Carta aos que foram feridos pela igreja

Que bom que você chegou até aqui. Se só de ler o título desse texto o seu coração já bateu acelerado, puxe a cadeira, pegue um café, vamos conversar.

É duro lembrar de algo que já te fez sofrer. Pensar sobre essas experiências é quase como revivê-las, e não importa o quanto estejam esquecidas, se é que estão esquecidas, nossa reação a elas é quase sempre a mesma: uma tentativa de fuga.



Eu aprendi nos últimos anos, sentando e ouvindo pessoas, que não devemos e nem temos o direito, de subestimar a dor de ninguém. Isso porque nós temos o triste hábito de categorizar as dores por níveis de estrago, mas a verdade é que o tamanho e a intensidade da dor só sabe quem sente.

Alguém lhe decepcionou.
Um amigo lhe traiu.
Um líder despreparado não soube lidar com o seu erro.
Lhe rejeitaram ou agiram com indiferença.
Lhe sufocaram com tarefas e faltaram com cuidado.

São inúmeras situações e cada uma delas tem a sua importância. O mais duro é saber que a maioria dessas feridas são causadas por pessoas que lhe conhecem e aparentemente pareciam te amar, ao menos, tinham pensamentos positivos a seu respeito. Quando não se trata de qualquer pessoa, mas alguém que se chama pelo nome cristão, essa dor pode nos deixar confusos e embaçar nossa visão de quem Deus realmente é.

Esse texto não é sobre apontar culpados, mas sim sobre encontrar o caminho para restaurar o seu coração.


A ferida muda a gente

Feridas provocam mudanças terríveis em nossa vida. Passamos a conviver com um turbilhão de sentimentos indesejáveis: dor, raiva, medo, vergonha, frustração, ressentimento, ansiedade… a gente alimenta tanto eles que uma hora somos dominados e escravizados por eles. O que torna isso ainda pior é o fato de tentarmos lidar com isso tudo sozinhos. Quantas vezes você reabriu essas feridas, mantendo conversas imaginárias consigo mesmo, com uma sensação terrível de culpa e desejando desesperadamente ter a chance de um recomeço? Tudo o que você deseja é ter simplesmente um pouco de paz.

Talvez você tenha pensado em orar — talvez tenha o feito, mas quando uma ferida é causada em um lugar já sensível no coração, o que vemos é só abismo. Nos sentimos tão mal que nos julgamos indignos de dar sequer um “oi” pra Deus. Já pensou em conversar com alguém próximo? Você encontra forças para abrir o coração ferido, mas esse alguém nem sempre está preparado para lidar com isso. Em muitos dos casos, essas pessoas são contagiadas pela mágoa, tomam partido seu e acabam ampliando um problema que já era complicado.

Jesus te compreende

Os de “dentro” também feriram Jesus. Ele foi ferido e rejeitado por aqueles a quem veio salvar. A Bíblia conta que Ele veio para os seus, mas os seus não o receberam. Não foram os romanos, nem os gregos, ou tampouco os “pagãos” que não o quiseram, mas seu próprio povo, o chamado povo de Deus, aqueles que o esperaram por tanto tempo, que o atacaram e feriram com palavras duras e uma rejeição pesada. O que Jesus fez?

“Quando insultado, não revidava; quando sofria, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga com justiça” (1Pe 2.23).

Jesus se entregou a Deus.

O Pai sabe de tudo. Isso por sí só já deveria te trazer algum conforto e segurança. Ele também se importa com sua dor, não está alheio ao que acontece na tua vida, mas é parte disso junto com você. Deus te conhece tão bem e por isso só Ele pode te conduzir de volta. Assim como Jesus fez, você precisa se entregar a Deus.



Davi costumava abusar da franqueza diante de Deus, mas ele conhecia o Pai tão bem, sabia que não ficaria bravo se um filho agisse com sinceridade. Quase sempre Davi começava uma oração reclamando, se queixando de algo e, muitas vezes, demonstrando raiva contra seus inimigos, mas geralmente ele terminava a oração com um louvor a Deus. Voltando pra você, sua oração pode começar abrindo seu coração, falando sobre suas dores e mágoas, apontando quem lhe machucou, dizendo como você se sente, até reivindicando uma ação punitiva de Deus contra aqueles que te causaram tanto mal. Dependendo da sua sinceridade, certamente essa oração terminará com seus olhos voltados para Ele. A oração vai colocar sua mágoa em perspectiva. Quando você se concentrar em Deus e em quem realmente Ele é, vai começar a se enxergar melhor e as pessoas que te feriram não parecerão tão terríveis e a sua ferida, de alguma forma, vai doer um pouco menos.



