O inverno e o autoritarismo evangélico

Ah! O inverno! A estação que mais aprecio! Temperatura amena, edredom, filminho, livros. Elegância demais, suor de menos. Salve, salve o inverno! A estação mais charmosa do ano!

Época em que algumas pessoas permanecem mais recolhidas em seus lares, aproveitando as peculiaridades que só essa estação oferece: cobertores, chocolate quente, marshmallows, sessão pipoca em família, amigos e gargalhadas. Em oportunidades assim, os laços familiares se reforçam, a intimidade do casal é apreciada, a amizade entre irmãos e amigos é fortalecida e a vida é celebrada de forma bela e rara. Esses momentos são muito importantes e devem ser aproveitados plenamente sempre que possível. Em tempos onde estamos cada vez mais ausentes e carentes de relacionamentos reais, oportunidades de compartilhar a vida com o próximo, face a face, devem ser ao máximo valorizadas.

É nessa época gelada do ano que ocorre de encontrarmos, também, alguns pastores e líderes com discursos do tipo: “vamos ver quem vai vencer esta noite: a carne ou o seu amor por Deus”; ou, “são em situações assim que conhecemos aqueles que são verdadeiramente fiéis”, como se não existisse possibilidade alguma de haver fidelidade a Deus fora das quatro paredes da Igreja. Gente, sinceramente, a que ponto chegamos? Não estamos sendo demasiadamente simplistas na profundidade e na percepção do evangelho que estamos pregando e vivendo?

Antes que algum leitor desavisado ou mal intencionado distorça a ideia aqui explanada, a fim de justificar o seu não-engajamento nos trabalhos da igreja, quero deixar claro que não é este o meu intuito. Longe de mim prestar tal desserviço ao corpo de Cristo. O que desejo, porém, é propor a reflexão sobre a legitimidade de tais comportamentos e discursos. Eu já cheguei a ouvir isto: “se Jesus Cristo voltar num domingo de inverno, muita gente não vai pro céu, porque ficou em casa vendo filme debaixo das cobertas”. Quer dizer, então, que nossa salvação está vinculada ao que a gente faz ou deixa de fazer? É meritocracia? E o “salvo pela graça mediante a fé e isso não vem de vós é dom de Deus”? Acreditem se quiser, mas já cheguei a ver mãe deixar de ir ao noivado da filha por não poder faltar à atividade do dia na Igreja. Não estou defendendo a relativização da Igreja; eu amo a Igreja, estou na Igreja desde que me conheço por gente, minha vida é servir a Igreja; mas, afirmar que uma pessoa ama mais ou é mais fiel a Deus do que outra, simplesmente porque uma vai ao culto no frio e a outra não, é demais, não acham? Portanto, justamente por amarmos a Igreja, precisamos denunciar e alertar que práticas autoritárias e legalistas como estas estão erradas e que não podem continuar.

Quando o apóstolo Paulo repreende os gálatas por voltarem às práticas da lei como se elas pudessem legitimá-los diante de Deus, estava se referindo exatamente a comportamentos como os descritos acima. O legalismo é um grande problema, pois, subjuga e prende as pessoas, tirando delas a capacidade de viverem uma fé consciente, pautada nas Escrituras e não nas mentes de coronéis da fé, os quais pretendem dominar e “encabrestar” a vida alheia, de acordo com os seus próprios interesses. A atitude da Igreja nunca deve ser essa. A Igreja deve ensinar o crente a pensar, a discernir e a julgar, para que este não seja escravo de homem algum ou de instituição alguma; e assim, aprenda, por si só, dar a razão da sua fé a quem quer que seja, onde quer que esteja. Testar a fidelidade de irmãos tendo como termômetro a ausência no culto numa noite gelada de domingo – me perdoem – é muita infantilidade!

A frequência aos cultos é uma prática importantíssima e deve ser levada em alta conta por todos. Basílio de Cesaréia, um dos pais da Igreja do século IV, disse: “a vida comunitária é essencial, pois quem vive sozinho não tem a quem servir”. Não resta dúvida quanto a importância vital da presença do cristão nos cultos e atividades propostas pela Igreja, no entanto, o fato de você não estar presente na Igreja não significa que você não esteja prestando culto. Uma coisa é estar ausente por preguiça, irresponsabilidade, indiferença ou omissão, outra coisa é investir aquele tempo de maneira santa e justa na edificação de relacionamentos que trarão glória para Deus e frutos para o futuro. É importante ponderar que existem momentos em que a família precisa de um espaço, momentos em que o casal precisa de um tempo a sós, em que os irmãos e amigos precisam de uma noite só deles e, na maioria das vezes, essas oportunidades são possíveis apenas nos finais de semana. Como já disse, nestes momentos, consertos podem ser feitos e feridas cicatrizadas. Pense comigo, de que adianta estar religiosamente todo santo domingo na igreja e estar com a vida familiar toda esfacelada? Aproveitar o fim de semana, uma vez ou outra, para investir tempo na convivência com sua família e amigos pode deixar marcas profundas na sua vida, e na vida destes queridos a quem você tanto ama.

E se ao invés de ficarmos de olho na frequência dos irmãos aos cultos, fizéssemos diferente? Você, por acaso, já pegou o telefone e ligou para a pessoa que esteve ausente? Disse a ela que sentiu sua falta e perguntou se está tudo bem? Uma das melhores formas de demonstrar amor a Deus é amando pessoas. Seja carinhoso e cuide de sua esposa, eduque seus filhos e invista tempo neles, trabalhe honestamente para a glória de Deus, sirva a Igreja com alegria e não por imposição, guarde a sua língua para conversar, não para destilar veneno contra os irmãos. Todas estas são formas muito mais autênticas de amar a Deus do que ficar de olho no que o outro faz ou deixa de fazer, apenas com intuito de acusar. Se você é pastor ou líder, ao invés de impor e ameaçar as pessoas, converse com elas, visite-as, busque entender o que está acontecendo, pergunte os porquês, participe mais da vida de suas ovelhas. A igreja não está precisando de mais coronéis, mas de líderes piedosos, tementes a Deus que não negligenciem a maravilhosa dádiva de amar, pastorear e cuidar da igreja.

Minhas ponderações neste texto requerem de vocês, queridos leitores, sensibilidade e coerência. Não estou diminuindo, como já disse, a importância fundamental da Igreja na vida do cristão. Meu intuito não é desestimular seu engajamento nas atividades da Igreja ou avalizar qualquer comportamento egoísta e indiferente no seu serviço ao próximo. Se você faz isso, você está em pecado. Se você não honra a sua liderança, servindo-a e orando por ela, você está em pecado. Existem muitos pastores, líderes e igrejas sérias que honram a Deus e merecem o nosso reconhecimento e o nosso engajamento. Todavia, não podemos deixar que o coronelismo de alguns líderes encabreste a nossa mente a ponto de pensarmos que o único lugar em que se pode viver a comunhão da Igreja é dentro das quatro paredes do templo. Temos que acabar com essa mentalidade de uma vez por todas.

Nossa vida é um culto. Ser Igreja é todo dia, seja onde for, com quem for, fazendo o que for. A Igreja de Cristo não está limitada ao tempo e ao templo, somos templo de Deus, em Cristo, em todo tempo. Que Ele nos guie e nos dê sabedoria para vivermos a liberdade para qual Ele próprio nos libertou, aqui, agora, ali e além, de todas as formas, em todas as horas.

Que Deus nos alcance!