A igreja dos espelhos

Uma alegria

Muito me alegra a ascensão que tenho visto dentro do meio cristão no que tange ao apreço e preocupação da igreja com a arte, a estética, a liturgia e a dinâmica do culto.

Quando falo de arte, estética, dinâmica do culto e liturgia, falo de arte na igreja para a própria igreja, mas falo também de arte da igreja para fora da igreja — entretanto, este é um caso bastante específico que não abordaremos hoje. Falo ainda, da estética dos templos, das programações, dos detalhes, das decorações, dos simbolismos. Falo de um culto organizado, pensado, dinâmico e planejado. E não daquelas liturgias que muitas vezes nos fazem corar de vergonha, tamanho o nível de improviso e despreparo dos dirigentes da reunião.

Vejam bem, não estou falando de dinheiro, nem de ambientes humildes, estou falando de organização, planejamento, criatividade, preparo, apreço, carinho e amor.

Não é pelo fato de termos uma conta bancária magrinha em nossas igrejas que temos de ser necessariamente desleixados, desorganizados e amadores naquilo que fazemos. É possível sim, sermos caprichosos e organizados com poucos recursos, basta termos força de vontade!

Este apreço pela estética, pela dinâmica, pela contemporaneidade da linguagem das ocasiões em que nos reunimos em nossas igrejas é algo bastante positivo, que deve ser preservado, pensado e cuidado pelas igrejas com todo zelo.

O teólogo anglicano John Stott, certa feita disse algo fantástico, e sobre estas palavras de Stott construo minha breve reflexão, ele diz: “ser bíblico e não ser contemporâneo é fácil, ser contemporâneo e não ser bíblico também é fácil, o verdadeiro desafio está em conseguir ser ao mesmo tempo, bíblico e contemporâneo”.

Um alerta

A partir desta pequena, mas impactante assertiva de Stott, sugiro que façamos o esforço de não transformar as ocasiões de culto, ou seja, os momentos onde a adoração a Deus, a pregação da Palavra e a edificação mútua entre os irmãos devem ser a prioridade, numa espécie de celebração comunitária daquilo que nós mesmos achamos que é bom e que nós mesmos gostamos de fazer. Trata-se de um perigo sutil e silencioso.

Por vezes, é possível, e este é o grande ponto para o qual gostaria de chamar sua atenção, que fiquemos tão envolvidos com a programação, com os convidados, com a decoração, com o tema, com a comunicação do evento, com os encontros que dali surgirão, enfim, com toda a demanda que envolve aquele determinado dia, que corremos sérios riscos de inverter a ordem que deve balizar o processo. E a ordem é esta: na igreja de Cristo, o centro nunca deve ser aquilo que me apraz ou o que ou quem eu acho que é bom, antes, todo meu trabalho e dedicação — e isso inclui, com todo vigor, a estética, a arte e a dinâmica do evento — deve ser na direção de iluminar o Cristo, de modo que seu nome e sua mensagem sejam alçados aos mais altos lugares daquela oportunidade, o que, por vezes, poderá nos causar desconforto e desconforto aos presentes, afinal, estaremos diante da mensagem do evangelho, e a mensagem do evangelho, nem sempre é algo fácil de se ouvir.

Lógicas invertidas

Entretanto, mesmo diante de desconfortos e confrontos, jamais devemos negociar. Temos de entender que a dinâmica e a missão da igreja são únicas e completamente distintas da dinâmica e da missão de uma empresa, ou de uma universidade, ou de uma ONG.

Na igreja, Cristo deve sempre ser o centro. Não o evento, não a decoração, as luzes e o som. Não a bela campanha de marketing acompanhada de uma brilhante peça de design eficientemente divulgada e trabalhada nas redes sociais. Não as comidas, a atmosfera, o teatro, o pregador, o palestrante, o fórum, o convidado ‘x’ ou a banda ‘y’. Todas estas coisas são maravilhosas, mas não podem ser o centro, antes, devem apontar para o centro: Cristo.

Para aproveitar a metáfora do professor Jonas Madureira, todas estas coisas devem funcionar como holofotes, que saem completamente de cena a fim de iluminar aquilo que verdadeiramente merece ser iluminado.

Na reunião de mulheres que você vai, ou na dos jovens, na dos homens, ou seja lá qual for a programação que você frequenta, não é do clima, da atmosfera, da comida, da decoração, da música, do bate-papo informal e do fato de estar com outras pessoas aparentemente parecidas com você papeando sobre coisas parecidas com as suas que você precisa. O papel primaz da igreja não é fornecer-lhe estes aparatos em troca do seu bem-estar, isto pode revelar-se um terrível engodo, posteriormente. O papel da igreja é muito mais robusto e profundo do que este. É um papel que somente ela pode fazer, ninguém mais.

