A covardia nossa de cada dia revela cada vez mais a nossa vocação

Sou arrogante, vocês sabem. Sou alguém que por sentir-se inseguro, percebi que precisava achar alguma coisa para me assegurar a segurança que sentia negada a mim em outros lugares. Sempre me senti em casa como alguém que no fundo queria ser meu irmão. Ele ia bem nos esportes, eu nem tanto. Ele ia bem com as garotas na infância, e eu gordinho, nunca soube o que era ter alguém gostando de você. E depois de muito tempo encontrei uma coisa que gostava de fazer, e percebi que fazia de forma, razoavelmente, agradável aos que me davam o privilégio da leitura.

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Quando encontrei minha vocação?

Escrever sempre foi uma forma pra mim, de desabafar, organizar minhas idéias, expor meus sentimentos e obviamente manifestar minhas opiniões. Tudo começou com minha conversão… É engraçado falar de conversão visto que eu cresci na igreja. E apesar de vários anos de vivência comunitária não tive nenhuma experiência impactante quando criança. Sempre fui inscrito em EBF’s (Escola Bíblica de Férias), acampamentos infantis, grupos de teatro de criança e essas coisas que mobilizam nosso coração e emocionam, além de promover nas crianças uma profunda identificação e senso de pertencimento à comunidade.

No fim da infância, eu mudei de cidade. E também mudei meus sistemas de valores. Não queria mais ser o ingênuo. A maior vergonha para mim, era admitir que nunca tinha beijado de língua de verdade aos 11 anos de idade, olha o absurdo. Achava-me extremamente limitado e deslocado pelo fato de que não conhecia de pornografia, narguilé, álcool, cigarros. E pela curiosidade, optei como a maioria dos adolescentes de nossa comunidade, eu fiquei fora da igreja, não encontrava sentido para essa história de ir aos cultos de domingo. Vivi coisas intensas e que me geraram profundas marcas e ensinamentos.

Sua vocação nunca gerou dúvidas?

Voltei-me para Cristo aos 16 anos de idade, ou por Ele fui arrastado de volta ao seu amor. Foi um ano legal, onde passei quase todo o ano por acampamentos de carnaval, adolescentes, jovens, encontros temáticos e retiros de confissão católica. Recebi profecias e promessas de grandes ministérios, multidões e tudo mais. Mas sei lá, isso nunca cresceu muito aos meus olhos. E foi legal. Eu quis voltar para comunidade, sabe? Participei do culto de jovens da comunidade perto de nossa casa naquela época. E me lembro de um pastor que era da área de juventude naquela época, que disse a mim: “ministério? você está de brincadeira? ontem nas drogas e hoje no ministério? você não vai dar em nada…”

Eu o agradeço por me alertar, me preocupar com resultados, à partir dali, em tudo que me prôpus a fazer, já não ia ter sentido nenhum mesmo.

Com a minha conversão, algo em mim precisava ser posto pra fora sabe? Mais forte do que eu. A obra de Jesus, o amor do Pai, as paixões jovens, os conflitos geracionais, os ideais pulsantes, tudo isso geravam uma grande ansiedade e inquietação no coração que faziam eu querer de alguma forma, cooperar com a colocação de ordem no caos.

Escrevo a cinco anos. Sempre sonhei com isso. Blog de internet, colunista de jornais, revistas. Fazer parcerias importantes. Livros. Opinar de forma sensata sobre assuntos delicados. Trazer lucidez a insanidade contemporânea. Quem sabe até ganhar uma grana fazendo esse tipo de coisa. Era esse o sonho.

Além de escrever, inspirado pela presença profunda e cuidadosa de um pastor de minha comunidade, peguei gosto pela leitura. Leio bastante, como se tudo dependesse disso. Às vezes, acho que leio demais, às vezes, acho que não li nada ainda. É um misto legal. Acho que tudo depende da leitura, e ao mesmo tempo acho que a leitura estraga as percepções mais verdadeiras, gerando em nós, um mero discurso frio e distante da realidade real das pessoas.

