Mas que ódio é esse?

Vamos orar por nossos irmãos em Cristo que estão sofrendo perseguição na Síria” – disse ele ao sentar-se a mesa assistindo o jornal que prosseguiu com as notícias e informou que uma prostituta foi espancada até a morte pelo namorado agenciador – continuou: “É triste ver isso, mas foi ela quem escolheu trilhar por esse caminho” – em seguida fechou os olhos e agradeceu pela refeição.

Esse é o retrato da nossa sociedade. Pelo menos de boa parte dela. Gente que consegue encontrar uma coerência justiceira diante de tudo aquilo que não pertence a sua redoma, sendo telespectador do caos sem qualquer tipo de intenção ou impulso de ser ou fazer a diferença no meio de todo este cenário de horror.

E isso é apenas a ponta do iceberg.

Nas últimas madrugadas acompanhamos uma briga ferrenha a respeito de uma proposta de emenda à constituição (PEC) sobre a redução da maioridade penal em nosso país. Não quero aqui me ater aos detalhes dos que são contra ou a favor da proposta levantando pontos do assunto, mas o que me deixa sem palavras e um tanto desanimado (pra não dizer com náuseas) é a forma com que as pessoas lidam com este tipo de questão que vai muito mais adiante dos embates entre ideologias político-partidárias e atingem diretamente as gentes, o povo, às famílias, os pais, os filhos, aqueles que padecerão na vitória de qualquer um dos lados e que sofrem de maneira latente e real no meio de suas impossibilidades.

Observo queridos de perto e de longe que perdem a linha na comemoração vitoriosa das primeiras instâncias ou num discurso guerrilheiro diante da derrota das mesmas.

Mas espera aí, quem somos nós?

Um bando de crianças mimadas que não conseguem conviver com o diferente? Com quem trilhou outro tipo de caminhada e que não pensa da mesma forma? Aonde foram parar o amor e a sobriedade?

Será que estamos tão dominados pelo deus deste século que ficamos cegos em nosso entendimento e pensamentos, aficionados a uma “religião” que só prega o ódio e a justiça “mundana” pisando no amor e na aceitação de todos os que não são espelho?

Que raiva é essa?

Gente que tem levantado a voz para deliberadamente ofender utilizando-se pejorativamente de características pessoais daqueles que estão mais envolvidos no processo, pelo simples fato de estarem do outro lado da ponte. E que quando indagados a respeito de suas posturas, justificam dizendo que o outro lado que começou com as provocações.

Passamos de inertes à realidade para apologistas do ódio. E é muito ódio.

Aonde estão aqueles que se reconhecem no evangelho legítimo do Filho do amor, “que não usurpou ser igual a Deus, antes assumiu a forma de servo e foi fiel até a morte de cruz“? Que lavou os pés cansados dos seus quando sabia que sua hora de captura estava às portas? E o ensino que sobrepõe a Lei no Sermão do monte, dizendo: “Ouvistes o que foi dito: amarás ao teu próximo e odiarás ao teu inimigo; Eu, porém, vos digo: amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem“?

Cadê os que andam na contramão da lógica e seguem as pegadas do Cristo na disposição em doar a outra face?

Só um aviso aos que não sabem ou se esqueceram: o Reino de Deus já é chegado!

A loucura do evangelho nos habilita a chegarmos primeiro com o amor, ainda que a nossa postura política e social seja rígida e inflexível. Vamos trocar às ofensas pelo debate civilizado, respeitando sobretudo o direito de expressão, ainda que entre em choque direto com o que tanto defendemos e consideramos ser o correto.

Deus nos salve do nosso ódio.