Do que morreram seus heróis?

Alguns meses atrás, a BBC divulgou dados alarmantes sobre os jovens de hoje: a taxa de suicídio entre 15 e 29 anos tem crescido lentamente, mas de forma constante nos últimos 15 anos, tendo um aumento de cerca de 10% durante esse tempo. Pensando sobre isso, preocupo-me com a visão que a Igreja ainda tem sobre o assunto, assunto esse que está na lista engavetadinha de tabus impronunciáveis e indiscutíveis em nossas reuniões. Que doce ilusão a de que, se longe dos lábios, esse tema passa longe das mentes das crianças e adolescentes que congregam conosco.

Um assunto ignorado, mas não distante

Até alguns anos atrás, eu só conhecia a palavra ‘suicídio’ das canções emos que escutava na época. Nunca imaginei que pudesse acontecer com alguém próximo a mim, com quem me importasse ou em quem me inspirava. Foi quando me mudei de cidade, sete anos e meio atrás, e uma garota que fazia parte da minha igreja virou parte das estatísticas, ao ser mais uma jovem a tirar a própria vida. A ponte que liga minha cidade à outra por cima de um rio virou mais do que um símbolo… Fez-se um meio para tentar aliviar as pressões dessa vida, afogando as esperanças de dezenas de pessoas com uma vida inteira pela frente.

A igreja ficou em silêncio pela dor da família, tristeza dos amigos e o constrangimento dos líderes. Palavras não confortam, fingimos que foi apenas um acaso infeliz. Mas ao me lembrar recentemente do assunto e comentando com uma colega que morava na capital, ela citou mais dois exemplos semelhantes em sua antiga congregação.

Aquela sensação pesou novamente em meu coração. Entendem a necessidade urgente de abrirmos a boca e a Palavra para abordarmos esse assunto? Estamos perdendo nossos jovens debaixo dos tetos dos nossos lares, entre as paredes de nossas congregações.

Enquanto isso, todo o conteúdo e suporte que essa galera tem tido são de seus “heróis”. Quando digo “heróis” no título deste texto, refiro-me às pessoas que estão em evidência influenciando essa geração, como os grandes nomes da música, das séries, os “influencers” da internet, que infelizmente não têm sido os melhores exemplos a serem seguidos. Honestamente, tenho muito medo de como nossa geração tem encarado um assunto tão sério e devastador.

E até quando vai durar isso?

Por mais desolador e perturbante que seja, ver essa situação acontecer não tem feito os jovens fugirem dela desesperadamente. Pelo contrário, parece que um abismo atrai outros abismo, e a dor da perda de um amigo, familiar ou referência seja apenas mais um desencadeador de outros eventos iguais. Pudemos ver isso recentemente com o vocalista do Linkin Park (que tanto me inspirou durante a minha adolescência), que foi devastado pela morte de seu amigo Chris Cornell, também cantor de sucesso como ele. Anos atrás pudemos ver dois músicos do Charlie Brown Jr. atingidos pelo mesmo problema; e até mesmo na polêmica 13 reasons why (spoiler alert!), quando o personagem Alex não aguenta a tensão do suicídio de Hannah e atira em si mesmo. É preciso interromper essa cadeia!

Não pretendo me aprofundar muito no assunto porque ele é extenso e complexo demais para ser destrinchado apenas nesses parágrafos. Além do mais, eu não tenho nenhuma resposta, mas sim mais questões na cabeça. Nessas linhas, só quero deixar um recado: não vale a pena, amigo! Você não está sozinho e existem, sim, pessoas ao seu redor que o amam e se importam o suficiente com você para que você não pense nisso! E é apenas isso que quero lembrar com esses simples parágrafos.

Lembre-se de Cristo…

“Traga a memória o que pode lhe dar esperança.” Lembre-se de que Cristo, em contrapartida a todos os tristes exemplos que temos tido (e dos quais meu coração dolorosamente muito se compadece), entregou sua vida para que a morte não tivesse mais poder sobre nós. Ele venceu toda dor, desespero, sofrimento e desesperança, levando todos eles em si para tirar esse peso da humanidade. É claro que iremos sofrer, chorar, entristecer-se e, muitas vezes, até pensar em desistir. Somos humanos e isso faz parte da nossa trajetória, mas Ele já venceu tudo, e nós com Ele podemos prosseguir também.

A única certeza que tenho é a de que, no meio da escuridão do túnel, Cristo é sempre Luz bem presente, abraço amigo, força mais do que necessária e resposta para todas as questões.