O profeta da rua em “hoje cedo”

Emicida é de longe o músico que eu mais ouço. É de longe a letra que mais fala dentro de mim, e por outros momentos, me representa em recados claros ao mundo.

Lembro-me de em alguns momentos, principalmente no final da minha adolescência, onde Leandro traduzia, com primazia, alguns aspectos que enxergava dentro da periferia. Somente alguém que está lá, e tem amor por ela poderia falar com a sua qualidade peculiar em rimas.

Suas músicas, em minha modesta opinião, são regadas de verdade, conteúdo histórico e filosófico. São lições de vida e experiência de quem vive e não tem medo de expôr em suas letras aquilo a realidade a sua volta. Seu conhecimento provoca profundamente a mente dos intelectuais, é fruto de leitura, engajamento e posicionamento político em favor do povo que representa, gente por quem tem amor e fala sem precisar pedir permissão para isso.

O rapper é identificado pelo povo como alguém que tem voz, e autoridade para falar, afinal, ele viveu e cresceu em uma realidade de favela, mantendo acessa a paixão pela periferia. A favela está em seu coração.

O considero alguém sincero em suas músicas e em seu pensamento. Estas são algumas razões para chamá-lo de profeta. Ainda, pelo seu compromisso com a verdade e a necessidade de falar algumas coisas custando até mesmo que máscaras caiam, as politicagens acabem e  as pessoas mau intencionadas sintam-se expostas, juntamente com suas intenções. Pelo menos, ao coração daqueles que o assim querem ouvir.

Já escrevia aqui um outro texto sobre as suas músicas chamado O profeta da rua, em ‘BANG’. Hoje se dá o segundo texto da nossa série. O refrão de hoje é da música “Hoje cedo”. Acompanhe:

“Hoje cedo / Quando eu acordei e não te vi / Eu pensei em tanta coisa / Tive medo / Ah, como eu chorei, eu sofri / Em segredo / Tudo isso / Hoje cedo”

É difícil acordar cedo para trabalhar, estudar e iniciar mais uma semana. Na televisão, as notícias não são boas. Na economia, o fracasso parece bater a porta. Nas relações, amizades e amores, parece que somos tomados pela frieza, pela indiferença e por um egoísmo, onde o outro é somente alguém para me provocar algum benefício. Senão, de que vale a nossa amizade?

Acordar e perceber tudo isso é horrível, mas e acordar e não perceber nada, achar que está tudo certo, é bem pior. Não saber olhar com criticidade sobre si mesmo, é um erro, que aqueles que Jesus chama de hipócritas cometem.

É comum pensar que ser egoísta, solitário, cheio de lutas intensas e não aberto ao diálogo é o melhor a se fazer. Viver como autosuficiente, é moda, é o natural que todos fazem. É nosso intuito, nossa inclinação natural, pecado original, queremos independência de Deus, e quando a alcançamos, em algum momento parece que isso grita em nós, e nos é feito cair em si, e perceber que estamos sozinhos. É nessa hora que o vazio do coração que Dostoiévski nos alertou é escancarado, e precisamos procurar por algo que nos faça transcender, o sagrado, o Cristo que supre nossas faltas.

Em algum momento, mesmo que demore, a consciência denunciará que embora cheio admiração, a sensação é de se enfrentar o mundo sozinho, de peito aberto, contra tudo e todos.

Acredito que o refrão nos alerta disso. Cuidado com o tipo de gente que você é, das relações que estabelece e da forma que enxerga a vida. Cuidado com a forma de tratar seu vizinho, o amigo que não possui as mesmas condições, uma pessoa de uma renda menor, ou até mesmo alguém de acordo com a sua cor. Cuidado com o valor empregado no diploma, no currículo e no salário que recebe.  Isso pode te mostrar em algum momento a realidade crua. Também, mostrar que não são esses os padrões a serem levados em consideração como prioridade. E todo o seu castelinho colorido, se despedaçará. Você se sentirá sem ninguém, absolutamente. E a angústia entrará em cena.

Arrepende-te.

“Holofotes fortes, purpurina / E o sorriso dessas mina só me lembra cocaína / Em cinco abrem-se as cortinas / Estáticas retinas brilham, garoa fina / Que fita / Meus poema me trouxe / Onde eles não habita / A fama irrita, grana dita, cê desacredita / Fantoches, pique Celso Pitta mente / Mortos tipo meu pai, nem eu me sinto presente / É rima que cês quer? Toma duas, três / Farta pra infartar cada um de vocês / Num abismo sem volta, de festa, ladainha / Minha alma afunda igual minha família / Em casa, sozinha / Entre putas, como um cafetão / Coisas que afetam / Sintonia / Como sonhei em tá aqui um dia / Crise, trampo, ideologia, pause / E é aqui, onde nóis entende a Amy Winehouse”

Nós até temos um ideal de que o sucesso não é, necessariamente, algo positivo. E até concordamos que este, pode provocar grandes problemas para ser alcançado. Ou seja, pode nos custar a felicidade, o companheirismo e a alegria do casamento; Tempo total, ou de qualidade com os filhos; companhia agradável de amigos, etc.

