Quando a tolerância não deve ser tolerada

É preciso que se tenha bastante maturidade para tratar deste tema tão sensível sem que deixemos a sobriedade e o bom senso de lado, e transformemos o debate num campo de batalhas onde sobeja o ódio e o destempero emocional. Todavia, é preciso também, que tenhamos coragem para encarar a realidade da reflexão proposta no texto a respeito da mensagem que encontramos nos evangelhos, sobre quem é Jesus e sobre o que Ele realmente significa para a humanidade.

Politicamente incorreto

O fato é que a mensagem de Jesus, como veremos, em vários momentos, não foi e não é nada democrática ou tolerante. A fé cristã possui inúmeros paradoxos e um deles é este: ela resguarda o direito à liberdade de crença, mas no cerne de sua mensagem apresenta-se a si mesma como a única crença verdadeira.

Você jamais verá qualquer ensinamento bíblico que pregue a imposição da fé em Jesus, seja por violência, coerção ideológica, militar ou qualquer outro método. A fé em Cristo é um dom de Deus, concedido por graça pelo Espírito Santo, é assim que a Trindade sempre agiu e é assim que sempre agirá. Coerção não tem nada que ver com fé cristã, jamais será evangelho de Deus. Entretanto, ao mesmo tempo, você vai encontrar o próprio Cristo e todos os seus sucessores no Novo Testamento ensinando consequências horríveis para os que livremente negarem a fé apregoada por eles mesmos registrada nas Sagradas Escrituras Cristãs.

O argumento indiscutível

O maior e mais impressionante argumento que os cristãos têm a favor deste exclusivismo, são as próprias palavras de Jesus. Não fossem as palavras dEle tão contundentes, a exclusividade da fé cristã estaria seriamente abalada. Mas Jesus não deu brechas, em vários momentos Ele próprio fez alegações seríssimas a respeito de si mesmo e do que sua pessoa significava e significa para a existência e para o futuro da raça humana.

Jesus afirma, por exemplo, que no início de todas as coisas viu a queda de Satanás (Lc 10.18); aos pecados que homens e mulheres cometiam diante de Deus, ele fornecia perdão (Mc 2.5); Ele chega a dizer na cara de judeus fariseus e mestres da Lei que antes que Abraão existisse, Ele já era (Jo 8.58); afirmou sobre si mesmo ser o caminho, a verdade e a vida (Jo 14.6); disse as irmãs Marta e Maria ser ele mesmo a ressurreição e a vida (Jo 11.25); quando Tomé lhe adorou chamando-o de Senhor e Deus aceitou prontamente a adoração sem se opor a tal; estes são apenas alguns dentre os inúmeros outros testemunhos bíblicos a respeito da exclusividade e divindade da pessoa de Jesus.

Ele e ninguém mais

Jesus não disse ser um ente espiritual com poderes sobrenaturais capazes de nos levar a Deus, Ele simplesmente diz: venham até mim, eu sou o caminho, não existe outro, em mim está a redenção que vocês precisam, somente eu tenho o perdão dos pecados que vocês cometeram, não acreditem em mais ninguém, pois eu sou a verdade que liberta vocês. Ora, estivesse Jesus nos tempos atuais, Ele seria bombardeado de todos os lados como sendo um grande intolerante religioso fundamentalista, um ignorante retrógrado de quinta categoria. Mas pasmem, o discurso de Jesus é exatamente esse, Ele arroga ser a grande solução do problema da humanidade. Ele diz ser a fonte de águas vivas que sacia o insaciável coração humano. Jamais nenhuma figura na história humana afirmou isso de si mesma. O que nós temos aos montes são homens e mulheres apontando um caminho para Deus, e não agindo verdadeiramente como se fossem o próprio Deus.

O Jesus que temos pintado hoje na grande mídia, nos filmes, nas séries, nas propagandas, na literatura e nos documentários trata-se de uma grande fábula, uma distorção, é, na verdade, um Jesus que nunca existiu. Temos hoje muita gente falando sobre Jesus que, ao que parece, jamais leu o que Jesus de fato falou. Muita gente inventando um Jesus conveniente e propenso a concordar com seus interesses, que não se parece em absoluto com o Jesus bíblico. A dúvida que resta é saber se isso é feito por ignorância ou desonestidade intelectual de fato. Parece não haver o mínimo de pesquisa para se conhecer o básico das ideias de Jesus encontradas explicitamente nos evangelhos. Talvez exista, além do desinteresse evidente na verdade, um certo receio de se descobrir algo que não seja assim tão agradável para os padrões ideológicos atuais dos formadores de opinião do mundo moderno.

