A Igreja não é o Reino de Deus

Existe uma ideia “crentesca” popular, de que a Igreja representa a totalidade do Reino de Deus, e dizer isso chega a ser engraçado, pois como é possível segmentar a ação do Rei dos reis a algo tão específico e restrito. O Reino é algo muito maior do que a Igreja, pois engloba a totalidade da vida, tanto no presente como no futuro, “atacando o mal em todas as suas manifestações” e carregando consigo sua essência política, indo contra a opressão da exploração de qualquer tipo de sistema, ainda que seu objetivo principal não seja o de levantar novos manifestantes ou revolucionários políticos, enfim, diante de todas estas verdades nem as Escrituras se preocuparam em definir o Reino de Deus através de palavras e de propósito, pois confiná-lo dentro de uma definição com um fim seria acabar com sua integralidade transformadora atenta a cada detalhe da vida do ser, não somente daqueles que fazem parte da Igreja. Ela, a Igreja, é um agente do Reino, trabalha em favor do mesmo, está completamente atrelada a ele, porém não tem a função de trazê-lo, apenas de manifestar a obra de Cristo e reconhecê-lo como Senhor de todas as coisas.

Outro equivoco é assumir que a Igreja e o Reino não se misturam com o mundo, uma realidade cada vez mais disseminada entre os religiosos contemporâneos que ao invés de ir em direção a ele, esperam que ele venha até a Igreja, tendo que, por muitas vezes, pra não dizer na grande maioria delas, imitar o seu “sistema” passando por cima de valores expressados por Cristo, usando como desculpa a estratégia de alcançar os perdidos ao invés de ir na ferida junto ao que está sofrendo e deixar o Espírito Santo agir não somente para que recebam a eternidade com o Pai ou a salvação da alma, mas também a salvação imediata em todos os seus aspectos: na sua vida social, na sua família, no seu corpo, enfim salvação completa. Quando a Bíblia diz que Cristo libertava o endemoninhado do demônio que o oprimia, a palavra original utilizada em “libertar” significava no original nada menos que “salvar”, ou seja, Cristo salva o ser ainda neste tempo e não somente no pós-morte – que é sem dúvida o ápice da salvação – mas também no presente transformando todas as áreas do indivíduo. O mais interessante é que a Igreja sente a necessidade de ser bem aceita, recebida e acolhida pelo mundo e quando não é, vira as costas para o mesmo. Cristo faz exatamente o contrário. Ele era a escória, odiado pelos fariseus e religiosos da época, desagradava a todos e não mudava a Sua “estratégia” para que viessem até Ele, apenas se importava com as pessoas, indagando a função da Lei para o povo da época, mostrando que ela não poderia sobrepor a humanidade do ser ou então, perderia o sentido de existir e mesmo assim os amava e foi até o fim, por aqueles que cuspiram em Sua face, clamando ao Pai que os perdoassem e ainda mais, morrendo a morte deles.

A Igreja, como já foi dito acima, é a expressão do Reino de Deus, pois é ela quem manifesta a vida de Cristo em seu próprio corpo, não que ela seja perfeita, muito pelo contrário, é indigna e sabe disso, a verdadeira Igreja reconhece isto, mas deixa Cristo e a Sua Palavra se manifestar e operar nos seres como um todo, claro que tudo isso é muito bonito na teoria, o saber disto nos enche de prazer e nos desafia, porém quando passa para o campo da prática, vira estatística de quantas vezes é negligenciada a missão que começou em Deus no qual fomos chamados a realizar e não fazemos. O que é vivido hoje, pelo menos em nossa realidade, é um corpo que se ama muito e tem expressado os valores do Reino ainda que não completamente, mas que ainda está longe de ir para os lugares mais difíceis do mundo, não para julgar “soteriológicamente”, mas para simplesmente amar e expressar este Reino que tem um Rei que veio até aqui pra nos dar o exemplo de como fazer. A Igreja precisa crescer muito ainda, não apenas no conhecimento, mas na manifestação do Cristo em sua vida, como está escrito em II Coríntios 3.3: “somos carta de Cristo”, o mundo nos lê diariamente, e se não O manifestamos, como é que podemos edificar a estes que nos observam? Mais do que palavras precisamos pregar Cristo com nosso testemunho e o Espírito Santo que habita em nós continuará Sua obra transformando nosso coração pra sermos canais da verdadeira salvação na vida daqueles que ainda não se reconhecem participantes do Reino de Deus.