O sucesso, ou o topo que tantos de nós sonhamos, tantas vezes é de preço tão caro que mal podemos calcular. Pela sociedade, status, e sistema econômico que estamos inseridos, somos levados a acreditar que o nosso valor real, se dá por meio de conquistas profissionais que temos, relevância de mercado que obtemos, ou ainda, o quanto a nossa opinião é respeitada e utilizada.

Em última análise, podemos até atribuir nosso sucesso pela quantidade de “likes” e visualizações daquilo que postamos em nossas redes sociais. É uma grande ânsia por ser visto e notado. Ser alguém que todos desejam ouvir e estar perto.

Lembro-me de vezes, que a motivação do meu coração ao compartilhar alguma coisa em uma reunião de grupo pequeno, uma conversa com amigos, um texto, vídeo ou link no Facebook, não fora a edificação dos meus queridos. Mas a auto promoção com mais uma polêmica desenfreada, onde a única coisa que seria valorizada era a minha própria imagem, mais vista por pessoas, mais admirado por gente e mais seguidores nas redes sociais.

A impressão, é que mesmo sabendo disso tudo, nós ainda precisamos de gente como Leandro para nos dizer que chegar no sucesso, que propõe convites desenfreados, amizades líquidas, e convivência mascarada é vaidade. Que a fama pode ser uma ilusão. Que pessoas ao redor não quer dizer calor no coração, e enchimento de sentido na alma.

Por exemplo, Salomão, um homem que tem sua história contada na bíblia, diz que conquistar tudo é vaidade; que ter tudo é vaidade; que nada de novo acontece debaixo do sol.

Salomão foi um dos responsáveis pela ruína de Israel. Foi alguém que teve muito dinheiro, muita sabedoria e conhecimento, e também foi muito mulherengo. Filho de Davi, teve sob sua responsabilidade a administração do povo de Israel. Seu pai, havia guerreado a vida toda e tinha garantido uma vida um tanto quanto luxuosa para Salomão. Que teve acesso à estudos, regarias e etc. Mesmo assim, Salomão foi alguém que desejou e aumentou as propriedades do reino. Ansiou por prosperar, conquistar e presentear mulheres. E por aí vai.

A impressão que eu tenho, ao ouvir essa música de Emicida, é que ele enfrentou as mesmas dificuldades. Enfrentou as mesmas lutas. Enfrentou as mesmas crises. Apesar de não ter sido alguém que nasceu em berço de ouro, sonhou e batalhou pela fama, pela grana e etc. Ao alcançá-la, a impressão é a composição da nossa “profecia”.

Os poemas do rapper, o levaram à lugares inimagináveis, mas podem ser descritos também como indesejáveis.

Essa música de Leandro, me ensina que muitas das coisas que eu desejo, podem me fazer mais mal do que bem. Por isso, devo aprender a viver a vida na perspectiva do evangelho, onde Deus sabe muito bem o que eu devo viver, e tem me conduzido por esse caminho, me livrando de mim mesmo, e me fazendo perceber quando as coisas estão fugindo do controle, ou colocando à prova a fé que eu professo em Cristo.

Que o Senhor nos livre de uma vida que não seja outra a não ser em abundância dependendo do Cristo.

“Vagabundo, a trilha é um precipício, tenso, o melhor / Quero salvar o mundo / Pois desisti da minha família e numa luta mais difícil / A frustração vai ser menor / Digno de dó, só o pó, vazio comum / Que já é moda no século 21 / Blacks com voz sagaz gravada / Contra vilões que sangram a quebrada / Só que raps por nóiz, por paz, mais nada / Me pôs nas gerais, numa cela trancada / Eu lembrei do Racionais, reflexão / Aí, os próprio preto num tá nem aí com isso, não / É um clichê romântico, triste / Vai perceber, vai ver, se matou e o paraíso não existe / Eu ainda sou o Emicida da rinha / Lotei casas do sul ao norte / Mas esvaziei a minha / E vou por aí, taleban / Vendo os boy beber / Dois mês de salário da minha irmã / Hennessys, avelãs, camarins, fãs, globais / Mano, onde eles tavam há dez anos atrás / Showbiz como a regra diz, lek / A sociedade vende Jesus, por que não ia vender rap? / O mundo vai se ocupar com seu cifrão / Dizendo que a miséria é quem carecia de atenção”

A última estrofe vem de encontro com a nossa sociedade atual. Como não nos atentar para mensagens que estamos dando. Como continuar a frisar conquistas para pura adequação à realidade. Como não falar do evangelho de Cristo e a sua inversão de realidade em nossas vidas. Como negociar isso tudo?

Nós podemos mentir. Nós podemos negar os fatos do cotidiano. Nós podemos negar a quantidade de tentativas de suicídios, de automutilações de pessoas que estão vazias por dentro. Podemos nos apegar aos métodos e visões de igreja e negar o relacionamento sincero e olho no olho.

Nós podemos negar, ou podemos ser efetivos. É uma escolha.
Que Deus nos abençoe e nos use, para a glória dEle em vidas destroçadas pelo cotidiano, pelo real, pelas desgraças humanas. Em nome de Jesus.

Em amor e pelo amor. Sempre juntos pro estouro.