A Presidente Dilma e a nossa
relação com a Bíblia

Claro que não há que se exigir conhecimento profundo da Bíblia Sagrada por parte de um chefe de Estado, pelo menos – atualmente e infelizmente – não é exatamente isso que se espera da autoridade máxima de um país. Todavia, é curioso notar a forma um tanto quanto simplória que a Presidente da República Dilma Rousseff utilizou para referir-se às Escrituras Sagradas no último dia 12 de Junho, em entrevista ao apresentador Jô Soares da TV Globo em seu programa diário, gravado especialmente e com toda pompa na biblioteca do Palácio da Alvorada em Brasília-DF.

Dilma recordou-se da época que esteve presa, quando dedicou algum tempo à leitura da Bíblia, falou da importância religiosa do livro como símbolo da fé cristã, predominante no Brasil, e também da beleza literária e histórica do Antigo e do Novo Testamento. Dilma ainda revelou que os escritos bíblicos foram de grande valia para ela na compreensão e utilização de metáforas, pois, segundo a Presidente, o texto bíblico se utiliza de várias delas, facilitando assim, a compreensão do conteúdo por parte do leitor. O apresentador Jô Soares, muito cordial com a Presidente, concordou com um singelo “é impressionante!”.

A bem da verdade, não houve nada de negativo ou pejorativo na fala da Presidente com relação a Bíblia, obviamente, nota-se que dos conhecimentos que ela possui, a Bíblia não está entre as especialidades, mas até aí tudo bem, de fato, um número muito reduzido de pessoas dedica-se esforçadamente ao estudo da Escritura Sagrada de um modo geral.

No entanto, nós cristãos, principalmente aqueles que se identificam com o protestantismo histórico, devemos lembrar e reafirmar algumas convicções basilares sobre este assunto. A Bíblia não é apenas um mero livro histórico, simbólico e rico em metáforas, antes, é a revelação última do que Deus é, quer e pensa sobre o homem, para o homem e sobre toda Sua criação. Estamos falando do compêndio literário mais importante da história da igreja! Podem parecer ponderações infantis e primárias as que eu fiz no início do parágrafo, porém, ainda que não consideremos a Bíblia um símbolo ou um livro meramente histórico, por vezes a transformamos numa espécie de amuleto que decora a nossa casa ou nos fornece palavras mágicas extraídas de uma caixinha de promessas, principalmente nos momentos que estamos em apuros. A pergunta honesta a qual temos de responder é se existe muita diferença entre o discurso da Presidente Dilma no Programa do Jô e aquilo que sabemos e pregamos sobre a Bíblia atualmente.

Por seu conteúdo demasiadamente firme e profundo para os dias de hoje, a Bíblia Sagrada tem sido colocada de lado em nossos púlpitos. Outros elementos têm ganhado o centro de nossas igrejas com o objetivo de atrair a atenção das pessoas. Já não cremos mais que a exposição bíblica é suficiente, nem pregamos mais que é vontade do Senhor salvar pecadores através da “loucura da pregação” simples do evangelho de Cristo, como diz firme e convictamente o antigo apóstolo inspirado pelo Espírito Santo.

Hoje damos tão pouco valor a Escritura porque a temos bonitinha em nossas mãos na hora e do jeito que quisermos. Esquecemo-nos dos inúmeros cristãos como William Tyndale, John Paton, William Carrey e tantos mais, que foram presos, açoitados, exilados, acometidos de todo tipo de doença e dor, incendiados vivos em praça pública, mortos de todas as formas, por lutarem pela tradução e democratização da Bíblia por todo o mundo no período da Reforma Protestante. Essas pessoas e muitas outras entregaram suas vidas pra que hoje nós tivéssemos o privilégio de ter a Bíblia Sagrada disponível da forma que temos.

Certa vez assisti a uma reportagem do ministério Portas Abertas que apoia a igreja perseguida em países muçulmanos, que mostrava um carregamento clandestino de Bíblias chegando a uma caverna onde se reuniam irmãos chineses. A reação daquelas pessoas diante das Bíblias foi algo que jamais me esquecerei, nossos irmãos choravam copiosamente de alegria, pareciam estar diante do bem mais precioso que poderiam encontrar em toda a vida, realmente estavam convictos que a revelação de Deus para o homem havia acabado de chegar para eles.

Em tempos onde a literatura de autoajuda ganha cada vez mais espaço nos corações e nas prateleiras dos cristãos, que coloquemos de volta a Bíblia no centro de nossas vidas, dando a ela a importância devida, reconhecendo-a como palavra de Deus, inspirada, infalível e inerrante, em resposta firme ao relativismo atual que tem jogado no lixo as bases da fé de muita gente. É pela Bíblia Sagrada que chegamos ao conhecimento de Jesus Cristo de Nazaré, nosso Senhor e Salvador. Que lembremo-nos todos os dias que para os cristãos a Bíblia não é apenas bela literatura, história ou um bom exemplo de metáfora, antes, é o poder de Deus para salvar todos os que creem e a fonte da qual tiramos toda nossa visão de mundo. É o livro que conforta o mais profundo da nossa alma nos momentos de aflição. É palavra de Deus, nosso Pai, que tanto nos ama.

Estudar a Bíblia é como contemplar um céu estrelado. Quanto mais você olha, mais estrelas você vê.

Que Deus nos alcance!