O profeta Chorão em “dias de luta e dias de glória”

chora

Ao continuar a escrever sobre algo que gera tanta divergência de opinião, percebo que tem muita gente que se identifica com o tema, sente-se encorajada em continuar a pensar de determinada forma, mas também percebo os que se escandalizam, se espantam e tentam com todas as forças, frear a produção de qualquer tipo de mensagem que não se enquadre em suas opiniões doutrinárias.

A nossa série, como você sabe, já conta com os seguintes posts: “O profeta Chorão em Champagne e, água benta”; “O profeta Chorão em não uso sapato”; “O profeta Chorão em só por uma noite”; “O profeta Chorão em me encontra”; “O profeta Chorão em me encontra parte II”; “O profeta Chorão em céu azul”. E são esses, os responsáveis por provocarem em mim um grande sentimento de poder dar voz sobre o que muitos pensam, mas não tinham, até então, coragem de falar e defender seus pontos de vista posicionando-se sobre a inexistência da separação entre “música do mundo” e “música sacra”.

Antes de analisar o refrão da “profecia”, gostaria de chamar a atenção para uma frase que vez ou outra Alexandre falava antes de começar a cantar a música. A frase é: “canto a minha vida com orgulho”. Tenho aprendido, constantemente, com Jean Paul Sartre, em como viver a vida mais naturalmente, levando em consideração, a frase do citado autor, que diz: “Não importa o que fizeram comigo, importa o que eu fiz com o que fizeram de mim”; a vida trará suas dificuldades e lutas e não podemos negar, fugir e fingir que elas não existem, e mais do que isso, ao aprendermos a lidar com cada uma delas, a nossa única possibilidade será a de percebermo-nos melhores depois de cada luta enfrentada. Pelo menos mais amadurecido. Assim, a vida pode ser contada com maior vivacidade, mesmo com obstáculos tão grandes e angustiantes quanto pareçam ser.

Agora sim, o nosso refrão:

História, nossas histórias / Dias de luta, dias de glória / Histórias, nossas histórias / Dias de luta, dias de glória

Ah como a vida real é diferente dos contos de fada que ouvimos. Diferente, até mesmo dos contos “gospel” que escutamos por aí. O que dizer das músicas que cantamos com premissas de que sempre seremos abençoados, de que seremos somente felizes sem passar por angústias, com vitórias, sabor de mel, sempre vencedores etc, etc e etc.

O que tentam nos vender é uma grande mentira. A vida real não é assim. Ela, mesmo com Jesus de Nazaré caminhando conosco, é uma vida que experimenta as tristezas, o choro e os sentimentos de solidão. A vida real, mesmo que cristã, ou a vida cristã, quando real, passa por noites angustiantes, relacionamentos que vez por outra são percebidos como vazios, e ainda, por situações onde a esperança é, praticamente, inexistente, nos nossos pensamentos e jeito de lidar com a história. É uma vida que passa por seus percalços. Pensar nesse refrão é aprender a olhar para cada uma dessas dificuldades que temos de lidar e passar a enxergar que nem todos os dias da nossa existência são vividos nesse sofrimento e que, na verdade, eles são bem menos frequentes do que os dias de alegria, e tudo depende do quão proveitoso e do quão atentos estamos aos bons momentos de nossa vida. Não preciso dizer a todos como é comum valorizarmos mais as nossas crises e sofrimentos e como somos capazes de rapidamente esquecer das alegrias que encontramos nos abraços, nos sorrisos trocados e nas boas conversas. Esta alegria, quando valorizada, revigora o ânimo, mas a nossa alma cansada e naturalmente aflita tem mais afinidade com a autocomiseração.

homens

Na minha vida nem tudo acontece / Mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce / Hoje estou feliz porque eu sonhei com você / E amanhã posso chorar por não poder te ver mais / o seu sorriso vale mais que um diamante / Se você vier comigo, aí “nóis vamo” adiante / Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus / O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu / A vida me ensinou a nunca desistir / Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir / Podem me tirar tudo que tenho / Só não podem me tirar as coisas boas / Que eu já fiz pra quem eu amo / E eu sou feliz e canto / O universo é uma canção / E eu vou que vou

