Nietzsche, Jesus e o sentido da vida

Viver é angustia pura. E quer saber? Não tem atalho no mundo que consiga desviar dessa rota cheia de buracos.

Depois de um longo e nublado inverno criativo decidi que era hora de colocar nas palavras o que volta e meia assola meu coração, mente e intenção, e devo confessar que não são poucos os dias onde o impulso da vontade de falar aparece com sobra, mas na maioria esmagadora das vezes me faltam expressões que traduzam, por exemplo, os sentimentos de dúvida e a angústia sobre questões que antes eram facilmente respondidas com os simples jargões da religião.

Perguntas que precisam de respostas

Qual é o sentido da vida? Por que existe o mal no mundo? Por que eu vim à existência no lugar de uma infinidade de outras possibilidades de pessoas? São apenas algumas das perguntas que por mais que a letra nos ofereça uma explicação racional, nossos sentimentos engatam a terceira marcha e aceleram na direção oposta, tentando mostrar que alguma coisa não encaixa no discurso.

Uma delas é a tristeza de pensar e tentar me desvencilhar da ideia de que aquilo que acontece com a gente durante esses 80/90 anos que vivemos por aqui é o único banquete que está posto a mesa. De fato viver é bom demais. Que delicia é poder partilhar a mesa com quem amamos, ou poder viajar e acabar caindo nos cantos mais lindos do planeta, sem falar na sublime sensação de sermos pais. Agora, e a dor? O sofrimento? As nossas frustrações? Nossos medos? A solidão? Onde enfiamos tudo isso?  Foi o Nietzsche quem disse que temos que a amar o mundo real como ele é e não vivermos pensando naquilo que idealizamos no depois, pois, segundo ele, na verdade o depois não existe.

Pois bem, Nietzsche está certo em valorizar o aqui e talvez este seja um grande paradigma de nós cristãos, o fixarmos nossos olhos apenas no acolá, como se o fato de termos encontrado um deus no meio da caminhada da vida que fosse como que um “passaporte da alegria” para o paraíso bastasse pra aplacar nossa culpa diante das burradas que cometemos, desconsiderando tudo e todos ao nosso redor na arrogante certeza de que a vaga já está garantida e azar de quem ainda não comprou o bilhete. (Não aguento mais esta sombra sobre igreja cristã) Porém se Nietzsche está completamente certo, me parece que é como se tivéssemos de nos contentar em comer uma barra de cereal com um copo de água no café da manhã e deixarmos de lado a possibilidade de desfrutar do maior “café colonial” da existência, com a bebida que mata definitivamente a sede e o pão que sacia de uma vez por todas a fome.

Do que Nietzsche esqueceu?

Viver com a cabeça no céu ou viver como se ele não existisse dá no mesmo, são dois lados da mesma moeda. No final o desprezo pelo próximo está intacto. Quem se entrega a vida com o “espírito livre” e acha que a ideia de vida eterna é uma besteira, se porta como um inconsequente e quem vive com a cabeça apenas no futuro é um alienado que abre mão de viver e preocupar-se com o presente. O que Nietzsche não considerou ou ao menos não se importou é que ao andarmos por aqui com esperança no depois faz com que nossa trilha seja mais inteira e plena.

A fé não “emburrece” o homem. Ela é a utopia que empurra pra caminhada da vida e que ainda põe ao redor da mesa mais cadeiras. E somente em Jesus podemos ver a tal da resposta sobre o sentido na vida repousada no outro.

Façamos então um teste de sentimentos. Vamos experimentar amar sem interesse e nos doar por inteiro a quem está do lado. Darmos sempre a quem nos pede e perdoar quem nos ofende.

A proposta do Nazareno não é o aumento de nossa “potência” individual diante da vida, na verdade o que Ele propõe é o contrário, um esvaziamento completo. E Ele não apenas impõe a nós esta terrível tortura que é abrir mão de nossa razão e de nosso ego, antes, Ele mesmo o faz.

Vivo angustiado porque sei que as engrenagens do cosmos não encaixam perfeitamente, mas prefiro crer em alguém que se tornou igual a nós por sua vontade deliberada prometendo-nos uma abundância de sentido inesgotável no amanhã, ainda que no agora sobre o oco das perguntas sem resposta, do que viver como um desesperado que encontra na morte a sua linha de chegada.

No amor.