O evangelho para o homem todo

A obra da cruz foi a realização do maior milagre de todos. Foi nela que a satisfação da justiça de Deus ocorreu, reconciliando o homem com o Pai, libertando-o de toda Lei que o prendia ao pecado, concedendo à salvação pelo Filho. Porém, essa verdade perdeu-se em meio a um “esquartejamento” do evangelho a partir de uma herança iluminista maquiavélica de segmentação, que propõe uma separação da vida de todos os seres em múltiplas áreas, dando a ideia de que em alguma parte posso estar bem, mas em outras tantas posso não estar.

Mas que corpo, ao topar o seu dedo mindinho no pé da cama, não sofre como um todo? Como pode partes tão distantes, mesmo que distintas e com funções diferentes, quando feridas, afetarem o funcionamento normal do organismo inteiro? E o que isso tem a ver com a cruz?

Cristo veio a esta Terra com o propósito de restaurar o nosso relacionamento

Com Deus: garantindo-nos o caminho e a reconciliação com o Aba (Pai), andando sob o teto da Graça, exalando a alegria da única esperança, a da Glória.

Com os outros seres: não apenas com aqueles com quem já temos relacionamento por pertencermos ao mesmo contexto religioso, mas também com todos os que ainda precisam ser alcançados pelo Espírito por intermédio de nós.

Conosco: ao assumirmos uma nova dignidade doada pelos poderosos méritos de Jesus e pela vida da nova criatura que agora habita em nós.

Com a Criação: “que é a dimensão cósmica da restauração”, na qual Cristo também é o primogênito e sacrificou-se para trazer regeneração (Colossenses 1.15).

O resultado dessa obra completa realizada por Cristo não pode de maneira alguma ter um fim apenas nos que são “de casa” e em seu espírito. O Salvador não se sacrificou para realizar algo pela metade. Cristo preza por tudo o que há em nós, inclusive nossa integridade física. E se o Mestre cumpriu a Sua missão dessa forma, por que, então, insistir nas separações?

Dicotomizamos até os tipos de chamado, como quem foi escolhido para pregar ou quem foi criado para ser “missionário”.

No trecho “Conflito pessoal” do Pacto de Lausanne, os autores deixam bem claro a posição real de todos que se reconhecem na cruz de Cristo:

“A Igreja tem que estar no mundo; o mundo não tem que estar na Igreja.”.

Quem deve influenciar é a Igreja e não o sistema que rege este planeta. Ela não é dele, mas está inserida nele e deve desempenhar a sua função de levar a verdade da Palavra e a centralidade de Cristo para restaurar de maneira integral todas as áreas do homem pela ação do Espírito Santo por meio das escrituras e de Seu povo.

Deixar esse pensamento maquiavélico entrar no seio da Igreja de Cristo é deixar o “mundo entrar”. Inúmeros argumentos são utilizados para justificar essa inserção sutil das coisas que não pertencem ao corpo de Cristo e são adicionadas como apêndices, muitas vezes deixando de ser marginal para tomar o centro ou a “razão para” que as coisas sejam feitas. Outro trecho fundamental do Pacto encontra-se em “A Igreja e a Evangelização”, onde está escrito:

“…Cristo envia o seu povo redimido ao mundo, (…), isso requer uma penetração de igual modo profunda e sacrificial. Precisamos deixar nossos guetos eclesiásticos e penetrar a sociedade não-cristã…”.

É necessária a ação da Igreja, o seu papel é ativo, e não passivo. A passividade dá espaço para que o “mundo” avance, libera o caminho à frente, não se compromete com aqueles que ainda não foram alcançados pelo Evangelho, vivendo ociosa e confortavelmente, buscando apenas sua própria satisfação, que, na maioria das vezes, é apenas superficial e emocional, transformando seu papel de sagrado em comum, negligenciando o chamado que é de todos, o de pregar o Evangelho a toda criatura com as palavras e as ações.

A Igreja precisa comprometer-se com o reino de Deus, comprometer-se a sinalizá-lo, manifestar o amor do criador com Sua criação na expressão prática, crendo na realidade de que não são merecedores de nada, verdade esquecida em meio a um evangelho fraco e solúvel, que não transforma, apenas ludibria.

Que a Igreja se levante com paixão e corra na direção dos que ainda não experimentaram a graça superabundante do Pai.