O dia em que decidi ser pecador

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Larguei mão de ser santarrão. De verdade. Troquei o discurso, que outrora, mesmo que de forma muito velada, era muito direcionada para outras pessoas, aquelas ideias de que você precisa se aceitar, deixar-se errar e entender que os erros compõem parte importante da história de cada um, buscando a compreensão como gente que não é perfeita e isso é um privilégio, se aceitando como, exclusivamente pecadoras, e assim, gente a quem Deus ama. E resolvi, depois de anos e mais anos me debatendo dentro do sistema religioso, tomar isso para mim. Pedi a Deus para que isso se torne uma realidade no meu coração.

Até porque, Deus não ama aqueles que não precisam dEle. Deus não se ilude com santarrões. Deus não deseja exclusivamente os santarrões. Deus não precisa de gente que não vai se agradar mais em ser chamado filho do que ser chamado pelo título religioso institucional. Não é isso que Deus precisa. Aliás, Deus não precisa de nada, mas é exatamente, por sua graça, que é tão grande e preciosa que Ele impacta a nossa história. A graça de Deus nos invade e mostra, que é somente por esse fator que somos salvos. A escolha de Deus em nos amar é a graça. Assim, aqueles que não percebem esse fator como exclusivo em sua salvação, não tem como ser salvo, pois se apóiam em mentiras a despeito do caráter de Deus.

Percebi então, que a minha luta interna era exatamente por tentar ser aquilo que não consigo, posso e devo ser para Deus. Estava lutando comigo mesmo para ser alguém perfeito, onde ninguém teria do que me acusar, não encontrando pecado algum ou situação nenhuma que me fizesse tropeçar ou que escandalizasse os meus irmãos. Percebi que a perfeição religiosa estava rondando o meu coração, minha mente, minhas orações, minha vida devocional, minha leitura bíblica, minhas anotações e pequenas elaborações de textos aqui para o MVC e outros canais.

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Decidi me desnudar mais uma vez. Abrir o coração com pessoas que amo. Procurei conselheiros, amigos e amigos conselheiros. E decidi jogar fora esse meu anseio diabólico de ser perfeito. Decidi jogar fora de mim o anseio de ser alguém que tem algo de bom o suficiente para Deus, para os outros e para a sociedade. Decidi que queria jogar fora todas as características que carrego no meu coração em semelhança de Lúcifer. E entendi com maior significado a frase de Martinho Lutero: “Sê pecador e peca fortemente, mas crê ainda mais fortemente”.

Ainda, percebi que para decidir tudo isso, não poderia se tratar de algo meramente racional, de cunho de conhecimento teológico, de acesso de um conhecimento meramente filosófico e mental, algo, meramente humano. Essa decisão que espero ter tomado, na verdade é o mais sincero pedido de oração. Todo e qualquer autoconfronto não pode ser fruto apenas de uma meditação profunda, ou uma frase bonitinha nas redes sociais, mas sim a mais sincera ação silenciosa de confrontação do Espírito no meu coração. Trata-se de uma ação divina, que me mostra que nada pode ser feito por mim para ser amado mais, ou menos por Deus. Absolutamente nada que eu faça, muda o fato de que o amor eterno de Deus por mim é real e eterno, vem antes da fundação do mundo e vai além da consumação dos séculos. Agora, posso revelar e desnudar a minha alma, mostrando que o meu ser humano, é o ser que Deus ama, que não precisa ser aprisionado num modelo religioso, numa determinada vestimenta, ou modelo de culto.

Assim, percebi que a frase de Lutero que citei, antes de ser uma frase conflitante, onde todos tem de gastar horas de meditação, na verdade se tratava da verdade mais básica do evangelho: nega-te a perfeição, assuma-te pecador e peça ao Espírito uma fé que supere a tua humanidade, restando somente a ação redentora da graça e misericórdia de Deus.
Assumi, pedi e estou consciente que sempre serei apenas um pecador. Longe da perfeição. Para a glória de Deus Pai, confiante de que pelo sacrifício do Cordeiro, estou sendo transformado a cada dia pelo Espírito.

Em amor e pelo amor.