Precisamos mesmo falar sobre intolerância religiosa

Estarmos nos aproximando do dia da consciência negra. Para mim, este termo é uma incoerência em si mesmo, pois deveria chamar-se o “dia da consciência humana”, da vida, do outro. Sei lá, qualquer coisa do tipo que retirasse de cima de pessoas negras o peso que representa ser gente do jeito que são. Enfim, mas este é outro assunto.

O fato é que cerca de um ano atrás saía uma música nova do Emicida – sobre quem já escrevi algumas vezes MVC por considera-lo profeta das ruas – Abre parênteses. Não quero questionar hoje sua representatividade nas ruas de verdade hoje, nem sua aprovação, somente foi uma forma carinhosa que encontrei de chamá-lo na época. Fecha parênteses.

Hoje, quero pensar uma das suas música. A música que me refiro é “Boa esperança”, que pra mim foi o melhor clipe nacional já produzido este ano.

A música traz várias temáticas, e principalmente, algo que o rapper tem feito questão de transmitir drasticamente: a luta contra o racismo e a intolerância. Recentemente a coleção de roupas de sua marca “Laboratório Fantasma” foi lançada no São Paulo Fashion Week com bastante quebras de paradigmas no seu desfile.

A música  denuncia em mim, aquilo que talvez possa ser reproduzido em maior escala por pessoas de gerações mais antigas que a minha, em nossa expressão de fé comum, a fé evangélica.

No refrão, o resgate do orgulho negro e a história religiosa do povo afrodescendente é trazida à tona. Emicida pergunta algo que vem ao meu coração como uma flecha: “já viu alguém chorar pela cor do orixá?”.

A prova de redação do Enem também levantou o tema da intolerância religiosa no último final de semana. Essa pergunta levanta em mim todo o meu orgulho evangélico religioso. Reconheço a beleza da música. Reconheço a sua relevância pela problemática que ninguém, a não ser os próprios negros, e mais claramente ainda, os negros que são de classe social baixa (pobre), pode afirmar, e aí, será que o racismo é uma realidade?

Não tenho dúvidas que na minha confissão religiosa o acesso a Deus é mediado por Jesus Cristo única e exclusivamente. Não tenho dúvidas que na minha confissão de fé, não há outro deus a não ser o Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não tenho dúvidas que a minha confissão de fé revele o nosso Deus na trindade! E não é sobre “confissões de fé” o nosso texto.

Por que não reconhecer algo feito com qualidade em outra expressão religiosa?

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O que de fato me impede de relacionar-me criticamente, sabendo discernir o que eu desejo ou não para mim, em fatores externos ao meu nicho religioso?

Como é possível que o estado, que a maioria da população concorda ser indiferente com a realidade que ela enfrenta, consegue colocar como tema de uma avaliação nacional a intolerância religiosa e as nossas comunidades de fé, não terem o desejo de falar sobre isso?

Temo que a qualidade implantada pelo rapper na música citada, mostre para nós, nossa insuficiência em investimentos, em conteúdo, em profissionalismo, em estrutura, e principalmente, em coragem de profetizar contra injustiças.

Temo que a relevância discutida pela reforma cinco séculos atrás, profundamente engajada com a realidade social a sua volta, não expresse em nada o engajamento das nossas discussões evangélicas atuais. Não na face mais hegemônica, pelo menos.

E por nosso ensino evangélico ser demasiadamente falho na expressão contracultural, sem autoridade de vida, mas, completamente adaptado aos valores desse mundo como: individualismo, acumulação de bens, apatia, indiferença, auto-suficiência e segregação, nós simplesmente dizemos que isso não fará bem a ninguém, e que só ouvimos músicas de exaltação a Deus. E nos envolvemos com projetos onde as palavras: Jesus, luz e cruz possam ser ditas sem nenhum tipo de preocupação.

Será que nós só concordaremos com projetos de leis que dizem respeito a nossa expressão de fé, e não o benefício do ser humano?

Será que um diálogo profundo sobre aspectos éticos da nossa sociedade não sinalizam com densidade o Reino de Deus na nossa sociedade?

Nosso evangelho é o mesmo de Jesus?

 

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Nosso evangelho precisa ser mais encarnado com Jesus de Nazaré. Nosso evangelho precisa expressar o que nossas mentes pensam. Aliás, eu acredito que o nosso evangelho no Brasil hoje tem expressado bem o que nós somos, e esse é que é nosso real problema.

Temo ler o que foi escrito na redação do Enem nesse final de semana pelos evangélicos. Temo o tipo de piada sarcástica produzida em nossos cultos. Temo que ao final desse texto, nenhuma reflexão mais profunda tenha sido gerada em seu coração, apenas aspectos de defesa de “supostos” ataques que você queira se defender.

Oro para que Deus denuncie mesmo meu senso religioso de superioridade por expressão confessional de fé, e me faça cair de joelhos, implorando ao Espírito Santo a compreensão viva no meu dia a dia das palavras do Bom-Mestre: quero misericórdia e não sacrifícios.

Que Ele nos ensine isso. Em amor e pelo amor.


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