O profeta Chorão em ‘céu azul’

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Já faz algum tempo que estava prometendo. Já faz algum tempo que vinha procrastinando a continuidade da mensagem do nosso querido profeta Chorão. E  já concordamos que assim o podemos chamar após a leitura dos textos da série: O profeta Chorão em, ‘champagne e água benta’; O profeta Chorão em, ‘não uso sapatos’; O profeta Chorão em, ‘só por uma noite’; O profeta Chorão em, ‘Me encontra’; e, O profeta Chorão em, ‘me encontra – parte II’.

Chorão falou ao coração de uma geração toda. Chorão falou ao coração de gente que hoje já está perto “dos trinta”. Chorão falou ao coração de uma geração que está com seus vinte e poucos anos, como eu. E Chorão fala ao coração de uma geração, mesmo após a sua morte. Para algumas pessoas o nosso profeta Chorão é um exemplo negativo, por sua conduta, suas festas, o uso das drogas, suas letras regadas aos palavrões e etc. Para outros, no entanto, Chorão é um exímio compositor, alguém que deve ser respeitado pela sua arte, pela sinceridade e pela verdade que seu coração e sua voz transmitiam no microfone. A profecia de hoje começa de uma forma linda:

Tão natural quanto a luz do dia / Mas que preguiça boa / Me deixa aqui à toa / Hoje ninguém vai estragar meu dia / Só vou gastar energia pra beijar sua boca

Essa primeira estrofe é quase uma mensagem de contra-cultura. Algo que busca uma revolução, mas não pelo viés que Alexandre sempre buscou apresentar, uma revolução violenta. Mas agora, essa revolução se apresenta de uma forma pacífica, diferente da forma como o cantor ficou conhecido. Essa primeira estrofe nos ensina a gastar energia com coisas boas, mas isso nos é transmitido com uma leveza de melodia e de coração que nos ensina a viver a vida melhor, com menos problemas e dificuldades no caminho. Preocupando-se menos com situações administrativas, contas vencendo e com o atender das exigências da moda, para nos dedicarmos aos relacionamentos, por exemplo. Não posso afirmar que a ideia do compositor era propor um diálogo com Jesus. Mas consigo imaginar essa estrofe na boca de Jesus de outra forma, nos textos de Lucas 12:22 e 23 e Mateus 6:25-33.

Chorão me ensina, em primeiro lugar, a priorizar meus relacionamentos. Priorizar aquilo que, verdadeiramente, deveria ser importante, as pessoas da minha vida. Não ficar me tornando um adepto daquilo que todos colocam como prioridade sendo que aquilo não fala ao meu coração. Nem mesmo Deus pode ser uma prioridade cega, onde Ele nunca se satisfaz em nada que eu faço. Mas eu preciso mudar a minha concepção sobre a vida, o mundo e o evangelho que creio, sabendo que somente pela fé em Cristo, a pessoa em quem Deus encontra total satisfação, eu sou aceito. E posso viver em paz, dando prioridade para aquilo que meu coração percebe a presença e cuidado do Senhor. Particularmente, gastar energia com a minha namorada, a quem eu amo, é uma atividade sim, que me aproxima do Senhor. E confesso que quando estamos juntos, não existe atividade mais prazerosa do que me dedicar a proporcioná-la momentos lindos, de amor, paixão e romance; cuidado, afeto e amizade. O que é sempre alimentado no nosso coração, por graça e ação do Espírito Santo.

Fica comigo então, não me abandona não / Alguém te perguntou como é que foi seu dia / Uma palavra amiga, uma notícia boa / Isso faz falta no dia a dia / A gente nunca sabe quem são essas pessoas

E o que dizer da simplicidade. O que dizer do olho no olho. Uma conversa sincera,  completamente desarmada. O que dizer de uma conversa entre duas pessoas reais que prestam atenção uma ao coração da outra, onde seus dilemas e conflitos são desnudados e finalmente tratados com acolhimento, sinceridade e amor. E não com imposição autoritarismo e desinteresse dos conselhos genéricos, que são distribuídos à todos. Canso-me de chamar pessoas para conversar, e sua principal dúvida ser sempre o assunto da “tal conversa”, e não há, quase nenhuma celebração do fato de estarmos juntos. Preocupações com o pensamento que teremos ao final da conversa, quem convencerá a quem de determinado posicionamento, sempre nos rodeiam e nos fazem celebrar muito pouco o prazer da companhia. Me faz lembrar de um texto do querido Marcos Botelho, de onde destaco a frase: “Estamos mais preocupados com as respostas do que com aquilo que a pessoa está nos falando”.

Isso faz uma grande diferença na nossa peregrinação espiritual. Menos conversas sérias, e mais conversas simples. Amizades que nos confrontam, em amor e graça, mas que antes de tudo são amizades, nos ensinando o a loucura de Jesus, de evangelizar pessoas chamando para andar junto conosco, conhecendo a Deus, através das nossas vidas (Mateus 9:9-14); e não necessariamente através de mensagens e sermões que podemos elaborar. Imagino Jesus conversando sobre tudo quanto é assunto com seus discípulos. Perguntando como estava em casa; como foi o dia anterior; ou o que eles acharam do pôr do sol na praia. É assim que eu percebo a caminhada do Nazareno com os apóstolos, regada à amizade, rolês tranquilos e onde a vida é compartilhada assim, sem muita frescura e capricho religioso.

