O Deus que abraça o Negro Drama!

“Quem gosta de poesia?” perguntou um dia o poeta Sérgio Vaz na Fundação Casa. A resposta foi óbvia: “Ninguém senhor”. Aí ele recitou Negro Drama, dos Racionais. “Senhor, isso é poesia? Então a gente gosta!”.

Goste você ou não de rap, uma coisa é fato: ele é poesia e denúncia da dura realidade vivenciada pelos moradores das favelas. O rap é também, instrumento de intervenção social, uma vez que encoraja a  multidão da periferia a buscar respostas para questões cruéis da vida, como as questões políticas, violência, sexo, dinheiro, poder e drogas. A música “Negro Drama” dos Racionais MC´s é um hino da população pobre, negra e desemparada das favelas do nosso país. Composição do genial Mano Brown e Edy Rock, antes de ser o maior sucesso do grupo, a música Negro Drama é um testemunho. “Eu não li, eu não assisti, eu vivo o negro drama, eu sou o negro drama, eu sou o fruto do negro drama” é o que diz Brown.

Ao denunciar a dura realidade da periferia, a música denuncia também a ineficiência do poder público na gestão dos recursos de modo a suprir as necessidades básicas da população. No entanto, para nós, igreja de Cristo, a música denuncia também uma omissão no amor e no serviço, onde há pessoas morrendo ao nosso redor, enquanto estamos dentro das igrejas cantando, orando e fazendo inúmeras programações de dentro para dentro. Uma análise rápida da canção demonstra os aspectos em que podemos melhorar no que diz respeito à nossa responsabilidade social como pessoas salvas pelo senhor Jesus Cristo.

Crime, futebol, música

O Negro Drama vive na lama e às vezes no sucesso. No entanto, o sucesso para o negro no Brasil só vem no crime, futebol ou na música. É duro parar pra pensar e realmente ter que concordar com a tríade proposta por Mano Brown. Porque ainda é assim no nosso país? A população negra se esconde nas celas ou nas favelas do pais. São descendentes de escravos que nunca receberam indenização ou seus direitos trabalhistas e sofrem preconceito todos os dias, inclusive quando algum governo aprova alguma política compensatória ao período.

O racismo ainda é uma vergonha nas páginas da história da igreja cristã. Apenas como exemplo, o regime do apartheid na África do Sul foi ratificado por igrejas, que inclusive encontravam base bíblica para tal. Um absurdo extremo, quando a Bíblia diz que “[…] não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.” (Gálatas 3:28)

Nem aí com a pobreza

“Ei bacana, quem te fez tão bom assim? O que cê deu, O que cê faz, O que cê fez por mim? Eu recebi seu tic, quer dizer kit De esgoto a céu aberto e parede madeirite”. A música Negro Drama também faz referência à essa luta de classes que existe na sociedade. Mano Brown não pega leve com o Senhor de Engenho, que é a personificação da elite branca, que nada ou muito pouco faz para a manifestação da justiça e da igualdade. Os empresários cristãos estão dentro das igrejas no centro das grandes cidades, apenas cantando com a mãozinha para o alto e aprendendo como prosperar ainda mais, enquanto na periferia está seu funcionário, sem tratamento de esgoto adequado, sem condições de comprar materiais necessários para  seu filho estudar e etc. Aqui lembro-me da história Filemon e Onésimo. Se você não conhece, aqui vai um resuminho: Um dia, o escravo Onésimo roubou seu amo Filemon e fugiu para Roma. Ali, encontrou-se com o apóstolo Paulo, junto a quem foi convertido ao evangelho de Cristo. Então, Paulo enviou-o de volta a Filemon com uma carta de desculpas e recomendando ao seu amigo que não tivesse mais Onésimo como escravo: “Não já como servo; antes, mais do que servo, como irmão amado, particularmente de mim, e quanto mais de ti, assim na carne como no Senhor? Assim, pois, se me tens por companheiro, recebe-o como a mim mesmo. E, se te fez algum dano, ou te deve alguma coisa, põe isso à minha conta […]” Filemon 1: 16, 17 e 18.  Imagina só, se todos os nossos empresários, chefes e patrões começassem a tratar seus funcionários não como serviçais, mas como irmãos, assim como tratam o pastor, o diácono ou missionário da igreja. Viveríamos uma grande revolução da bacia e da toalha, anteriormente proposta por Cristo.

O consumo que mata e escraviza

“Você disse o que era bom e as favela ouviu, lá também tem Whisky, Red Bull Tênis Nike e fuzil. Admito seus carro é bonito […] Seu jogo é sujo e eu não me encaixo”. O consumismo é o vírus do momento. Os que não vivem na realidade das periferias disseram aos membros da comunidade o que era bom, isso quer dizer, o que deviam consumir. Tudo o que nós consumimos, também está sendo consumido na favela. Tornaram-se tão escravizados pelo consumo quanto nós. Prova disso é o chamado funk ostentação que deturpou o importante papel do rap e do hip hop na periferia. Ainda há esperança? A realidade dos cristãos também é consumista. Hoje em dia, basta colocar a palavra gospel depois do produto e ele vende muito para os evangélicos. Esse consumo mata e escraviza. O consumismo causa ansiedade por ter aquilo que achamos que precisamos para viver. Será que teríamos a coragem de orar como o Rei Agur: “Não me dês nem pobreza nem riqueza; dá-me apenas o alimento necessário” (Provérbios 30:8)?

O que se conclui?

Falei sobre três frases da música e o texto ficou enorme. Fosse falar sobre a música inteira, daria um livro, apenas relacionando-a à Bíblia e ao nosso compromisso cristão com a sociedade.  Devemos escutar essa espécie de “profeta” que fala sobre as duras realidades da vida, a qual não nos atentamos, uma vez que estamos envolvidos e preocupados demais com a nossa vidinha. Eu sugiro que você assista ao vídeo da música. É de arrepiar! Muitas músicas de chegam ao “sucesso”, mas depois caem no esquecimento. Não é o que acontece com Negro Drama, é possível escutá-la 1 milhão de vezes e ainda assim causar o mesmo impacto na consciência da primeira vez. Perceber espiritualidade entre canções e exemplos de vida assim não é tarefa fácil. Exige um mínimo de exercício do cérebro, o que não é comum no atual rebanho cristão. O chamado cristão é para uma revolução radical de transformação da mente e do mundo através do serviço e do engajamento social. É isso que vamos buscar!