O mais do mesmo

Você já deve ter ouvido essa expressão: “o mais do mesmo”.

Ou não, na verdade essa expressão é proveniente de gente que pensa. E aqui entre nós, estamos vendo que pouca gente pensa nessa nossa babel religiosa evangélica do Brasil.

Mas vamos lá.

Fui surpreendido na sala de aula da faculdade, por um amigo, que também cristão, me fez a seguinte pergunta: “Você não ouve música gospel não?”

A pergunta foi feita em voz alta, e minha vontade foi de dar um ressoante: “NÃO!”. Mas tenho visto que a música gospel, especialmente no Brasil, não precisa de novas críticas para que seja envergonhada, ela tem feito isso sozinha.

Então quero defender o porquê de se ouvir músicas do “mundo”. E espero que estas palavras não lhes sejam completamente irrelevantes, mas que falem de alguma forma aos seus corações e às mentes.

Em primeiro lugar, ouço música do “mundo” porque quero compreender o mundo.

Sou jovem, tenho anseios, tenho sonhos, tenho desejo de ver isso aqui diferente. Não quero ter o sonho genérico da classe média que é casar, ter filhos, comprar sua casa própria e viver feliz para sempre com dinheiro na poupança, carro do ano, filho em escola particular e esposa gastando grana à toa no shopping. Não que essas coisas não façam parte dos meus planos, mas eu quero mais.

Não vou jogar no time dos caras que sonharam algum dia com uma causa política, econômica, social relevante, mas quando chegaram aos seus trinta anos de idade, se acovardaram, ou como eles sempre dizem: “é algo ideológico demais”.

Eu ouço música do mundo, porque reconheço em Emicida, Chorão, Mv Bill, Racionais e Marechal, gente que quer mudar o mundo. Podem até não conseguir, mas mantém a mensagem. Aliás, mensagem que acredito eu, ter pertencido à igreja no começo de sua história.

Minha pergunta é: onde é que estão as músicas em louvor ao Senhor que questionam, encorajam, ensinam e valorizam o empenho do “povo de Deus” para transformação do mundo? Acho que o clamor do Apóstolo Paulo: “não vos conformeis com esse século” não foi ouvido.

Em segundo lugar, ouço música do “mundo” porque fui enviado a ele.

Chega das gírias “crentescas” dentro das nossas letras.

Quem é que disse que “louvor” tem que ter letra ruim?

Quem é que disse que as melodias precisam ser tão fracas?

Quem é que ensinou esse povo a gritar nos microfones e gravações ao invés de deixar que a sua alma faça isso através da letra?

Se ninguém disse isso, por que esse padrão é seguido em quase todas as nossas músicas “evangélicas”?

Me desculpem, mas esses cantores com seu pseudo-modernismo musical e gritos (“diubirubiru”) nos holofotes gospel não me representam. Essas histerias gritadas com microfone na mão, falando outras línguas não me agradam, nem ao coração e muito menos aos ouvidos. Esses ministérios cheios de solos de guitarra, “climinhas” nos teclados e gemidos de voz, vindos da Igreja me enjoam.

Veja, a respeito da nossa música evangélica gostaria de perguntar: aos caras de “Ministério de Adoração Profética”, porque traduzem tantas músicas se há “tanta unção” em seus ministérios? A criatividade de Deus está somente sobre as bandas internacionais? Por que, em se tratar de música gospel, copiamos tanta coisa lá de fora? Por que nossas igrejas querem ser americanizadas? A arte brasileira é vista como macumba? Porque não gostam daquilo que é feito aqui? Por que não trabalhar nossa musicalidade e nossa arte nacional?

Precisamos deixar claro que não existe essa de “música do mundo”. Música é música, podendo ou não falar de Deus.

Nem mesmo a bíblia fala somente de Deus. Existem textos que falam mais sobre a vida, o nosso dia a dia, o cotidiano do que do próprio Deus. E nem por isso são considerados textos menos sagrados.

Deus não criou um gueto. Criou um ser comunitário, que é naturalmente relacional. E a nossa música deve apresentar isso também. Chamou para si um povo, para que se misturasse e fosse benção em todas as nações. Não uma “geração” que fosse homogênea e falasse somente de si para si mesma.

Terceiro, ouço música do “mundo” porque me falam da realidade.

Como eu gostaria que o gospel estivesse certo. Como eu gostaria que Deus estivesse realmente interessado em derrotar meus “inimigos”, me dar a benção, me dar vitórias e me fazer “Filho do Rei” com todas as prerrogativas disso. Mas Ele não está.

Deus está interessado em me alertar que há pessoas clamando pela manifestação dos Seus filhos. Que existem pessoas desejosas de algo, e que não é meu proselitismo religioso (defesa do que eu acredito, acima de todas as demais crenças presentes no mundo) que dará conta de edificar e de falar algo aos corações delas.

Eu realmente acredito que Deus queira despertar a igreja para trabalhar fora dela. Despertar, inclusive, os músicos da Igreja para pensarem em coisas mais edificantes, mais elaboradas, que trabalhem e demonstrem seu conteúdo.

Daí a questão: temos uma música tão ruim que não expressa o que somos ou temos uma música que demonstra exatamente o que somos?

Gostaria de encerrar não com uma afirmação, mas com um questionamento aos músicos de todo o Brasil.

Será que a música evangélica nacional tem o mesmo conteúdo que o evangelho do nosso Senhor Jesus Cristo? O mesmo engajamento e relevância no coração do povo?

O mais do mesmo som, do mesmo estilo, das mesmas notas, da mesma “luzinha apagada”, dos solos alongados de guitarra, do teclado no fundo, não é primordial e nem necessário. Nem as notas altas para o choro, o pulo e a agitação. Nós podemos ser mais criativos, eu sei disso.

Uma subcultura não é a solução nem mesmo uma parte do caminho que a igreja deve trilhar. Mas o engajamento é o sonho de Cristo a nós. Por favor, oremos com Cristo:

“Não rogo que os tires do mundo, mas que os protejas do Maligno. Eles não são do mundo, como eu também não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como me enviaste ao mundo, eu os enviei ao mundo. Em favor deles eu me santifico, para que também eles sejam santificados pela verdade. Minha oração não é apenas por eles. Rogo também por aqueles que crerão em mim, por meio da mensagem deles, para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”  (João 17.15-21)

Que Deus te abençoe. Em amor.