Mudança de foco

Você pode estar tão preso à amargura, à raiva e ao ressentimento que está arruinando sua vida no presente e estragando qualquer esperança no futuro. Você pode colar na parede do seu quarto o nome dos teus malfeitores, mas a verdade é que é você que se encontra cada vez mais afundado em sua falta de perdão.

Se você quer que suas mágoas internas sejam curadas, então precisa ser honesto consigo mesmo. É difícil, mas necessário, mudar o foco do seu olhar. É uma escolha corajosa. Tirar a viga do próprio olho, enfrentar o passado, morrer para o orgulho, admitir os erros, desistir da vingança, enfrentar aqueles que te feriram mesmo correndo o risco de sofrer outra mágoa.

O caminho para a cura não é a vingança. O caminho para a cura não é rejeitar Deus e abandonar a fé. Não é culpar os outros e se conformar em ser a vítima. Nada disso aliviará sua dor. O remédio que Deus oferece é simples, mas radical:

“Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou” (Cl 3.13).

Você estaria disposto?

Entregue sua mágoa a Deus perdoando quem o feriu. Certamente essa é a última coisa que você gostaria de fazer. Mas olha, eu aprendi que perdão é uma escolha que me foi ordenada. Se fosse só um sentimento ou uma emoção eu poderia simplesmente deixar de obedecer, porque nem sempre controlamos nossas emoções e sentimentos. É, pura e simplesmente, uma escolha. Se nós perdoássemos apenas quem desejássemos, muita gente ficaria fora do nosso perdão. Mas é uma decisão que tomo porque Deus me ensinou a perdoar, e por um simples motivo: Ele me perdoou e, como um ato de adoração e gratidão, escolho perdoar outros.

Precisamos olhar mais para os ferimentos que Cristo suportou por nós. A decisão dele de perdoar não parou aí, sua escolha foi seguida por um amor sacrificial. Ele morreu por nós. Se é um grande esforço caminhar sem tirar os olhos do passado, olhe pra cima. Em meio a todo esse sofrimento, existe algo que é extremamente restaurador, que é o amor do nosso Pai. Será que vale a pena viver distante do seu amor? É hora de colocar todas as suas dores e incertezas, toda a culpa e medo, diante Dele em oração. Sentir, enfim, seu abraço de cura.


 


A cura depende de você, não do outro

Essa talvez seja meu conselho mais absurdo. É necessário coragem para trocar de lugar com o outro, se colocar na cadeira do réu e pedir perdão pelas suas próprias vigas e por qualquer manifestação de orgulho, pecado, faltas e fracassos que você possa ter cometido, enquanto você conduz a outra pessoa em direção a Deus também. Sabe aquela paz tão desejada? Vai sentir como é retirar um peso enorme das suas costas. Pra isso é necessário mudar o foco, aceitar o tratamento de Deus e aí sim, experimentar o seu descanso. Isso alegraria o coração do Pai.

Não foi a igreja que te feriu

Eu também fui ferido dentro da igreja. Em várias ocasiões, de diversas maneiras. Cheguei a ter durante um tempo aversão à igreja. Depois de algum tempo fora dela e totalmente distante do Pai, pude ouvir claramente sua voz falando no meu ouvido: “essa não é a minha igreja”.

A igreja é um organismo vivo, belo e maravilhoso. Ela é o corpo de Cristo. No entanto, ela é formada por pecadores e pessoas que cometem erros. O certo é que precisamos sempre reconhecer esses erros e isso precisa gerar em nós arrependimento e pedido de perdão. Mas, espero de coração, que a Igreja verdadeira tenha uma nova chance. Temos muita coisa a superar. Em muitos aspectos eu sofro quando vejo as igrejas perderem tantas pessoas. Isso deveria nos colocar de joelhos, profundamente envergonhados pelo mal que causamos. Como cristãos conscientes, temos que nos esforçar com todo o nosso ser para que a Igreja seja vista como uma família amorosa, receptiva, como um agente positivo de mudança.

Se você é alguém que foi ferido pela igreja, como Igreja e em nome da Igreja, preciso lhe pedir perdão. E como Igreja preciso concentrar meus esforços em promover um ambiente saudável e acolhedor onde você possa se sentir abraçado e cuidado. E que você entenda, a despeito das nossas fraquezas e enganos, ainda somos o Corpo de Cristo, sua Noiva a quem tanto ama. Nesse corpo você sempre será bem-vindo.

Você gostaria de nos contar um pouco da sua história?
Espero que esse texto tenha lhe dado algum conforto e coragem pra fazer o caminho de volta e encontrar a cura e a paz que tanto deseja.