Há algo de podre no reino dos crentes religiosos

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Confesso que as vezes dá vergonha ser reconhecido como “crente” e colocado no mesmo balaio com gente que está mais preocupado em seguir o evangelho da igreja do que os passos de Jesus de Nazaré.

Explico o porquê.

São diversos atentados terroristas eclodindo em lugares distintos quase que simultaneamente, é a economia que tem protelado os sonhos de muita gente, quando não tem encerrado o meio de sustento de muitas outras, é a arruaça política que mantém intactos seus protagonistas corruptos, é a religião populista que assalta legalmente os desesperados que depositam toda sua fé na sua “fé” e outros inúmeros casos de bombardeio de ódio de pessoas que são levadas por todo este cenário acima e sentem-se obrigados a assumir uma ponta da corda e puxam até que os que estão do lado oposto caiam na lama da derrota.

O que mais me espanta são as posturas guerrilheiras dos que se reconhecem debaixo do teto da fé cristã, tendo em vista que seguem Àquele que fez questão de inverter a lógica da vingança. E exatamente por este motivo que faço alusão a esta conhecidíssima frase de Hamlet, protagonista homônimo da brilhante obra do escritor britânico Willian Sheakspeare.

“Há algo de podre no Reino da Dinamarca” (Hamlet – Willian Sheakpeare)

A fala refere-se a uma percepção de Hamlet quando julga os acontecimentos que se dão por toda a tragédia, referente às traições e homicídios que não estão escancarados, mas acontecem atrás da cortina do espetáculo, ou seja, na frente as coisas parecem estar normais, seguindo o seu curso, porém nos bastidores algo não está cheirando bem.

Faça uma avaliação sincera: Quantas afirmações de repúdio extremo você tem lido através do seu hall de “amigos” do Facebook na direção de todos os que compõem este triste cenário?

Gente que professa a mesma fé, provavelmente no mesmo Cristo, mas que é a favor do extermínio ou de punição desumana de todos os que ferem suas convicções partidaristas (e aqui não me refiro apenas a política).

Não consigo entender uma postura cristã diferente da descrita por Tiago:

“Escutem! Vocês não sabem que Deus não é como nós? Ele escolhe gente desprezada pelo mundo para serem primeiros cidadãos do Reino, com plenos direitos e privilégios. O Reino foi prometido a todos que amam a Deus. Como podem menosprezar esses mesmos cidadãos? Não são os grandes e poderosos que exploram vocês nos tribunais? Não são eles que difamam nosso novo nome de batismo — “cristão”?

Vocês devem cumprir o Princípio Maior das Escrituras: “Ame o próximo como a você mesmo”. Mas, quando ficam bajulando pessoas ditas importantes, quebram esse princípio. Vocês não podem escolher o que querem cumprir na Lei de Deus e ignorar o restante. O mesmo Deus que disse: “Não adulterarás” também disse: “Não matarás”. Se alguém não adultera mas mata, acham que uma coisa cancela a outra? Não, quem mata é assassino, e ponto final!

Falem e ajam como quem espera ser julgado pela lei que liberta. Porque, se vocês se recusam a agir com bondade, não devem esperar tratamento gentil. A misericórdia, que é gentil, sempre vence o julgamento, que é severo”. (Tiago 2.5-13 – versão A mensagem)

No fundo, tal como Hamlet, entendo que à margem dos fatos ocorridos recentemente quanto à postura de alguns “irmãos” em nossos dias maus, existem outros fatos e motivações que talvez nem mesmo os próprios suspeitavam que havia dentro de seus corações, mas que pegam carona com a injustiça humanitária e começam a exalar mau cheiro ainda que diante dos holofotes a aparência seja “pietista”. Afinal os cultos cristãos continuam sendo frequentados, doações e mais doações estão sendo enviadas à Mariana como sinal de amor – e não afirmo o contrário – mas nosso discurso e prática estão andando de mãos dadas?

Se formos de Cristo, nossa ação deve fazer ecoar o próprio Cristo, e para tanto, teologia e espiritualidade não podem andar descompassadas ou se preferir, teoria e prática devem coexistir sendo uma complementar a outra.

“Se tudo que vocês fazem é amar apenas quem é amável, que recompensa esperam receber? Qualquer um pode fazer isso. Querem uma medalha por cumprimentar apenas os que são simpáticos com vocês? Qualquer pecador desqualificado age assim. (Jesus – Mateus 5.47 – versão A mensagem)

Será que o desejo de ver a (nossa) justiça sendo cumprida, não passa de um impulso humano caído de contemplar a desgraça alheia? Como um menino que estende o pé para o colega de sala cair no corredor pelo doce gosto de gargalhar da cena humilhante?

Vamos usar de “honestidade intelectual”, de maneira nenhuma estou defendendo atos inconsequentes destes déspotas mundiais que dilaceram qualquer ímpeto de amor e preservação da vida, seja em que aspecto for, todos devem sofrer as consequências de suas atitudes egoístas e sanguinárias, até mesmo porque o contrário de perdão não é justiça, mas vingança, ou seja, ainda que haja perdão a conta deve ser paga.

Não sei se você acredita que tudo isto é sinal do fim dos tempos e se contenta em viver de forma passiva diante do terror, afinal tudo já era previsto pela Palavra ou se crê que o fim começou com a ascensão de Jesus aos céus e que desde lá vivemos esperando a volta do Cordeiro sem atentar cronologicamente para os sinais.

Sobretudo, clamo com o coração nas mãos ao Senhor pedindo que os que realmente são dEle, os que de verdade nasceram de Deus e não conseguem viver outra verdade que não seja o Cristo crucificado e ressurreto, que não cessem de orar e chorar pelo povo que está morrendo na mão dos diabos dos nosso dias amparados pelo discurso religioso e endossados pelo adversário da Cruz.

Pra mim, há algo de muito podre no reino dos religiosos cristãos.

E você, pensa o que de tudo isso? Vamos viver o amor?

Que o Pai nos pegue no caminho.

NEle.