O profeta da rua, em: “BANG”

A inovação não pode parar. Enxergar Jesus dentro da cultura religiosa e para dentro dessa cultura sacra e evangélica no Brasil, infelizmente, se trata de fazer “o mais do mesmo“.

No intuito de enxergar Jesus, a mensagem do evangelho e a revolução de Cristo na arte e atualidade, resolvo iniciar uma série de textos baseado nas músicas de um dos caras que acho genial, hoje. Os religiosos mais fanáticos, certamente me atribuirão alguns apelidos e adjetivos ofensivos, que me perdoem, mas Emicida, é para mim, não só um rapper de qualidade invejável, mas um profeta, que coloca o dedo nas feridas que ninguém pretende colocar e muito menos de assumir que elas existem por aí. Nisso mostra que é profeta mesmo, falando por quem não tem voz para àqueles que tem condições de ajudá-los. Emicida escolheu um lado e o representa, é, como o próprio rarpper se denomina, o “embaixador da rua”.

Leandro Roque de Oliveira, nasceu em 1985, começou sua carreira como MC no fim dos anos 90 e começo do novo milênio. Seu apelido “emicida” é uma junção das palavras “MC + homicida”, tendo origem das batalhas de MC’s que disputava em São Paulo. Ainda, criou uma sigla para E.M.I.C.I.D.A, que significa: “Enquanto Minha Imaginação Compuser Insanidades Domino a Arte”. Emicida faz música com problemáticas atuais, e outras, complicadas que persistem um longo período de tempo, sendo uma voz que fala em favor do pobre, da favela e daqueles que estão de fato andando e fazendo parte da rua.

O rapper vem fazendo sucesso com hits, rimas e recentemente, com clipes musicais. É sem dúvida um grande representante da cultura afro, trazendo sempre a tona o orgulho por sua descendência negra e essa cultura tão linda e presente no Brasil.

Mas, vamos a nossa música, ou melhor, a nossa profecia:

O zica, corra, trinca, brabo, desde a orra / É o fim da zorra, vim dos free que é mate ou morra / Frio, masmorra, tio, do morro à desforra / Cor, etiópia, sépia, luz própria / Rap é anticópia, né, fi? Deixa em off / A fama e os click-click, ouço um slick rick / No bote igual diplik, ligeiro pique wikileaks / São velhas agonias, novas tecnologias, jão / Vim pra ser ben 10, moleque monstrão / De volta no ringue, swing no bang / Dando sangue, até o fim, fé, dorothy stang / O gueto morrendo nos corró / E o rap brigando na net pra ver quem tem um tênis melhor / É cada um com sua cruz, jão / Alá, Jesus, andei no mei duns c0$@0, cedi? Não

A música começa redefinindo conceitos. Sim, nada de apelidos que mesmo parecendo carinhosos, estampam preconceitos. Sim, nada de hipocrisia de amamos o pecador, mas não damos espaço pro pecado, não existe melhor adjetivo do que “hipocrisia crente”. A primeira característica dessa estrofe inicial, é “abaixo a hipocrisia”.

Sim, pare com esse miguézinho falso de brigar por verdades e conceitos na internet. Pare de brigar por valores históricos da teologia. Pare com essa pseudo-pureza que não existe, sendo que os escândalos mostram que, na verdade, a grana, a necessidade de aparecer, a de mostrar-se “perseguido”, criando confusão para que possam dizer que você é martirizado, ou qualquer outro chavão gospel religioso e ridículo lhe seja atribuído.

Seja verdadeiro. Reconheça os caminhos que você escolheu, reconheça as cruzes que são suas e que você mesmo criou, e as carregue, sabendo que muita coisa que você diz, na verdade, não condiz com a realidade, não condiz com a necessidade do povo que você diz representar, e com sinceridade, nem é do gosto da maioria das pessoas que você diz representar.

Assim, penso que a preocupação de toda pessoa que tem uma voz publica, deveria ser o desenvolvimento do trabalho que tende a ser realizado em prol daqueles que você convive no cotidiano. Represente de quem você tem de representar, não invente moda, não compensa. Ande no meio de quem for, sejam vendidos, corruptos, mentirosos, ladrões, mas, de coração, não ceda, não vale pena, perder a paz que só a integridade de representar a quem se ama pode trazer.

Não se venda, e se já se vendeu, se arrependa.

Quem é quem nessa multidão / Hei, olhe ao seu redor, camarada / Pra que as trevas não levem seu brilho / Pra que as coisas não saiam do trilho / Em todo momento atenção / Hei, olhe ao seu redor, camarada / Pra que as trevas não levem seu brilho / Pra que as coisas não saiam do trilho

Esse refrão traz consigo, o lembrete tratado na primeira estrofe. Mas frisando com a seguinte entonação: fique esperto. Sim, fique esperto para que a sua integridade não seja posta à prova. Fique esperto para que em algum momento você não ceda. Fique esperto para que você não mostre sua melhor e mais vulnerável parte para quem só quer o seu mal. Fique esperto para que essas coisas não tirem de você seu referencial. Fique esperto. Fique atento.

