Constrangido por uma alegria

Essa semana a minha meditação bíblica ocorreu no livro de Filipenses, uma carta do apóstolo Paulo aos irmãos de Filipos que tem como grande mote a alegria de servir a Cristo.

Essa carta poderia ser um livro “bonitinho” de ler, um livro feliz para ser lido nos momentos contentes, mas não foi assim que eu o encarei depois de me aprofundar em cada fala de Paulo. Na verdade, esse livro é constrangedor!

Filipenses nos revela um homem que havia largado tudo para falar de Jesus, que, após vinte anos de ministério, estava acorrentado em uma prisão domiciliar na cidade de Roma, sem condições de se manter e, mesmo assim, alegre e contente por estar naquela situação, que era a consequência do seu amor por Cristo e sua obra.

Eu não posso simplesmente achar bacana a alegria de Paulo, pois eu nunca estive perto do que ele passou. Ao ler o que Paulo escreveu eu preciso pedir perdão a Deus pelas “besteiras” que já me impediram de manter um coração grato a Ele, “besteiras” fruto de um coração egoísta de um filho de Deus mimado, não sei por quem, pois a bíblia não me mima, talvez pela religião que sabe fazer muito bem esse papel.

É vergonhoso ver igrejas que atrelam a vitória espiritual à conquista de bens materiais, enquanto Paulo se sentia vitorioso por saber que a sua prisão motivou outros a anunciarem a palavra de Deus. (Fp 1:12)

É vergonhoso ver líderes religiosos serem presos por associação ao tráfico, estupro, roubo, lavagem de dinheiro e, ainda assim, declararem que estão sofrendo perseguição, enquanto Paulo estava preso por perturbar a paz anunciando Cristo. (Fp 1:7)

É vergonhoso ver pessoas ordenando a Deus curas, milagres e dinheiro, enquanto Paulo se contentava ao saber que, mesmo depois de vinte anos servindo ao Senhor – sem nenhum real no bolso, sem jatinho, sem megatemplo, sem casa na serra, na praia e em Miami – acreditava que morrer naquela situação seria lucro. (Fp 1:21)

É vergonhoso ver as pessoas transformarem a preciosidade que se encontra em Filipenses 4:13 (Tudo posso naquele que me fortalece), em um versículo mágico que lhes garante tudo de bom e melhor nessa vida. Enquanto na verdade Paulo quis dizer que tanto faz a situação, seja com fartura ou passando fome, estaria sempre alegre, pois ele poderia passar pelo sofrimento devido a força que Cristo o concede. (Fp 4:10-13)

Carlos Drummond de Andrade tem uma frase que resume tudo o que vi saltar nessa carta de Paulo. Ele disse:

Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

A felicidade de Paulo, aos olhos humanos e capitalista, não havia motivo, mas essa felicidade se chamava Cristo. A minha oração é que, antes de qualquer motivo, Cristo seja a minha autêntica felicidade.