Criei senso crítico. Parei de escrever o que qualquer pessoa escreve, e passei a colocar bem as palavras, pelo menos eu acho né. Tem gente que fala que é um dom de Deus. Fui percebendo que coisas que percebia, conversas intensas, gratificantes e sinceras, viravam textos que desnudavam a alma de pessoas carinhosas, que aqui pelo MVC, fizeram questão de se aproximar de mim. E como sou grato a Deus por cada e-mail recebido, história compartilhada, mensagem que me é enviada.

E qual o sentido da sua vocação?

Notei também que existe uma bandeira a ser levantada. Algumas denúncias precisam, urgentemente, serem feitas. Ah, como textos que escrevi geraram burburinho. Desde apelidos na internet, julgamentos, até situações constrangedoras em relacionamentos reais. Sou grato a Deus por cada experiência dessa aqui, todas elas geram um pouco mais de cuidado ao colocar as palavras no papel, ou no caso, na tela de um computador.

Já fui mal interpretado. Já fui interpretado melhor por quem me lia do que por eu mesmo que escrevi. Muita coisa aconteceu. Até a percepção de que algo precisa mudar. E não é somente em mim. Em nós.

A criticidade é algo admirável, quando a serviço do Reino, não do ego. Cansamos dos cansados, eu diria. É preciso ser covarde para comparar o nível intelectual de quem não teve as mesmas oportunidades, e julgá-los menos preparados. É preciso covardia para identificar problemas e apenas apontá-los. É preciso mais do que prepotência para ser relevante. É preciso amar a igreja.

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E para onde vai a sua vocação?

Temo que vários dos textos que escrevi tenham sido usado como armas para gente covarde que não quer tratar o coração e apontou o dedo para erros cometidos por sua liderança. E aproveito, para pedir perdão, por tantos textos terem sido escritos inspirados em indignação pessoal, e não em inconformismo com o presente século, mesmo que dentro ou fora da igreja.

Temo que os posts aqui do MVC tenham se tornado um desabafo e não reflexão profunda da Palavra de Deus. Temo que a marca do discipulado tenha sido atribuída a um reducionismo do meu irmão em Cristo, para a exaltação das minhas percepções pseudo-teológicas. Temo que a gente não queira reconhecer nossas fraquezas, dores e traumas a serem derramados no altar do Senhor, e temos travestido elas de inconformismo “institucional”.

E qual é a sua vocação?

Gostaria de chamar corajosos. Gente que ainda crê em Deus; crê nas escrituras; crê na morte e ressurreição de Cristo; e também crê na Igreja do Senhor. Gente que entende que Jesus quer misericórdia. Gente que morra pelos outros. Gente que se nega. Gente que discorda, mas convive. Gente que sabe que é gente. E por isso, crê na ação santificadora do Espírito, que transforma a gente de gente como gente não deve ser, para ser à imagem de Jesus de Nazaré, gente como gente realmente é nos planos de Deus.

O evangelho, assim como a felicidade, é para se viver em comunidade. É impossível ser {feliz}, e também do evangelho, sozinho. Nosso Deus é “nosso” e é trindade, comunidade perfeita. À sua imagem e semelhança, que o Espírito nos conceda a “covardia” de insistir na vivência da fé.

A caminhada sozinha é desértica, ressequida. E na comunhão Deus derrama a sua unção (Salmo 133). Que sejamos covardes, em nome de Jesus, para vivermos a bênção de irmos juntos para o estouro.

E aos corajosos solitários, a gente ainda está aqui, com a mesa posta, a Bíblia aberta, um coração disposto, e com uma oração e votos se reconciliação. Você é bem vindo, vem partilhar com a gente, queremos te ouvir. Vem reacreditar na igreja conosco, é aqui que reencontro a minha vocação.

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Colabore conosco, ajude-nos a abençoar aqueles que precisam se encontrar com gente que precisa de comunidade. Ajude o MVC a promover a sua vocação: a edificação daqueles que se propõe a viver o Reino de Deus com seus irmãos.

Em amor e pelo amor.