Nas palavras de Cristo, vigiem. Fiquem atentos para que o Filho do homem não volte e os pegue em situações que possam custar a vida de vocês, sejam prudentes.

A maior revolução que o evangelho pode provocar é revolucionar pela simplicidade. Revolução pela prática daquilo que é claro e não obscuro. Os caras que gostam de brigas, brigarão até entre si (e olha que isso já ocorre na internet e TV), dizendo que são, verdadeiramente, homens, mulheres e servos de Deus. Agora, aqueles que fazem parte da revolução verdadeira do evangelho, não estão muito preocupados com o que é dito à seu respeito. Entenderam que profeta está mesmo é para ser acusado, cuspido e escarrado. Sabem da sua missão e vivem na direção dela.

Normal, chame radical / Mas não abraço que de ontem pra hoje ser preto ficou legal / Palhaços em festa, raiz cortada / A dor dos judeus choca, a nossa gera piada / Gana mata um clima bucólico, o faz melancólico / Lá fui são tomé no inferno dos católicos / Claro que o tom soa terrorista / Meu país é um ciclista, fã do filho do eike batista / Regra selvagem, merda, paisagem, tensa / Essa densa, onde nada compensa / Pra nóiz contra os boys, frouxo / Tira a favela, ela te mostra 50 tons de roxo / Rejeitados, grouxo, o que gera? / Um estilo torto, mas as pernas do garrincha também eram / Pobre, louco, também pudera / Não quero ouvir groselha, é mó boi, tio, não prospera

Esse é o tipo de música que me faz pensar no sermão da montanha, onde Cristo fala aos seus discípulos a revolução que Ele pretende na identidade dos “cidadãos do reino de Deus”. Essa identidade é transformada quando os discípulos recebem por obra do Espírito Santo, aquilo que chamamos de “novo nascimento”. Quando isso acontece, a gente pode realmente perceber, já não se trata mais de alguém que representa qualquer outro interesse, a não ser o interesse do carpinteiro de Nazaré, o Cristo.

Ainda, essa estrofe me remete à reflexão, de como, comumente, exigimos determinados comportamentos dos outros, mas, nós mesmos, não seríamos capazes de fazer em seus lugares. Gostamos de esquecer erros e colocar em pauta o “perdão” necessário para quem sofre à muitos anos com situações preconceituosas, com perseguição, com lutas e dificuldades a todo momento.

Somos assim com os negros, que foram mal tratados por séculos, e lhes exigimos paz em troca da quantidade de mágoas que lhes provocamos (sem contar a violência, abusos e etc); falamos da mesma forma aos LGBT que, para nós, são obrigados a engolir a nossa doutrina de fé, sendo que poucos, senão quase nenhum de nós, os respeita como seres humanos como todos os outros (também não falarei dos extremistas apedrejadores populares da internet e bancada política); falamos ainda das mulheres, que sofrem abusos, são descaracterizadas, desrespeitadas, mal tratadas em tantos lugares do Brasil.

Mas a gente não fala disso, dizemos à esses queridos que eles precisam perdoar. De fato, eu concordo. Mas primeiro a gente precisa se arrepender, coisa que a igreja tem bastante dificuldade em admitir que precisa fazer.

Honestamente e particularmente, peço perdão, porque só eu sei, o quanto ainda sofro com demônios que assombram a minha consciência quanto a assuntos ligados aos preconceitos, mas tenho certeza que Cristo continuará a falar-me ao coração e transformar a minha consciência, ampliando-a e dando-me a mente de Cristo.

Nem todo mundo que tá é / Nem todo mundo que é tá

Essas frases são repetidas várias vezes, e vamos concordar que ela é bem verdadeira. Nem todo mundo que tem títulos, denominações e visibilidade estão fazendo evangelho de verdade. Poderíamos falar vários nomes, mas nós os conhecemos, não precisamos citá-los.

E nem todo mundo, principalmente no quesito evangélico nacional, que é discípulo de Cristo, está dentro da nossa Babel institucional, com placas e tudo mais. Porém, estão fora do sistema, caminhando de forma independente. Por exemplo: a reunião da Rua Augusta, Igreja do Armazém e tantos outros que não estão no foco, mas falam de um cristianismo revolucionário, que acolhe a todos, sem distinção, com a visão principal de que “é proibida a entrada de gente perfeita”.

Então, Emicida é um profeta, entre outros motivos, para mim, por representar gente que ele não precisava representar; por falar em suas letras, de gente que geralmente não dá muito “ibope” pra quem os divulga. A pobreza, a prostituição, a rua e a cultura negra, não é coisa respeitada pela maioria dos brasileiros. E um cara que representa quem não tem representante, esvazia-se (Filipenses 2.5-11) da sua grana, do seu luxo e fala para aqueles que precisam da justiça, da ação do estado, do governo, e da população para que se perceba que todos podem vencer juntos e se orgulhar das conquistas coletivas. Esse é profeta sim, ao menos profeta ao meu coração.

Que Deus nos abençoe.
Em amor e pelo amor.