O coração doador de Deus

Começo este texto com vergonha. Para ser sincero, sou alguém que vive com vergonha. Tenho um constrangimento companheiro, amigo, fiel, que insiste em caminhar comigo de mãos dadas.

Há uma cena em “Um sonho impossível” que me perturba. Com muita frequência, ela transforma-se em oração. No filme, Mike, um menino paupérrimo que é adotado por uma família cristã, é apresentado ao seu novo quarto. Ele diz: “uau, nunca tive uma dessas!”. A mãe pergunta: “Um quarto só seu?”. Ele responde: “Não, uma cama”.

Cresci em uma família de classe média brasileira. Desde cedo, fui cercado por pais que tinham condições de me proporcionar o que precisava para viver e me desenvolver bem como cidadão e pessoa.
O máximo de fome que eu senti foi quando minha mãe atrasava para me buscar no colégio antes de um almoço que não era apenas nutritivo, mas também prazeroso. Nunca passei um dia na vida sem tomar banho por necessidade. Só deixei de escovar os dentes por descuido ou preguiça.

Quando chegou a hora de ir para a escola, a qualidade não faltou. Nunca precisei dormir na fila pra conseguir uma vaga. Nunca passei por uma greve! Tive sempre tênis em perfeitas condições! Tinha mais de um uniforme para revezar. Material escolar, o completo, e bons livros. O primeiro celular já mandava mensagens. Comecei a poder sair e comer fora. Tinha dinheiro para o sanduíche e fliperama com a rapaziada. Tinha computador e videogame. Hoje faço meu mestrado na faculdade federal e, diferentemente do Mike, posso deitar todos os dias da vida no travesseiro que é meu, na cama que é minha.

Deus não precisava me dar nada disso. Em um mundo de abismos tão gigantes onde tantos Mikes anônimos caminham sem o mínimo para viver, Deus tem me dado muito além daquilo que eu preciso. Mas se isso já não bastasse, ele não me negou o que há de mais precioso e que deixa tudo isso pra trás, dissolvido em uma luz de glória incomparável: Ele não poupou seu Filho por mim.

Por que eu? Não faz sentido algum! Se eu fosse Deus, não me daria nada. Eu, que estava pregando seu filho na cruz naquele dia, que era seu inimigo, sou objeto do seu amor e de suas bênçãos. Por quê? Para essa pergunta, não há resposta. Mas há um jeito certo de responder às bênçãos: um coração grato. Não esquecer que cada coisa, por menor que seja, aponta pra o amor de Deus por mim e ser grato!

Cada caneta, pasta de dente, sandália, camisa, cueca, cama, cadeira, prato, copo, celular, computador, carro, viagem, tudo aponta para o coração doador de Deus. Mas mais que ser grato, sou chamado a fazer o mesmo com meu próximo.

Se Deus deu tanto a mim, é para que eu possa dar a quem precisa. Deus aliviou minha dor e me fez alguém para que eu possa aliviar a dor de outros e fazer, dos outros, pessoas dignas. Mas muito mais que tudo isso, Deus requer que eu o ame porque ele me amou primeiro. Tudo começa e termina nisso. Preciso ter um coração que ama a Deus! Esse Deus que não poupou e continua a não poupar nada por mim.

A Ele todo o louvor. Não o amo como deveria. Não sou grato como deveria. Mas que essas lembranças nunca saiam da minha mente. O Senhor é bom e tem cuidado de nós!

Que eu o ame e o deseje acima de todas as coisas que ele tem me dado.