O que você precisa na verdade é do evangelho. De ensino sólido da inesgotável Palavra de Deus que revela, de fato, quem é Deus e nos livra da tentação de construirmos um deus imaginário e falso, criado a nossa imagem e semelhança, que nada tem a ver com o Deus das Escrituras.

Nossa necessidade suprema e vital sempre será conhecer a Deus, é nisto que deve estar a âncora de nossas vidas e de nossas programações, pois como poderemos temê-lo e servi-lo sem conhecê-lo?

Não temos de nos reunir apenas para falar de nós e de nossas questões em comum, temos de nos reunir para falar de Deus e de Suas questões eternas, pois as eternas questões de Deus permeiam todas as nossas questões em comum, desde todas as eras e em todos os lugares.

A lógica não pode ser invertida e o centro nunca deve deixar de ser a glória da graça de Deus.

O problema de se inverter as prioridades colocando a programação e suas características tão bem trabalhadas no lugar de Cristo, é que, primeiramente, você avilta a glória de Deus, e, quando o evento não for daquele jeitinho que você tanto gosta, você não irá mais, ou seja, não é sua comunhão com Deus que motiva seu trabalho feito com excelência para Ele, é o trabalho feito com excelência que motiva sua comunhão com Deus. E aí temos um grande problema, pois se para você se sentir motivado a buscar a Deus, você precisa de um motivo maior do que o próprio Deus, o que você está buscando não é a Deus, mas um ídolo, que atende pelo nome de entretenimento.

Riquezas e pobrezas

Devemos nos empenhar a que nossos esforços estéticos e litúrgicos não acabem desviando o foco de nossos irmãos do Cristo e segmentando nossas igrejas, ou seja: naquela igreja só vão os hipsters, naquela apenas só os nerds, na outra os jovens com mais de 25 anos, naquela outra os intelectuais de meia idade, na outra os da terceira idade e naquela outra mulheres com mais de 40.

O exercício da comunhão de modo algum deve ter como fundamento último, gostos em comum que eu tenho com meus irmãos, ou idade, ou interesses, ou atividades, ou seja o que for, antes, a pedra fundamental sobre a qual devemos construir nossos relacionamentos de fé é a pessoa e obra de Cristo Jesus, nosso Salvador, que tem o poder de unir o que foi, é e sempre será, o que há de mais antagônico em toda a história: um Deus que é infinitamente Santo a homens e mulheres vis e desprezíveis como eu e você.

Podem existir afinidades e programações especiais para os diversos seguimentos que compõem a igreja? Claro que sim e devemos até mesmo trabalhar para viabilização de tais atividades!

O que julgo ser pernicioso e preocupante, é que busquemos na igreja irmãos que sejam espelhos apenas. Que busquemos a comunhão apenas dos irmãos com a mesma faixa de idade que a nossa e com os mesmos interesses que os nossos.

Que menosprezemos a riqueza de uma moça aprendendo a ser mulher com uma senhora, de uma mulher sendo revigorada pela vida e inocência de uma criança, de um jovem rapaz sendo ensinado no caminho da justiça pelo homem de meia idade e do homem de idade já avançada sendo visitado e amado por um grupo de jovens cheios de alegria e ternura no coração.

Meu receio é que tenhamos uma igreja para cada segmento estético-cultural e nos furtemos ao desafio da luta pela unidade na diversidade com base no poder agregador do evangelho de Cristo, uma vez que a beleza da igreja é justamente o fato dela ser uma família com gente de todas as classes, povos, costumes, idades e lugares, reunida pelo Espírito Santo com o propósito único e sobrenatural de servir e confessar o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. É na beleza da diversidade que habita a essência da unidade da igreja de Cristo.

Emprestando a belíssima figura dos irmãos do Movimento Mosaico, devemos olhar para a dinâmica da igreja a fim de descobrir quais pobrezas nossas riquezas dadas por Deus podem suprir na igreja de Cristo, e quais riquezas a igreja de Cristo tem para suprir nossas vidas tantas vezes imersas em tão grandes pobrezas.

Sendo assim, não nos utilizemos de argumentos estéticos, artísticos, culturais ou litúrgicos para segmentar o corpo de Cristo. Não fomos chamados a comungar numa igreja de espelhos, antes somos chamados à brava luta de, todos os dias, fundamentados no Cristo e em Seu evangelho, provar da beleza, das alegrias e dos desafios de se viver a igreja como ela é, em toda a sua diversidade e riquíssima pluralidade!

O evangelho de Cristo é infinitamente mais poderoso para nos unir do que qualquer diferença estético-cultural é para nos separar. O litúrgico, o cultural, o estético e o artístico são ferramentas para nos iluminar o Cristo, e sobre o Cristo devemos nos manter em uma só fé e uma só voz.

Que Deus nos alcance!