Até o diabo é mais sincero

Nós não temos vocação para assumir erros. Pelo menos posso dizer que talvez tenhamos perdido tal dom no meio do caminho. E é sempre assim: gente colocando a culpa de seus fracassos nos lombos de outras gentes; o povo elegendo majoritariamente culpados no grupo daqueles que estão governando; governantes dizendo que o povo é que não é engajado; namorados dizendo que a culpa de sua frieza mora no descaso das namoradas; namoradas dizendo que o seu descaso é consequência da falta de atenção dos namorados; e assim por diante.

Pode parecer exagerado o que vou dizer, mas tudo isso é reflexo da nossa vontade de querer ser Deus. Quem já ouviu falar da “síndrome de Lúcifer”? Não aceitamos que nossas imperfeições tenham raízes em nós mesmos ou, então, teríamos que chegar à conclusão de que não somos quem achávamos que éramos e longe de nós ter de admitir isso. É muito melhor encontrar culpados, eleger “bodes expiatórios” que carregam o peso da responsabilidade do erro, do não acerto, do desvio.

Outro apontador desse nosso detestável modo de ser e agir é nossa construção pessoal de medo. E nem digo que seja de caso pensado, creio que esteja mais no campo da inconsciência. Quantos de nós não fomos levados a cobrir nosso corpo até a cabeça nas noites em que esse sentimento tomou conta da nossa mente, como se o fato de cobrirmo-nos adiantasse alguma coisa diante do pseudoperigo imaginário. É mais ou menos como o avestruz que, para se sentir protegido, enfia a cabeça na terra deixando todo o seu corpanzil de fora.

O medo é uma praga. Tem quem diga que ele é importante para manter-nos alertas e suspeitar dos maus caminhos a serem trilhados. Todavia, é justamente por causa dele que acabamos deixando de lado uma vida inteira em busca de algo que não contempla a nossa verdadeira identidade.

Mas a nossa maior estupidez é sentir medo de Deus.

“Então, a serpente disse à Mulher: “Vocês não vão morrer. Deus sabe que, no momento em que comerem daquela árvore, vocês vão perceber a realidade e serão como Deus: conhecerão todas as coisas, tanto o bem quanto o mal. A Mulher olhou para a árvore e percebeu que o fruto era apetitoso. Pensando na possibilidade de conhecer todas as coisas, pegou o fruto, comeu e o repartiu com o marido — ele também comeu. Na mesma hora, os dois, de fato, perceberam a “realidade”: descobriram que estavam nus! Então, costuraram umas roupas provisórias, feitas de folhas de figueira. Quando escutaram o som do Eterno passeando pelo jardim, na hora da brisa da tarde, o Homem e a Mulher esconderam-se entre as árvores. Não queriam se encontrar com o Eterno. Mas o Eterno chamou o Homem: “Onde você está?”. Ele respondeu: “Eu te ouvi no jardim e fiquei com MEDO, porque eu estava nu. Então, me escondi”

“E o Eterno disse: “Quem disse que você estava nu? Você comeu da árvore de que o proibi de comer?”. O Homem respondeu: “A Mulher, que tu me deste para ser minha companheira, ela me deu do fruto da árvore, e, sim, acabei comendo”. Então, o Eterno disse à Mulher: “O que foi que você fez?”. Ela respondeu: “A serpente me enganou, e acabei comendo”. (Gênesis 3.4-13 – versão A mensagem)

O medo leva-nos a uma tentativa de erguer muros que nos ofereçam aparente segurança. Veja que no trecho acima Adão tenta esconder-se do Criador por ter sentido medo, mas fica a pergunta: Adão era capaz de esconder-se de Deus? E mais adiante, por que não assumiu seu erro, dizendo: “Errei Senhor, me perdoe”? Tudo pela tentativa de ser o que não era capaz e nunca seria.

Nós não fomos gerados de Deus. Fomos criados segundo Sua imagem e semelhança. Um Deus-família só poderia ter criado um homem-família, mas nunca e em nenhum momento seres divinos.

E quem somos nós então?

Homens e mulheres que deixaram a rebelião; que resolveram parar de trilhar o caminho que leva à morte; que reconheceram que não existe a menor possibilidade de um Deus infinito e, portanto, infinitamente maior do que podemos considerar ficar acuado diante dos nossos pífios intentos de contrariar suas ações, por mais que algo dentro de nós grite alto para que sigamos por essa trilha. E muito além de não sentirmos medo, devemos buscar a revelação de que tudo o que precisávamos para continuar a viver, mesmo depois da morte, já foi providenciado de antemão desde antes da fundação do mundo pelo Cordeiro (I Pedro 1.18-20).

Que tal então sermos sinceros diante de nossos fracassos? Lembre-se: é pelo sangue de Cristo que somos perdoados, e não por nossos feitos mais notáveis. Agora podemos andar “nus”, sem medo que descubram o que já é evidente não apenas em nós, mas em todos.

Deus nos livre de nosso medo.