Filipenses, Poliana e o Jogo do contente

“Sei o que é passar necessidade e sei o que é ter fartura. Aprendi o segredo de viver contente em toda e qualquer situação, seja bem alimentado, seja com fome, tendo muito ou passando necessidade. Posso enfrentar todas as coisas com a força que Cristo me dá.” (Filipenses 4.12-13)

Quando eu era criança uma das minhas leituras preferidas era o livro de Poliana, de Heleanor H. Porter. Esse clássico infanto-juvenil fala sobre uma menina órfã, onde seus pais eram missionários, e que se encarregou de ensinar as pessoas ao redor um jogo aprendido com seu pai, “o jogo do contente”, cujo objetivo era extrair coisas boas mesmo diante das situações adversas da vida.

Lendo Filipenses esses dias, acabei me lembrando de Poliana e seu jogo. Pensei em todo o sofrimento que Paulo passou e sua afirmação de viver contente em toda e qualquer situação, seja em meio a fartura ou a privação e me deparei com minha incansável capacidade de reclamar muito e estar sempre insatisfeita, nunca agradecida e valorizando pouco tudo que tenho.

Lembrei de como Poliana sabia ser agradecida com tudo que ela tinha e mesmo na inocência de uma criança, sabia contagiar os adultos com sua simplicidade e amor pela vida. Lembrei que um dia eu já havia sido assim, criança, e de como é importante e quantas lições temos a aprender com as crianças. Elas sim sabem aproveitar a vida e de tudo tiram um motivo para ser felizes, elas simplesmente são assim, contentes.

Nós adultos estamos ocupados demais buscando aquilo que não temos para prestar atenção e valorizar aquilo que temos.

O contentamento é algo que deve ser reaprendido, infelizmente não é uma atitude natural ao ser humano adulto. Entendo que o contentamento consiste em três pontos principais. Você é contente quando é agradecido, quando sabe dar valor a tudo que está ao seu redor. Você é contente quando sabe definir prioridades, quando sabe bem a diferença entre supérfluo e necessário.  Você é contente quando entende que relacionamentos são mais importantes que coisas.

Vivemos numa sociedade de consumo, isso é normal, o que passa a ser nocivo mesmo é o consumismo, no qual pessoas ganham status de coisas e são deixadas de lado rapidamente. “Coisas” hoje têm um breve tempo de uso, rapidamente são descartadas, a cada estação ou a cada nova versão e essa atitude de descarte acaba abrangendo a relação com pessoas também. A todo instante você é incentivado a não estar satisfeito com o que possui, pois sempre tem algo novo para ser adquirido e aproveitado.

Nessa inversão louca de valores, relacionamentos acabam sendo descartáveis tal qual os objetos. Se você está descontente com seus amigos, namorado ou seu cônjuge, tudo é motivo para troca, porque jogar fora parece mais fácil que tentar consertar. Porque ter, aos poucos, se tornou mais importante do que ser. Porque conquistar coisas parece mais atraente que cativar pessoas. Nós crescemos e parece que nos tornamos importantes demais para perder tempo sendo contentes com a vida ao redor.

Até algumas igrejas se sujeitaram a essa inversão, estão embutindo em seus membros o inconformismo material com sua vida financeira, exigem bênçãos, declaram sua vitoria, proclamam que os filhos de Deus não devem padecer por dificuldades e eu fico pensando no que Paulo diria a essas igrejas, tendo sido chicoteado, esbofeteado, ter passado por necessidades, tudo isso por amor a Cristo, fico pensando nos primeiros mártires da nossa igreja que iam as arenas serem mortos pela espada, queimados ou atacados por leões, mas mesmo assim iam louvando a Deus, contentes com a fé que possuíam.

O pior é que essas mesmas igrejas, “proclamadoras de vitória”, ensinam à exigência da benção por meio da “fé” e a mudança radical na vida financeira, mas pouco estão preocupadas com a mudança verdadeira de vida, aquela que nos faz nascer de novo e sermos semelhantes a Cristo, amando e se preocupando com o próximo. Oram pela compra de sua terceira casa de praia, mas não movem um dedo em prol daquele que precisa comprar a feira do mês para sua família e que não tem dinheiro para isso. Estão formando crentes consumistas, ingratos e egoístas, pessoas que colocam os desejos pessoais acima das necessidades dos outros.

Não sabem eles que o “tudo eu posso naquele que me fortalece” não está falando que você irá conquistar obter ou possuir, mas sim que pode suportar a adversidade com o mesmo contentamento da bonança porque Cristo te capacita para isso.

A razão de ser do contentamento é ter a perspectiva correta das coisas, ter suas prioridades bem definidas, valorizar o que precisa ser valorizado. Buscar coisas que são eternas. Não construir tesouros na terra, saber a diferença entre o que eu preciso e o que eu desejo. Reclamar é um hábito, e contentamento é um posicionamento que nós tomamos diante da vida, seja padecendo em necessidade ou tendo fartura, como afirmou Paulo.

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