O trilema

Certamente, às voltas com esta dificuldade a respeito do discurso de Jesus, o reverendo presbiteriano John Duncan no século XIX propôs um trilema, que um século depois seria popularizado sobremaneira pelo escritor anglicano C. S. Lewis. O trilema é simples: ou Jesus foi um louco, ou foi um grande mentiroso, ou Jesus é exatamente quem disse ser. Diante deste trilema, toda mente humana honesta consigo mesma, deverá se posicionar em algum momento na vida. No entanto, a peculiaridade da situação é que não é possível se adotar uma posição que não seja radical. Não é possível que sustentemos um discurso pacifista do estilo daqueles que dizem: “Jesus foi um bom homem, um líder exemplar, um grande Mestre de sabedoria inigualável, que muito contribuiu para a evolução da humanidade e para a espiritualidade do ser humano como um todo”, mas que sempre relega Jesus como apenas mais um sábio na história, e sua mensagem como apenas mais uma corrente ideológica a ser debatida e analisada no mundo. Não! A mensagem de Jesus não deixa espaço para isso!

A questão a ser encarada é: ou Jesus é exatamente quem disse que era e sua mensagem tem absoluta proeminência sobre todas as outras ou ele não é digno de ser nem lido ou ouvido, pois não passa de um charlatão ou um desequilibrado.

Jesus não divide seu lugar com ninguém, e isso é inadmissível no mundo de hoje! Você tem até o direito de não crer, mas o que Jesus dirá a você é que se você não se arrepender dos seus pecados e colocar sua fé nEle, o seu destino será padecer no inferno sobre a ira santa de um Deus Justo que não pode deixar pecados e pecadores sem suas devidas punições. Trata-se de uma mensagem altamente radical, mas que não mudou e jamais mudará.

A falsa paz

Em tempos como os nossos, temos presenciado certas tentativas de sincretismo entre o cristianismo bíblico e outras mensagens e cosmovisões, tudo em nome de uma falsa paz e do politicamente correto. Mas não podemos abrir mão da própria pessoa de Jesus em nome de uma pretensa paz com o mundo. Com Jesus, a tolerância a outros caminhos e cosmovisões não é bem-vinda. Ele se coloca contumazmente como o único caminho e a única verdade, e nós como cristãos devemos ter coragem para sustentarmos essa mensagem frente a um mundo cada vez mais secularizado e hostil a qualquer ideologia que arrogue para si exclusividade.

O desafio que fica é: como respondemos ao trilema proposto pelo Reverendo Duncan? Temos coragem de responder? Se sim, temos coragem de assumir as consequências de nossa resposta? Os dias são maus e, como sempre, a porta continua estreita. Que o Senhor nos capacite a mantermos sua mensagem viva e intacta tal qual ele nos legou, e que tenhamos fé de que tudo que Ele disse a respeito de si mesmo é a mais linda verdade com a qual o homem pode ter contato em toda sua história. Que diante destas afirmações nosso coração se encha de esperança e certeza que temos um futuro, um Salvador e um Senhor que tudo sabe e tudo faz para que tenhamos vida e a tenhamos em abundância. Coragem seja dada do alto a todos nós!

Por último, não nos esqueçamos que a lógica do politicamente correto é frágil e falsa: tolerância para com tudo e para com todos, exceto para com aqueles que pensam diferente.

Sustentar a viabilidade de se afirmar a veracidade de cosmovisões que são frontalmente antagônicas e negam-se mutuamente é o caminho daqueles que tem preguiça ou medo de irem, de fato, mais fundo em busca da verdade. Para estes o caminho mais fácil é a ridicularização da religião e a criação de um novo ídolo: o relativismo. Que além de irracional, não deixa de ser uma espécie de nova religião.

Que Deus nos alcance!