O chamado de Deus e o medo de ficar sem dinheiro

Não deveria ser considerado pecado algo que todo mundo faz né?

Mas não é bem assim. A gente gosta de amenizar a nossa consciência com a falha alheia, diminuindo a nossa culpa e pensando em regras menos rígidas para nós, ao olhar para o lado e não perceber ninguém fazendo aquilo que nos propusemos a fazer num primeiro momento.

E então começamos a falhar em outras demandas completamente diferentes, que em outro momento não nos eram atribuídas como erradas. Isso, sob a alegação apenas do fato de não ver ninguém acertando no que atribuíamos valor maior.

Em nome da popularidade e reconhecimento não vale a pena a troca de princípios?

Assim, a chance de alguém glorificar ao nosso Pai que está nos céus, percebendo as nossas boas obras (Mateus 5:16) caem consideravelmente, visto que aderimos aos programas de mercado, métodos injustos e desonestos de crescimento de carreira, além da exploração de pessoas para que consigamos cada vez mais ter um lucro exacerbado e acumulativo nas nossas negociações.

Não estudei para não ser o chefe, e você também não. O grande drama se dá que a velocidade que a gente enfrenta as coisas, geralmente dão em outro ritmo que não é exatamente aquele que pretendíamos dar se tivéssemos condições de controlar as coisas. Se pudéssemos conduzir a velocidade das negociações, apenas na apresentação dos nossos currículos todas as clausulas contratuais benéficas para o nosso lado já seriam confirmadas e não nos preocuparíamos com mais nada.

Você não tem preocupações desse tipo, por isso fala assim…

Recentemente eu e minha noiva decidimos ir em busca de um imóvel para que após o nosso casamento pudéssemos morar em algo nosso. E foi uma decisão bastante consciente sabe? Parecíamos pessoas maduras, vividas e bem experientes, aconselhando até mesmo outros casais a tomarem a mesma decisão que acabávamos de tomar. Tínhamos milhares de razões e todas elas, para nós, pareciam as melhores possíveis aos nossos próprios olhos.

Mas num determinado momento, nos pegamos completamente ansiosos. Parecíamos duas crianças que ouviram dos pais que no sábado seguinte iriamos ao parque e estávamos desde segunda feira pela manhã questionando se já havia chegado sábado.

E no mercado de trabalho não é diferente. Nós queremos ver as coisas acontecendo, fazemos uma entrevista de emprego querendo negociar salários e suas progressões. Conhecemos o nosso gerente, questionando as vagas e as possibilidades de crescimento a curto prazo, planejando assim os próximos seis, doze e dezoito meses no trabalho, sem nem mesmo termos cumprido uma primeira e única meta estabelecida.

Isso não é exclusividade sua, todos somos assim.

Veja, não quero dizer que você não deve ser organizado. Mas de vez em quando, me questiono onde aspectos simples da nossa fé, chamada de cristã, podem fazer sentido nessas horas.
Se temos de um lado, um tipo de fé cega e alienante, onde tudo depende de Deus, e Ele proverá sobre todas as circunstâncias, as portas irão se abrir e o milagre financeiro chegará; também temos, do outro lado, o ceticismo travestido como uma virtude espiritual.

Pessoas que não sabem nem estar contentes com todas as coisas (Filipenses 4:12-13), e também não creêm que é o Senhor quem tem os planos dEle para se cumprirem, planos de paz e não de morte (Jeremias 29:11), e planos que ultrapassam e muito tudo aquilo que podemos fazer (Efésios 3:20). Se acotovelam entre o paradoxo: Deus proverá ou devo me planejar?

As duas coisas não se excluem. Deus não é o tipo de divindade que abençoa aos seus pela quantidade de oração, reza, oferenda, ou qualquer coisa desse valor sobre o altar. Mas também não é alguém que atribui a um administrador inconsequente algo que ele não seja capaz de fazer redundar na glória do dono das propriedades. Você entende?

E o que te incomoda então?

O incômodo, na realidade se dá, porque não compreendemos o cuidado do Senhor sobre nós. Jesus de Nazaré nos mostra como andamos ansiosos pelas coisas que haveremos de comer, de vestir, e alerta que nunca ninguém esteve tão bem representado nesses quesitos quanto as criaturas que Deus mesmo supria, e não tinham nem mesmo condições de se preocuparem com essas situações, e afirma categoricamente que nós temos muito mais valor que essas criaturas (Mateus 6:24-34).

E ainda, em outro momento de seu ministério, o próprio Jesus afirma ser loucura acumular bens materiais para ter mais exclusivamente. Assim, eu aprendo com o próprio Jesus de Nazaré que o pecado não está na situação em si, querer ter uma graninha para uma viagem, querer postos mais altos no meu trabalho, mas da falta de compreensão do quanto custa cada posto e função no exercício de uma profissão.

Veja, retomando o ponto de vista de que o exercício de sua profissão se dá pela compreensão da sua vocação, aquilo que você realiza como profissão, se trata antes de tudo de um chamamento de Deus, e assim, você está a serviço do mestre no desempenhar desse trabalho. Logo, uma mudança, promoção, aumento de demandas, etc. iria servir para que mais pessoas fossem mais abençoadas pelo seu trabalho?

Precisamos ter coragem de investigar o nosso coração. Não acho errado o sonho do crescimento financeiro, mesmo que seu primeiro projeto não seja investir em missões. O que eu realmente acho esquisito, é perder de vista uma compreensão vocacional, trocando-a por uma compreensão mercadológica. Se você entende que aquilo que você faz não tem preço, o que você precisa é encontrar significado em sua função, e não abandoná-la.

Acredito sim, que pessoas que trabalham nos serviços gerais merecem os melhores salários quanto lhes forem possível, desde que amem o que fazem e façam o que amam. Acredito que a sua vocação está mais em jogo do que o seu plano milionário.

Existem inúmeros textos bíblicos que insistem na ideia de confiança em Deus, ao invés da confiança no próprio braço, de controle total da situação como um atributo humano. Longe de um “carpe diem” ou “deixe a vida me levar“, mas muito mais próximo de uma compreensão de mordomia cristã, Deus me dá e se quiser que tome.

Então é errado o sucesso profissional?

Quero crescer em minha profissão? Obviamente, mas com a compreensão de que o Senhor que me chamou, me deu talentos o suficiente para administrar e abençoar o coração de gente que precisa, não tanto de um ceticismo travestido de intelectualidade, mas uma compreensão de fé vocacional, que muito além de levantar recursos para minha sobrevivência, serve ao meu irmão com excelência.

Abre parênteses. Ouso chamar aqueles que me envolverei profissionalmente de irmãos, pois o único que sabe quem será ou não meu irmão na eternidade é o próprio Deus, e não tendo Ele me revelado quem os são, trato a todos como se fossem para não correr o risco de pecar contra alguém que faz parte da mesma família que eu, a família de Deus. Fecha parênteses.

Assim, oro tanto por mim quanto por você, para que a gente não se perca nesse negócio de que quem pagar mais leva a gente para onde quiser. Mas oro para que aquele que é dono de todas as coisas, nos dê a compreensão verdadeira e fiel de que quem delega e atribui funções é Ele. E que eu descanse, pois o auge do mercado de trabalho, apesar das exceções, tem muito o que ver também com a experiência e tempo de mercado. Que Deus aquiete o nosso coração, nos fazendo perceber e crer que Ele é Deus (Salmo 46:10).

Que Deus te abençoe.

Em amor e pelo amor.