Impulsionado por um descontentamento

Deus permite o descontentamento para que eu possa
olhar pra Ele e impulsionar minha vida.

Segundo o dicionário a palavra contentamento significa a condição de quem está alegre e satisfeito.

Clara Nunes, uma das maiores vozes da nossa MPB, escreveu uma canção que diz: “Meu contentamento não tem fim , tomara Deus que isso venha a perdurar sempre assim, e por isso agora eu vou viver cantando….”. Fernando Pessoa, poeta português, escreveu em um poema que “Ser feliz é encontrar força no perdão, esperanças nas batalhas, segurança no palco do medo, amor nos desencontros. É agradecer a Deus a cada minuto pelo milagre da vida.” Raul Seixas, nome de referência no rock nacional, em uma de suas letras (Ouro de tolo) fala: “Eu devia estar contente porque tenho um emprego… eu deveria agradecer ao Senhor por ter tido sucesso…”.

Esses autores, de nacionalidade diferentes, culturas diferentes, credos diferentes, nos falam do mesmo sentimento: contentamento. Mas esses mesmos autores enfrentaram na sua vida diversos momentos de descontentamento, até na hora da sua morte. Clara Nunes faleceu aos 40 anos após ter se submetido a uma cirurgia resultante de diversas hipóteses, como aborto, tentativa de suicídio e até bruxaria. Fernando Pessoa faleceu aos 47 anos vítima de cirrose hepática, devido ao consumo de álcool. Raul Seixas faleceu aos 44 anos de pancreatite aguda, devido ao alcoolismo.

E nós, cristãos, como lidamos com o nosso descontentamento?

Pedimos ajuda, ou como diz Raul Seixas: “me sento no trono de um apartamento com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar…“. Buscamos estar sempre alegre, porque como filhos de Deus somos ensinados a viver sempre assim, mas em certos momentos enfrentamos tristezas, frustrações, decepções que roubam nossa alegria e nos privam da liberdade de extravasar. Mas é nesse momento de descontentamento que Deus se revela a nós, e se pararmos para ouvir o que Ele tem a nos ensinar, conseguimos transformar esse descontentamento em um mola propulsora que nos fará ir muito além, mas é necessário admitirmos nossa fraqueza, nossa incapacidade e deixar Deus agir.

O apóstolo Paulo revela em sua carta à igreja de Corinto que foi lhe dado algo que o atormentava e o deixava descontente, e Paulo extravasou diante de Deus e clamou para que isso fosse tirado. Então Deus o responde: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12:9). Com essa resposta Paulo entende que é na fraqueza que ele se torna forte. Paulo entende que a fraqueza o faz olhar para Deus e o impulsionou a fazer muito mais pelo Reino.

Após o povo de Israel ser atacado pelos habitantes da cidade de Ai, Josué extravasa diante de Deus e diz: “Ah, Soberano Senhor, por que fizeste este povo atravessar o Jordão? Foi para nos entregar nas mãos dos amorreus e nos destruir? Antes nos contentássemos em continuar no outro lado do Jordão!” (Js 7:7). Nesse momento Deus manda Josué se levantar e agir, e alguns versículos a frente (Js 8:28) vemos o que mudou nessa história após a mola ser impulsionada.

Hoje eu consigo entender que Deus permite o DESCONTENTAMENTO para que eu possa olhar pra Ele e impulsionar minha vida, e se algo não mudar, é porque a mola que impulsiona, chamada Cristo, não está sendo acionada, e que na verdade estou apenas sentado no trono do apartamento esperando a morte chegar.

Texto de Euriano Sales