O ateísmo evangélico brasileiro

A fé cristã não é ateia, apesar de quase todos os cristãos hoje viverem como tais.
E apesar de termos de afirmar isso publicamente, precisamos recorrer a um pouco de bom senso a respeito da fé cristã no Brasil para compreender o que estamos dizendo.

Popularmente hoje existem pelo menos quatro tipos de confissão de fé evangélicas: a social, a poderosa, a reformólatra e a solitária.

A fé cristã social

O primeiro movimento que pretendo trabalhar nesse texto se dá a respeito da fé com olhar privilegiado para a pobreza. A fé cristã social é conhecida pelo seu envolvimento político, sua importância histórica e ação através de criação de movimentos sociais, ONG’s, movimentos de internet, blogs, militância política, etc.

Os críticos dessa visão e aplicabilidade de fé nos dias atuais afirmam que essa visão é contaminada por uma visão marxista de vida. Ainda afirmam que tem grande influência da teologia da libertação do século XIX e todas as maneiras diferenciadas que essa partição do movimento evangélico brasileiro tem hoje.

Os irmãos que compõem esse movimento pensam seu fundamento histórico, bíblico e social, a partir de uma leitura dos profetas do antigo testamento, dos profetas menores e da vida e exemplo de Jesus de Nazaré, onde as injustiças sociais são condenadas, combatidas e colocadas pelo Senhor como pecado e carecem de transformação na realidade do povo.

Os movimentos mais conhecidos são os teólogos da missão integral, os movimentos neocalvinistas sociais e os movimentos de militância e reforma política.

A fé cristã poderosa

A fé cristã poderosa é a baseada nos movimentos neopentecostais. Os irmãos compreendem que o mesmo modus operandi do Espírito que estava em ação sobre os apóstolos com manifestações sobrenaturais do poder de Deus estão disponíveis e são possíveis hoje para os que creem em Jesus. Professam ainda, um batismo posterior ao de arrependimento dos pecados, defendendo ser esse “o batismo no Espírito Santo”.

Segundo eles, a nossa fé é uma ponte para uma vida extraordinária, algo em que Deus tem muito para acrescentar, transformar, radicalizar, mudar e fazer na nossa vida, dando a ela sentido por um contato sobrenatural principalmente com o Espírito Santo.

Os nossos irmãos sofrem com brincadeiras estabelecidas a respeito do evangelho de forma que são conhecidos pelo preconceito de “crente não pensa, não tem senso crítico, fazem loucuras, são radicais, atos proféticos, etc”.

A fé cristã reformólatra

É o movimento da fé cristã histórica. Os irmãos que representam essa fé são aqueles que fundamentam e balizam a sua caminhada de fé, meditação e prática teológica a partir da bíblia sagrada, sob a ótica da reforma protestante e seus principais pensadores (Lutero, Calvino, John Knox, Zwlingo, etc). Essa visão teológica e de prática de fé forma a maioria dos ministros e das instituições teológicas com tradição teológica no Brasil para o trabalho eclesiástico. São conhecidos pelo seu amor e zelo ao estudo das escrituras.

Os movimentos conhecidos no Brasil são representados como as denominações tradicionais de confissão presbiterianas e batistas, e outras confissões de fé que afirmam categoricamente serem reformadas já no nome de suas instituições.

A fé cristã solitária

Essa fé é aquela que acredita não precisar de ninguém para a sua vida comunitária. Os irmãos que vivem esse estilo de espiritualidade tão atual e crescente no Brasil acreditam estarem sozinhos e exclusivamente corretos a respeito da sua fé. Afirmam não ter decepções a despeito das instituições comunitárias religiosas (já as perdoaram), mas afirmam que quem vive a fé em instituições são intelectualmente limitados, com dificuldades reais de lidar com verdades científicas, filosóficas e teológicas pouco convencionais.

Recebem críticas de serem magoados, ressentidos, exageradamente críticos e arrogantes quanto o seu modo de viver a fé. São popularmente conhecidos por movimentos desigrejados, caminho da graça, etc.

E a fé cristã pode ser diferente?

Sim e não. Ela é uma confissão de fé maravilhosa, com tradições das mais ricas, com histórias das mais variadas. A nossa confissão de fé é determinada pelo reconhecimento de Jesus de Nazaré como a expressão mais clara e densa de Deus no mundo. Apesar de reconhecer que o próprio Deus se revela na sua Palavra e também na sua obra de criação, sem contar as artes e entre outros fatores que Deus pode se manifestar. Mas para o cristão Jesus é a expressão maior de sentido, significado e fé.

E ela poderia ser muito diferente se a nossa humildade fosse a exemplo de Jesus. Particularmente, tenho as minhas diferenças de todas as expressões do evangelho no Brasil apresentadas acima.

É na, a partir, e para a comunidade local
que o evangelho faz sentido.

Considero-me alguém que pensa nos movimentos sociais e os admira. Contudo, não os considero como ação redentora de Deus. A redenção que vem pela fé não permanece exclusivamente no âmbito espiritual, mas invade a realidade. Mas, há realidades onde vejo uma incompatibilidade social com o reinado de Deus, e não há conveniência e benefício social-político que me faça crer que Deus tenha mudado sua maneira de lidar com o homem.

Considero-me alguém apaixonado e em busca de avivamento espiritual. Creio na ação sobrenatural de Deus, as reconheço que, inconvenientemente, a maioria das minhas experiências com a necessidade de intervenção sobrenatural se tratavam mais de uma prepotência humana e orgulhosa minha do que revelação da vontade de Deus.

