Breve aula de feminismo para moças cristãs

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Há quem diga que a religião cristã é machista. E não é pra menos, basta olhar para a história do cristianismo e para todas as atrocidades que foram ditas e feitas em nome de Deus ao longo dos anos. Quem olha somente para a religião pode afirmar isso sem titubear, no entanto, quem se empenhou em conhecer de fato e com profundidade o Cristo de Nazaré sabe que as coisas não são bem assim. É necessário um olhar mais equilibrado, franco e com os pés no chão sobre o feminismo.

Em geral, as igrejas acostumaram-se a usar um discurso barato de que para a mulher “ser submissa é uma ‘bença’ e que elas devem entender que o marido é o seu senhor”. Mas e para o homem?  E o desafio de sacrificar-se em amor pela sua esposa? Não seria necessário dar a mesma ênfase, para que o homem não se torne um troglodita ditador que não considera a vida de sua esposa como preciosa?

Antes de fazer a graduação em Teologia, participei de um curso de formação teológica onde tinha de tudo: obreiro, diácono, líder de célula, pastor, bispo, apóstolo e também tinham alguns que como eu se contentavam com o título de “irmão”. Ao ser questionado sobre porque Adão errou no jardim a leste de Éden, um presbítero disse: “Adão errou porque não devia ter deixado a mulher sozinha. Quem errou mesmo foi a mulher, mas Adão errou porque o homem não pode deixar a mulher sozinha”. Eu não me aguentei e ri muito pensando que era uma piada. Outras pessoas também deram risada. No entanto, o rapaz que disse essa pérola não riu. Questionado pelo professor se estava falando sério, ele respondeu que sim, e, obteve concordância de alguns colegas de classe. Esse é o tamanho das aberrações que são praticadas por aí. Os ensinos da religião são, via de regra, machistas.

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A Bíblia é um livro machista?

Jesus Cristo não era machista, mas também nem de longe era feminista. Ele entendia que as relações humanas poderiam ir muito além dessas discussões pequenas e bobas. Jesus era ativista do amor. Para ele, o amor bastava como mediador de relações. Foi Santo Agostinho quem disse: “Ama e faz o que quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos.”

O movimento feminista de raiz atacou (ou ataca) a Bíblia pelo fato do livro sagrado trazer não poucas passagens falando sobre a liderança do homem em relação a mulher. A moralidade judaico-cristã, ou seja, a maneira de ver a sociedade, é taxada sempre de machista. Exemplos de interpretações mal feitas ou mal intencionadas, servindo somente às conveniências dos intérpretes. Não que dentro da fé do cristianismo não existam diferentes papeis e funções entre homens e mulheres, mas daí querer colocar um acima do outro é ignorar premissas fundamentais do texto sagrado, como o fato de que todos foram criados a imagem e semelhança de Deus e que Cristo é tudo em todos. Quando o movimento feminista de raiz começou a “perseguir” a Bíblia, propôs-se até uma reescrita do livro, propondo uma exclusão de termos de gêneros, onde não necessariamente Deus deveria ser chamado de Pai e assim por diante. Recorreram no erro outrora já cometido pelos cristãos: o extremismo.

O texto bíblico de Efésios 5 e 6 nos ensina que a mulher deve se submeter ao marido reconhecendo-lhe a liderança no lar. No entanto, que o marido deve se submeter à esposa amando-a ao sacrifício; que os filhos devem se submeter aos pais pela obediência; os pais devem se submeter aos filhos respeitando-os pela não-irritação; os funcionários devem se submeter aos patrões pela prestação de serviço excelente como se para Cristo fosse; e os patrões devem se submeter aos funcionários pelo trato justo e digno em todos os sentidos possíveis. Qual é a lição de tudo isso? Que a submissão é mútua. Em parte somos submissos e em parte somos respeitados com submissão.

Vejamos rapidamente um outro texto bíblico. Os teólogos mais ortodoxos olham para o texto de I Timóteo 2:11-13 e dizem que a justificativa de Paulo para a mulher aprender em silêncio é relativa a criação e não ao contexto que viviam. Pura “teologização”. Uma leitura mais coerente, contextual e sincera do texto deixa claro que as orientações proibitivas em relação às mulheres, neste texto, têm uma aplicabilidade circunscrita ao contexto vivido na igreja onde Timóteo era pastor e à época em que as mesmas foram escritas. A referência quer à criação, quer à queda, servem como elementos fortalecedores do argumento de Paulo, não implicando uma universalidade das referidas proibições, para todos os locais e épocas.

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Precisamos falar sobre machismo e feminismo na realidade cristã

Obviamente, não quero generalizar e dizer que o movimento feminista em todas as suas expressões e vertentes é por si só um movimento unicamente igualitário. É bem verdade que o feminismo extremo é tão nocivo quanto o machismo que impera.  Há suas distorções, como todo movimento que envolve pessoas. Existem sim feministas que querem ver os homens no fio da navalha, no entanto existem aquelas que simplesmente entendem que homens e mulheres devem ter direitos iguais, assim como Jesus pensava. Sim, Jesus considerava homens e mulheres igualmente. Ele escolheu doze homens para serem seus discípulos mais próximos, mas foi a um grupo de mulheres que escolheu revelar primeiro a beleza da ressurreição.

Sem a pretensão de esgotar o assunto ou ser o dono da verdade, concluo argumentando que feminismo não é uma tremenda besteira. Quando as premissas feministas alinham-se aos valores cristãos? Simples: quando grita pelo fim da violência, quando pede para que as mulheres tenham os mesmos direitos como trabalho, voto e educação, aí sim, é claro, que o cristão deve ser feminista. É quase desnecessário dizer que o título desse post é uma grande brincadeira, pois um homem nunca será capaz de ensinar mulheres o que é feminismo. A proposta não é nem mesmo uma explanação acerca do feminismo, mas tão somente uma conversa sobre o tema na realidade cristã.

Enquanto escrevia esse texto um amigo me perguntou “Você acha que machismo se cura com feminismo?”. Minha resposta foi “machismo se cura com amor. O dia em que homens aprenderem o que é o amor, o machismo vai embora. Deus é amor. O homem que diz que conhece a Deus e se diz machista, ainda não descobriu de fato quem Deus é”. É nisso que acredito.

E você, o que pensa sobre tudo isso?