Jesus era bem mais simples que imaginamos. Bem mais simples do que desejamos, muitas vezes. Bem mais simples daquilo que esperamos. Logo, como seus discípulos, também podemos viver de uma forma mais simples. Preocupando-nos com pessoas, seu dia a dia e sua vida comum. Isso é um discipulado mais efetivo, muitas vezes, do que o estudo das institutas da religião em um grupo de vinte pessoas, com três encontros semanais. Encontros entre vidas sempre serão sagrados, e interessantes para o Senhor do universo que mantém a vida de todos os homens.

Eu só queria te lembrar / Que aquele tempo eu não podia fazer mais por nós / Eu estava errado e você não tem que me perdoar / Mas também quero te mostrar / Que existe um lado bom nessa história / Tudo o que ainda temos à compartilhar

Aqui, poderíamos prestar atenção nos relacionamentos que destruímos. Ou simplesmente, tiveram seus fins da forma não tão desejada quanto queríamos. É um tanto nostálgico observar algumas oportunidades que nos privamos; pensar que algumas coisas poderiam ter  sido feitas de formas diferentes, e talvez teríamos evitado conflitos. Coisas que sabíamos não ser necessárias, e como essas acabaram por tomar medidas desproporcionais e causaram mágoas profundas, tanto ao nosso, quanto ao coração de outras pessoas. Nosso profeta nos dá um choque de realidade e bom senso. Não temos porquê nos mantermos presos ao passado, mas precisamos aprender que os relacionamentos que construímos nos mostram como lidamos com situações da vida atual. Como lidamos com dificuldades que enfrentamos. E podemos sempre reavaliar e tirar preciosas lições deles. Avaliar nossos relacionamentos, é perceber como de fato temos sido. Não somos o que os outros dizem, mas certamente o que os outros dizem sobre nós, dizem muito ao nosso respeito. Quantas incompreensões permeiam nossos relacionamentos? Quantas preocupações nos invadem em relação à pessoas específicas?

Nossos relacionamentos, como bem sabemos, estiveram, estão e estarão bem longe da perfeição. Contudo, isso não quer dizer que não podem servir de lição para outras pessoas, talvez, menos experientes do que nós. E também para novas oportunidades, que certamente, Deus vai nos permitindo de viver, dia após dia.

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Como jovem que sou, e com a vocação que acredito ter, sou alguém apaixonado por histórias. Aliás, nós deveríamos aprender mais ouvindo histórias, e diminuindo a quantidade de conceitos e informações. Aprendi com Jasiel Botelho, numa de suas pregações, que “o conteúdo atrai, mas o testemunho arrasta”. A vida é bonita demais para se perder tempo em rancores do passado, o que nos impossibilita viver o presente. A vida é leve demais, para que preocupações futuras quanto aqueles que nos cercam, nos impeçam de aproveitar uma boa conversa, uma boa história, e um grande aprendizado de vida real com vida real. A vida é real demais para que conflitos imaginários, e até mesmo ultrapassados nos impeçam de viver relacionamentos saudáveis sob a orientação do Espírito Santo, de perdão em perdão, de glória em glória.

E viver, e cantar / Não importa qual seja o dia / Vamos viver, vadiar / O que importa é nossa alegria / Vamos viver, e cantar / Não importa qual seja o dia / Vamos viver, vadiar / O que importa é nossa alegria

E vamos viver. De verdade, essa profecia, me mostrou que, muitas das vezes, apenas acredito estar vivendo, mas não estou. Estou preocupado demais com o que fui, e preocupado demais com o que serei. Mas nenhum pouco atento ao que sou. Quando retirar meus olhos do passado que não posso mudar; como também do futuro que não posso controlar, talvez eu seja alguém melhor para quem está comigo aqui, vivendo de forma que a vida, no eterno agora, seja diferente, mais tranquila e leve aos passos de Jesus de Nazaré.

A beleza em se viver, como em qualquer outra questão da existência humana é que não existem receitas; nem fórmulas secretas. Vá agonizar diante de Deus. Vá agonizar pelas dores reais. Vá se apaixonar pela mesma pessoa várias vezes. Ou então vá apaixonar-se por alguém novo, libertando-se de paixões do passado que lhe causam sofrimento. A vida precisa ser mais leve. Menos peso. E mais graça. Em última análise, vale os diálogos de Jesus, tirando o peso de um adultério (João 8:1-11); de uma vida sexual exacerbada e culpada pela religião e sociedade da época (João 4); preconceitos por conta de uma enfermidade (Marcos 3) e por aí vai.

A vida é leve. Vamos compartilhar a vida e viver o amor. Em nome de Jesus, o carpinteiro, o nazareno, o que encarnou a vida como a vida tem que ser: simples e leve.

Em amor e pelo amor.