Considero-me apaixonado pela reforma protestante. Ainda, apesar de um pouco relapso, busco conhecer mais os fundamentos da minha fé, as escrituras de forma mais pura e fidedigna ao que ela quer dizer no seu original. Contudo, não consigo perceber um diálogo com a nossa realidade nas temáticas defendidas na reforma protestante. Ao pensar sobre a reforma, muitas vezes, vemos uma comunicação interna dos movimentos com eles mesmos, mas distante da realidade macro. A reforma precisa se reformar, conversar com a realidade que está do lado de fora e ser novamente uma resposta ao seu tempo, como foi com Lutero, Calvino e os demais reformadores.

Considero-me alguém razoavelmente crítico. Embora tenha tentado controlar meu coração, percebo que a fé tomou alguns caminhos inconvenientes. Instituições que deviam representar o reino, criaram feudos. Ovelhas se tornaram mulas e pastores se assumiram lobos. Mas, não tenho autoridade delegada por Jesus para desconstruir a fé de alguém. A bíblia não me permite construir sobre outro fundamento se não o que está posto: Jesus de Nazaré. E “infelizmente”, ou paradoxalmente, Jesus não nos permite uma caminhada de fé solitária. É na, a partir, e para a comunidade local que o evangelho faz sentido.

Sem comunidade local, não temos condições de mudar
o que realmente interessa: nós mesmos.

E o que podemos ser?

A fé cristã é a fé da Bíblia. A bíblia sagrada tem um protagonismo pobre. A bíblia sagrada afirma a ação sobrenatural e real de Deus. A bíblia sagrada exige fidelidade aos seus ensinos. E a bíblia sagrada exige uma consciência de reino a partir do reinado de Deus e não das doutrinas institucionais denominacionais. Assim sugiro três aspectos que poderiam ser uma expressão de fé do meu coração.

Cremos na Bíblia Sagrada

A Bíblia Sagrada é palavra de Deus. Ponto de convergência dos evangélicos, a fé cristã é baseada na revelação escrita do próprio Deus. Sendo ela a nossa expressão de fé, somos fiéis a ela, meditamos nela e aprendemos que todos os que creem em Jesus e obedecem seus mandamentos são salvos e assim, somos feitos todos irmãos.

A bíblia é o livro dos livros, não pelo seu conteúdo ricamente científico ou badalado, nem por sua genialidade poética ou provocação de escrita, muito menos por sua ação sobrenatural, em quem a lê com criticidade. A.W. Tozer, vai dizer que um homem sincero com uma Bíblia aberta, um caderno de notas e um lápis, sem dúvida, encontrará bem depressa o que há de errado consigo próprio.

Na mão de gente simples, que tenha humildade o suficiente para obedecer às orientações e tradições apresentadas pelo livro, podemos ser impactados, revitalizados e assim superar as diferenças da fé em que um único livro é a base da nossa confissão.

Cremos em Jesus Cristo de Nazaré

Gosto e uso constantemente a nomenclatura “Jesus de Nazaré”. E a uso propositalmente, para enfatizar a humanização de Jesus, a sua encarnação, o verbo feito carne no nosso meio.

Mas Jesus não é um mestre da sabedoria, como Dalai Lama, como Zygmunt Bauman, Freud, Perls, Sartre, Nietzche, Lacan, etc. Jesus é o Cristo, e o Cristo de Deus. Somente em Jesus, no seu castigo na cruz, temos nossos pecados perdoados, temos nossas culpas levadas sobre ele, e fomos lavados no seu sangue.

Contudo, Jesus não é um espírito sobrenatural exclusivamente, que serve para realizar curas, e impressões sobrenaturais, com revelações e “sonhos proféticos”. Jesus é nazareno, viveu aqui, teve dores, dissabores, fome, sede, suor. Jesus é de Nazaré para mostrar que o Deus do universo visitou a nossa Terra, e a redimiu no seu sangue, para aquele que crê tenha vida eterna.

Assim, Jesus nos mostra como humanidade que carrega em si a imago Dei, estamos condenados a encontrar sentido somente na diminuição, humilhação e negação de nós mesmos para servir aos nossos irmãos como pequenos cristos, significado da palavra: cristão.

Cremos na comunidade local

Embora saibamos que somos imperfeitos, e a imperfeição incomoda. Como diria Heidegger, a finitude é uma angústia. E a infinitude é poder realizar tudo. No ambiente comunitário precisamos do outro para sermos tratados, até por que não termos condições de fazer tudo. E seria bastante arrogância fazê-lo.

O pecado do meu irmão contra mim só mostra em mim que o amor de Cristo e seu perdão ainda tem movimentos a serem realizados para vivermos no perfeito vínculo do amor. Da mesma forma, o meu pecado contra o irmão mostra no meu irmão que o perdão precisa ser naturalmente dado, pelo fato de ser Cristo quem sustenta as nossas relações.

Cremos na comunidade local para que sejamos ensinados a viver com, na e pela fé em Jesus, servindo uns aos outros. E tudo que ultrapassar ou ficar aquém disso, é uma instituição antiCristo que pode nos afastar do evangelho ao invés de aproximar.

E aonde somos ateus?


A fé cristã não é ateia, porque não quer resposta, ela começa na resposta, Jesus.

A quantidade exorbitante de denominações, divisões, e cisões por aspectos doutrinários, podem ser compreendidos como uma busca por uma razão humana para fé, que não será encontrada.

A fé cristã é fé. É a busca pelo pão do céu. A grande cisão entre todas as linhas teológicas, os movimentos evangélicos, as confissões de fé, se dá pela busca de uma outra verdade, que não é a verdade eterna, que reconhecemos em Jesus de Nazaré, retratada na bíblia sagrada e professa pelas nossas comunidades locais, em que Cristo afirma: “eu sou o caminho, a verdade e a vida, ninguém vem ao Pai, senão por mim” – João 14:6.

Em amor e pelo amor.