Voltando a falar dos contos de fada, como eles poderiam ser reais, né? Poderíamos viver todas as promessas bíblicas de uma forma tão consequente e seguida quanto essas são proclamadas nos púlpitos de nossas igrejas. Garantia de multiplicação do dízimo, da casa própria pelo carnê da igreja, e por aí vai. Mas não é assim, nem tudo acontece como a gente quer. Porém, havemos de concordar, que quanto mais a gente corre atrás e mais a gente caminha no discipulado com Jesus, maior é o nosso aprendizado e a nossa capacidade de enxergar as lutas, com mais tranquilidade, sabedoria e resiliência. Em alguns casos, conseguimos até aconselhar as pessoas a viver mais leve. Temos aprendido que errado mesmo é sofrer sozinho e que na comunidade cristã, ninguém tem esse direito. Jesus comprou com seu sangue um corpo, onde todos sentem as dores de todos e sofrem por todos. E assim, nesse senso de comunidade, onde todos são um só, viver em companhia de gente querida, possibilita-nos aprender e não perder as esperanças, a não sentirmo-nos sozinhos e desgostosos da vida, lutando de forma solitária contra as dificuldades e percebendo que, na verdade, nós podemos crescer muito com nossos relacionamentos de fé, onde o confronto é amoroso e pedagógico. É na fé comunitária que nós aprendemos nas pegadas do Mestre a forma de ser gente como gente tem que ser, porque só Jesus é gente do jeito certo. E em confiança total em Sua pessoa, vamos por onde tivermos de ir, despreocupados com o destino, atentando mais para a maneira de como vamos. Como diz o querido pastor Ed René Kivitz: “Felicidade não é um destino que se chega, mas um modo de se caminhar”.

Oh, minha gata, morada dos meus sonhos / Todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você / Eu já te via muito antes nos meus sonhos / Eu procurei a vida inteira por alguém como você / Por isso eu canto minha vida com orgulho / Com melodia, alegria e barulho / Eu sou feliz e rodo pelo mundo / Sou correria, mas também sou vagabundo / Mas hoje dou valor de verdade / Pra minha saúde e pra minha liberdade / Que bom te encontrar nessa cidade / Esse brilho intenso me lembra você

E o que dizer de quando nos encontramos, de verdade, num corpo local onde enxergamos Jesus, aprendemos de Jesus, somos respeitados como discípulos de Jesus, tratados como tais, amados, acolhidos, transformando realidades diabólicas e sinalizando o reino de Deus?. Não é verdade que a coisa mais complicada nesse sentido é ficar um período sem conviver com esses?. Parece que nosso desejo é o de estarmos juntos todos os dias. Aliás, esse é o grande segredo do senso comunitário de Atos dos apóstolos, a Igreja vivia junta no dia a dia, de casa em casa, buscando ao Senhor. Cansei de instituições “evento”, onde cada semana temos um grande projeto no qual devemos nos empenhar; cansei da igreja que não compreende como sagrada uma conversa num café, de conversas com olho no olho; cansei dos cultos de poder e desconhecimento do coração do meu irmão, que frequenta o mesmo espaço que eu, em busca do ensino, direção e vontade do Senhor para irmos pelo caminho da cruz.

Assim, eu entendo que a grande maioria da igreja evangélica, principalmente, no Brasil, percebe o evangelho como uma mensagem moral, conceitual e pouco prática, onde não são compreendidas formas de vestimenta, de diversão, de relação com o mundo, aliás o mundo é um ambiente hostil e infernal, no sentido espiritual da palavra. Contudo, o evangelho de Jesus Cristo, ao meu ver, nos ensina a lidar com o mundo, não como se fôssemos dele, mas crendo que este pode ser salvo e transformado por Jesus, crendo na disposição do coração de Deus, na graça, e no poder do Espírito que nos possibilita amar a todos quanto nos dispusermos, para assim, ver histórias sendo transformadas, não por nós, mas pela Trindade que atua em nossas vidas. O evangelho fala muito mais de liberdade, do que de culpa. Ele possibilita, então, sermos “correria” e também “vagabundo”, o que na minha modesta opinião, é ser gente de fé, que dialoga com a realidade presente também fora das paredes do templo.

Hoje estou feliz / Acordei com o pé direito / E eu vou fazer de novo / E vou fazer muito bem feito / Sintonia / Telepatia / Comunicação pelo córtex / Boom / Bye, bye

Deixo esse trecho para que você compreenda como e o que é bem entender, contudo, a comunicação pelo córtex precisa acontecer na sua fé. Chega de fé irracional e que ela ganhe significados verdadeiros e lógicos no seu coração e cotidiano.

Em amor e pelo amor.