, a confusão se instaura e a esperança se vai. Tentar convencer alguém a mudar de opinião sobre qualquer assunto é remar contra a maré, e todo esse exercício de remar em vão, cansa. E esse cansaço se expressa onde menos deveria: na relação familiar, no desânimo para o trabalho, na falta de vontade em participar da instituição igreja e por aí vai.

Como ficar livre da confusão na mente? 

Para estar livre disso, um argumento mais simplista diria para que você se desconecte da internet, evite os debates do Facebook, a vida encenada do Instagram e passe a viver na vida real. Mas essa onda de dizer que a tecnologia deixa a vida mais difícil, naquilo que o filósofo Mario Sérgio Cortella chamou de informatofobia, é um erro que a falta de inteligência emocional pode levar. Porém, devemos fugir também daquilo que Cortella chamou de informatolatria, ao deixar que o mundo digital e mecânico, faça da nossa vida mecânica, num cotidiano de likes e follows.

Para livrar-se da confusão mental que o caos provoca, é preciso muito mais do que se alienar do que acontece. A grande sacada consiste justamente em observando o caos, ter uma postura esperançosa quanto a tudo. É nesse momento que a sabedoria bíblica deve assumir valor primordial.

Em meio às suas lamentações, aflições e prantos, o profeta Jeremias decide trazer à memória o que lhe trazia esperança. Em seguida, comemora o fato de existir a misericórdia de Deus. Quem recebe misericórdia de Deus, estende misericórdia para todos. A palavra misericórdia possui um sentido etimológico simplesmente lindo. Sua gênese está no latim miseratio (miséria) e cordis (coração); e ensina que uma pessoa compadecida é aquela que tem a disposição de colocar o coração na miséria do outro. Existem tantas misérias ao nosso redor hoje: a miséria de esperar que algum político pode salvar o país; a miséria de crer que a solução é ser desigrejado; a miséria de acreditar que tudo deva se resolver na violência; a miséria de ser pobre e não ter com o que comer; a miséria de ter tudo mas não ter paz; a miséria de querer acabar com a família e destruir os padrões morais; a miséria de ser racista, machista. Em meio a toda essa confusão, nos resta exercer misericórdia. Só mesmo quem foi alvo de Jesus colocando o coração em sua miséria, tem a coragem de ter um coração compreensível na miséria do outro.

Diante do caos social e da confusão mental, esperança e misericórdia devem prevalecer. Isso sem esquecer os mais bonitos e sublimes valores do reino de Deus: amor, paz, justiça, discipulado, devoção. Para isso sim é preciso viver a vida real. Amor e justiça manifestados dentro de casa, mas também nas ruas, nas ONGs, em todo lugar. Paz com todos, no que depender de nós. Discipulado radical no seguimento de Cristo, mas discipulado radical nos relacionamentos discipuladores, na amizade, no abrir o coração, no ter coragem de se confiar em alguém. Devoção e reverência, temor, espanto, admiração, contemplação de Deus e de tudo que envolve o sagrado. Transcender em oração sincera e contínua. Coragem e fé para se enfrentar a vida.

Quem sabe assim consigamos retornar às raízes mais profundas do discipulado de Cristo. Quem sabe assim consigamos dissipar a confusão. Quem sabe assim consigamos avançar.