Lulu Santos me edifica

Temos que redimir a cultura e a arte, fazendo com que a sabedoria das tradições espirituais converse e se misture com a cultura!

Já faz algum tempo que tenho pensado em escrever sobre as relações existentes entre a “cultura cristã” e a “cultura geral”. Nos últimos dias, um time de blogueiros criou no Facebook um grupo para discutir música através de uma ótica cristã e a experiência tem sido bastante edificante. Particularmente, desisti da música gospel desde que este “mercado” decidiu trocar Carlinhos Félix, Rebanhão e Vencedores por Cristo por Thales Roberto, Renascer Praise e Diante do Trono, por exemplo. Desde então o que se tem cantado nos guetos evangélicos é uma mistura de mantra, extravagância (que poderia ser chamado de esquisitice) e chatice. Apenas músicas tecnicamente ruins e sem nenhuma poesia. Canções que nunca levam ao pensar e a reflexão, mas apenas a uma relação infantilizada (quando não “sexualizada”) com Deus. Pior que isso só mesmo as músicas recreativas onde o objetivo é levar o auditório a pular, gritar, correr e o que mais vier na cabeça do “ministro”. Diante desse quadro caótico, resta-nos mergulhar na tradição musical cristã e resgatar o que há de melhor ali, hinos e cânticos que ressaltam o caráter de Deus de maneira bíblica, genuína e apresentável. Outra boa opção é uma excursão pelas músicas feitas por pessoas não cristãs, mas que revelam um desejo intenso por Deus e nos levam a refletir sobre o mundo e as questões da vida moderna. Esta segunda opção é o meu objetivo aqui.

Para você que já está pensando em como provar que sou um herege, mundano e um invejoso da Ana Paula Valadão, apresso-me em dizer que muito provavelmente esse texto não é para você. Isso porque outro objetivo dessa publicação é acabar com esse fosso existente entre o chamado sagrado e o profano; o secular e o religioso. Isso é próprio de uma mentalidade moderna que renegou a religião a um canto e é próprio do religioso recalcado que não quer dar o braço a torcer e admitir que fora do seu espaço religioso existe sabedoria. Quando você vai almoçar num restaurante, pegar um ônibus para a universidade, ou procura um dentista, você não pensa que o restaurante, o dentista, a universidade e a empresa de transporte coletivo são profanos. Mas a poesia você acha que é profana. Temos que usar tudo que existe e redimir a cultura e a arte, fazendo com que a teologia dialogue com isso, fazendo com que a sabedoria das tradições espirituais converse e se misture com a cultura. Se você discorda disso, feche a janela e seja feliz! Se você concorda ou deseja saber mais, continue lendo!   As questões da vida moderna

Muito antes de rebolar na televisão nas noites de quinta-feira e de se tornar mais um divulgador de uma “perigosa” ideologia neoliberal, Luiz Maurício Pragana dos Santos brindava o Brasil com singles únicos, recheados de provocações e questionamentos. Uma delas é a famigerada “Já é”, que no mínimo deve trazer reflexão sobre o “rumo que a vida tomou”, nos levando a perguntar se é “mesmo isso aí que a gente achou que ia ser quando a gente crescer”; isso sem contar o refrão no qual o profeta nos convida a conclamar por “MAIS”! Outra música é a “Aviso aos navegantes” também conhecida como S.O.S Solidão, em que o cantor se coloca na posição de alguém que fala sozinho pois emite um sinal mas só ouve o som da própria voz a repetir “S.O.S Solidão”. Que grito da alma de alguém por alguém! Que dura era que vivemos! O mal do século é a solidão! Que sejamos instrumentos para responder com amor e engajamento à solidão alheia!

A cura para os males da vida

Das mais conhecidas músicas de Lulu, “A Cura” traz termos no mínimo conhecidos para qualquer cristão. A citação direta das palavras de Jesus Cristo de que após a demolição das nossas certezas vãs não “sobrará pedra sobre pedra” é um exemplo disso. Ainda que muitos digam que a música fala sobre a AIDS de Cazuza, a letra fala que “TODA raça experimentará para TODO mal A cura” (grifo meu). Que mal é esse que faz a humanidade aguardar por cura? O que ou quem virá quando menos se esperar? Quem seria esse portador da bandeira da vida? Quem vai hasteá-la? Outra canção é “Tudo bem” que aparentemente trata-se de uma música de homem para mulher, mas há grandes verdades como que “nem sempre é so easy se viver” e “quase nunca a vida é um balão”. Mas a grande verdade dessa música é que o amor cura! O amor cura de uma loucura qualquer e aceita defeitos! Que profecia! A esperança do porvir Mesmo observando como caminha a humanidade, “com passos de formiga e sem vontade”, Lulu Santos ainda guarda um tanto de esperança com o porvir. Na mesma música “A Cura” que trata quase todos os verbos no tempo futuro, Lulu diz que “todo farol iluminará uma ponta de esperança”. A música Tempos Modernos fala de um tempo “melhor no futuro” onde a vida será “repleta de satisfação” onde as pessoas aprenderão a ser “gente fina, elegante e sincera com habilidade pra dizer mais sim do que não” e isso tudo apesar da hipocrisia. Enquanto isso a sugestão é “viver tudo que há pra viver”, ou como diria um velho livro que costumo ler: “viver a vida com abundância”.

Mas por que Evangelho?

Para a esmagadora maioria das pessoas, o Evangelho e o pregar o Evangelho é apresentar um plano de salvação, onde Deus ama o homem, o homem é pecador e está separado de Deus, Jesus e a única solução e por isso o homem precisar receber a Cristo em seu coração. Com menos de sete anos de idade eu já sabia apresentar e muito bem essas quatro leis espirituais e por isso pensava que sabia pregar o evangelho. Mas ao crescer, descobri o evangelho vai muito além disso. O evangelho significa boa notícia. A boa notícia precisa penetrar a trama humana. Deus interfere na realidade humana com boa notícia: isso é evangelho. E o evangelho é a graça de Deus, que nos humilha, que acaba com nossa postura de mérito e de santarrões. Humilha-nos e mostra que a graça de Deus é a graça comum, que inclui sob a bondade, o governo e a instrumentalidade de Deus aqueles que ainda não o conhecem ou com ele se relacionam em termos eventuais e genéricos, à parte do conhecimento e do compromisso com o todo da revelação bíblica, inclusive o Lulu Santos. Corro o risco de caso um dia Lulu Santos venha a ler esse texto, ria das minhas colocações e lucubrações em torno de suas letras. Aí, como disse Ed René Kivitz, eu recorreria a uma base teológica da tradição reformada, a Imago Dei, sustentando assim que todo ser humano é, indistintamente, portador de sinais do Espírito-espírito e capaz de expressar o ético e o estético divinos, além de conviver com a nostalgia do paraíso perdido. Afinal de contas, “tem certas coisas que eu não sei dizer e digo”!