Amar ao outro ou ao meu ego?

“Que o amor de vocês não seja fingido, odeiem o que é mal e sigam o que é bom.” (Romanos 12.9)

Esses dias, em minha cidade, houve um desastre natural que deixou pelo menos 100 famílias desabrigadas, devido as fortes chuvas ocorreu um deslizamento de terra, soterrando e destruindo várias casas. Em meio a tanta tristeza e desespero achei um motivo para me alegrar e ter esperança na humanidade. O que consegui enxergar em meio ao caos foi a solidariedade das pessoas, o amor ao próximo, voluntários, cada um ajudando como podia, pessoas que não se conheciam, de diferentes hábitos, crenças e classes sociais se unindo para amenizar a dor do outro.

Eram anônimos ajudando outros anônimos. Toda a cidade se mobilizou e o mais interessante é que ninguém precisou participar de um curso intensivo de “como ajudar os desabrigados de Mãe Luiza”, ninguém precisou fazer uma assembléia extraordinária na sua comunidade pra decidir quanto da verba da igreja seria destinada aos desabrigados, as pessoas simplesmente se uniram e sabiam exatamente o que fazer, sabiam da necessidade e cada um ajudava de acordo com a sua capacidade. Eram pessoas doando, pessoas cozinhando para os voluntários e para os desabrigados, pessoas ajudando no cuidado das crianças e dos idosos, enfim se pessoas se doando e distribuindo compaixão. O poder público, a sociedade civil em geral, as igrejas e outras instituições estavam juntas com um único propósito, o de levar esperança aos que haviam perdido tudo. Queria que fosse sempre assim, não somente em momentos de tragédia, mas a solidariedade e amor não fingido a todo tempo e a quem quer que precise.

Isso me fez refletir que nesses últimos tempos as comunidades cristãs (algumas) estão com uma “pegada” mais social, uma visão mais voltada para fora das quatro paredes, uma preocupação com o meio ambiente, sociedade e política, percebo que surge uma galera menos focada em si mesma e mais no outro e acho tudo isso perfeitamente relevante, mas infelizmente um pensamento sorrateiro tem me afligido, a verdade é que tudo o que está em alta e sendo amplamente difundido e divulgado dentro das igrejas me traz certa preocupação. Penso: seria mais uma moda cristã? Uma onda que vai passar como tantas outras ou seria o amor genuíno enfim nascendo em nossas comunidades de fé?

Tenho certeza que existem pessoas comprometidas com o Reino, seguras do que estão fazendo, de porque estão fazendo e acredito que Deus tem aberto os olhos de muita gente em todo o Brasil para valorizar aquilo que Deus valoriza, mas a verdade é que nós temos que a todo instante verificar nossas intenções, cabe a nós a todo o momento fazer uma auto-análise e julgar nossas ações e motivações. Falando abertamente, tenho medo que em nossa comunidade cristã, de maneira geral, não seja achado o mesmo sentimento que encontrei nos anônimos que ajudaram as vitimas do desabamento.

Amor sincero.

A questão é que quando um cristão ou uma comunidade cristã inteira quer ser relevante porque é bom ser “politicamente correto”, porque outras igrejas agem dessa forma ou porque querem ser reconhecidas pela sociedade como uma igreja que faz a diferença e não porque foram motivados pelo amor genuíno, ilustra o que Paulo falava acerca de sinos que retinem. Com pouco tempo esse “amor” esfriaria.

E quando ajudar uma comunidade carente se torna mais importante do que ajudar uma pessoa de maneira isolada, não por causa da quantidade de pessoas beneficiadas, mas porque isso seria melhor visto e elogiado, precisamos com toda sinceridade rever nosso conceito de igreja/cristão relevante. Dale Carnegie falou em um de seus livros que todo ser humano anseia por ser reconhecido, tem fome de ser achado grande em algum de seus feitos. Acho que ele tem razão. Temo que ajudar ao próximo se torne moeda de troca para inflar nosso ego e nossa sede de reconhecimento público.

Falando nisso quem é o meu próximo? Podem deixar que eu mesma respondo: Meu próximo é aquele que está precisando de mim no presente momento. E não importa quantas pessoas vejam a minha “boa ação”, importa que eu consiga estender o amor com que Cristo me ama a outras pessoas por meio da minha fé posta em prática.

Aliás, acho que essa preocupação com a motivação de nossas ações para com os outros e nossa “promoção pessoal” também percorria a mente de Jesus quando Ele disse: “Mas você quando ajudar alguma pessoa faça de tal modo que sua mão esquerda não saiba o que está fazendo a direita.” (Mateus 6.3)

Amemos sim de forma despretensiosa e que ajudar uma pessoa e não ser visto ou reconhecido seja o mesmo que ajudar a uma cidade inteira e sair no noticiário, pois que seja apenas um, ser humano, merece toda nossa dedicação.
Não façamos o bem de forma vazia apenas porque dizem que é o certo fazer, isso é religiosidade. Não façamos o bem apenas para ser reconhecido porque isso é vanglória. Façamos por amor, tão somente, sem esperar recompensa ou reconhecimento. Apenas pelo prazer de amar.

Façamos tudo que pudermos por um morador de rua, um vizinho necessitado de ajuda ou uma criança abandonada, da mesma forma e com a mesma intensidade que faria por um país inteiro, caso tivesse recursos. E não espere até ter todos os recursos suficientes para algo grandioso, aquilo que vier às mãos para fazer, faça.

Que nossa motivação seja o amor ao outro e não a nós mesmos.

“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos; Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros” (Filipenses 2.3-4)

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