E Tu conservarás em paz

“Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia em ti.” (Isaías 26:3)

Semana passada tive um grande susto, algo que veio abalar minha tranquilidade, às vezes somos mesmo surpreendidos com o inesperado doloroso, não é? O que aconteceu foi que minha mãe passou mal e teve de ser hospitalizada com urgência. Eu não estava com ela na hora, fui avisada quando já estava no hospital, cada minuto pareciam horas e a minha chegada no local cada vez mais distante, era um misto de ansiedade por chegar rápido e ao mesmo tempo, medo do que eu iria encontrar, mas tudo que eu conseguia lembrar era desse versículo de Isaías: “Tu conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti; porque ele confia em ti.”

Apesar do pavor inicial (afinal perdi meu pai faz um ano e não queria perder também minha mãe) eu estava em paz, não porque decretei a vitória ou repreendi todo o mal, ou ainda pela certeza de que minha mãe ficaria boa, mas porque independente do que acontecesse eu sabia que de alguma forma Deus conservaria em paz o meu coração. E apesar de não gostar nenhum pouco da situação pela qual eu estava passando, eu confiava, não importava o que viria pela frente, Ele ainda era Deus e ainda sim O glorificaria, porque a minha adoração, o meu louvor e a minha confiança não estavam e nem estão condicionados à circunstâncias favoráveis.

Não é nada fácil estar em paz em meio à tempestade. Sei disso porque também já passei por momentos onde quis me desesperar. E por outros que “a paz que excede todo entendimento” me tranquilizou. Eu sei que é consenso entre as pessoas que paz é a ausência de guerras ou uma situação agradável com todas as condições favoráveis, mas creio que ela vá bem além disso.

Tempos atrás ouvi uma história que descrevia muito bem o que eu entendo a respeito do termo. Era mais ou menos assim: Havia um concurso entre pintores no qual levaria o prêmio aquele que melhor conseguisse descrever em seus quadros o significado de paz. Cada pintor deu o melhor de seu talento e criatividade. Terminado o tempo para que“pintassem a paz”, os jurados passaram a caminhar pelos quadros, algumas pinturas belíssimas tinham crianças dormindo, outros jardins floridos, outro ainda uma família sorrindo na praia, mas entre os quadros, um se destacava, era um pequeno barquinho de pesca no meio de uma tempestade e quase sendo coberto pelas enormes ondas. Os jurados acharam curioso e perguntaram em que aquele quadro desesperador transmitia paz, o humilde pintor explicou que aquele pescador naquele barquinho estava tranquilo, e que qualquer coisa que lhe sobreviesse, em seu coração estava em paz. Não preciso nem dizer que esse foi o quadro ganhador do concurso, e sabe por quê? Paz não tem nada a ver com circunstância, mas em onde está posta nossa confiança. De alguma forma aquele pintor sabia que mesmo sem conhecermos nosso destino, podemos confiar e descansar em segurança.

Lembro-me também dos amigos: Sadraque, Mesaque e Abdenego sendo lançados na fornalha e não importava se viveriam ou se morreriam, na verdade haviam aberto mão de suas vidas pela perfeita vontade de Deus e o coração deles estava em paz, apesar do seu possível destino doloroso. Na verdade eles sobreviveram, houve um milagre, mas ainda que tivessem morrido, o final da historia não seria menos belo, pois nos deixaram o exemplo.

Talvez nunca tenhamos de passar pelas mesmas histórias elencadas, mas muito provavelmente as tragédias virão, é questão de tempo. As coisas ruins não tem hora marcada para acontecer, aliás, parece que elas sempre escolhem o pior momento e por mais que achemos que estamos preparados, nunca saberemos como reagir até que de fato aconteçam.

Não tenho nenhuma dúvida que Deus faz milagres, que Ele muda situações se assim quiser, já vivenciei isso várias vezes, mas também já passei por muitas outras experiências onde as coisas não saíram do jeito que eu esperava e mesmo assim não duvidei do amor e do cuidado do Pai.

Nós seres humanos vemos apenas um recorte da história, um tapete de retalhos como diz o poeta Stênio Marcius na música “O tapeceiro”. Deus é ilimitado. Ele sabe o final desde começo e não perde o fio, não está vinculado ao tempo ou espaço, nada foge ao Seu controle e mesmo diante de uma situação desesperadora, nosso olhar deve estar voltado para Ele, assim como nossa confiança.

Como uma inocente criança que não se preocupa com nada, apenas dorme tranquila nos braços protetores de sua mãe, sejamos assim também.

Mesmo que as lágrimas caiam de nossa face por causa do medo e pela necessidade que temos de controlar as situações (e elas vão cair mesmo), ainda que o desespero e o medo do desconhecido nos assolem, podemos sim ter a paz que excede todo entendimento humano guardando o nosso coração da aflição. Não porque somos “super-homens” ou “super-mulheres”, mas porque “Ele conservará em paz o nosso coração” quando depositamos nossa confiança.

Minha mãe está bem agora, foi apenas um susto mesmo. Mas oro ao Pai para que em qualquer situação, seja esta com final feliz ou não, Deus conserve a paz do nosso coração.

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