O Jesus que o profeta viu

Eu li Isaías 53. Fui impactado. Sabe quando a bíblia é Palavra de Deus para nós? Quando poucos versículos falam muito ao nosso coração? Então, foi o caso.

Conhece aquela prática que não é sempre que a gente vê por aí? Aquela que nem todos têm mais? Aquela, que muitas vezes nem os pastores praticam todos os dias?

Aquela prática dos homens piedosos de antes de abrir a boca ao mundo em nome de Deus, se isolam do mundo e ouvem Deus. Ficam em silêncio. Oram. Creem na presença do Cristo no seu quarto secreto. Imploram ao Espírito Santo que incline o seu coração à palavra e com sinceridade também clamam por transformação pessoal. Sabe aquele momento de reconhecimento da miséria pessoal?

Então, gostaria de manter essa prática diariamente também, mas não sou como esses homens. Porém, esses dias foi diferente. Esse texto aí (Isaías 53) me pegou de jeito. Falou claramente ao meu coração, e pretendo dividir algumas meditações pessoais com vocês.

Foi o autor Eugene Peterson, no sensacional livro “Espiritualidade Subversiva“, quem disse: Isaías ainda sabe mais de espiritualidade que Carl Jung.

Eu sei, parece óbvio, e desnecessária uma consideração dessa, mas vamos lá, será mesmo? Será mesmo que a gente considera os autores bíblicos como conhecedores da alma humana mais do que os psicólogos e psiquiatras? Será que consideramos, verdadeiramente, bíblia como algo mais importante que a auto ajuda, textos motivacionais, poesia melancólica, filosofia vã? Será mesmo?

Eu tenho minhas dúvidas. Abre parênteses. Não quero entrar no mérito de leitura ou contato com coisas “seculares”, escrevi outra vez por aqui, o texto “O mais do mesmo”, esclarecendo a minha forma de pensar sobre a música, como amplio para literatura, artes e por aí vai. Fecha parênteses.

Mas acredito que as palavras, do popularmente conhecido “pastor de pastores”, Peterson, se fazem escândalo para alguns de nós hoje sim. Não é novidade o grande número de cristãos hoje sem nenhuma intimidade e conhecimento da sua bíblia. E pouca, quase inexistente devoção em relação à Deus.

E embora eu não tenha nenhum interesse em gerar culpa, gostaria de entender onde foi que perdemos a característica que permeava os evangélicos do Brasil nos anos oitenta, conhecidos popularmente como: os bíblias, os rapadura debaixo do braço, etc.

É por termos perdido isso há algum tempo que somos, perdoem a generalização, mas as exceções só confirmam a regra, não a desconsideram: “Gente que não sabe o porquê pensa o que pensa, fala o que fala, faz o que faz. Gente que caiu no conto de fadas do benefício garantido, do ser cabeça e não calda, da recompensa pela vida reta e (daquela que eu mais “gosto”) do Jesus lindo, cheiroso, brilhante e atraente”.

Desculpe a frustração, mas não, Jesus não era bonitinho. Desculpe a frustração, mas caras legais não são crucificados. Desculpe a frustração, mas Ele não é do jeito que a religião fria, consumista e defensora do sucesso apresenta.

Somos analfabetos bíblicos e por isso caímos nessas armadilhas. Temos uma vida cristã que não tem muita ligação com as doutrinas bíblicas cunhadas por Pedro, João, Paulo e o colégio apostólico. E o mais engraçado de tudo, nós encontramos a partir de intepretações no mínimo equivocadas, bases bíblicas pra tentar comprar o favor de Deus. Coisa vinda de “bíblia da vitória financeira”, de “festival promessas”, de “campanha da vitória” e “rosa ungida”, “igrejas onde milagres acontecem”, só pode.

Jesus, como o é de verdade, não está interessado em ser aceito, em falar o que o povo quer ouvir, em alimentar um sistema, mesmo que seja religioso e faça seu nome mais popular. Jesus é o tipo de cara que olha pra você e te confronta: “tá achando pesado mesmo me considerar tudo pra você? Pode ir. Não quero multidão, quero discípulos”.

Foi relendo Isaías que revi algumas coisas no meu coração. E queria compartilhar com vocês, crendo que pode ser uma reflexão à ser considerada por vocês.

A primeira coisa que aprendo quando olho para Jesus nos termos de Isaías é que não desejo as coisas de Deus.

Eu posso me negar, posso mentir pra mim mesmo, posso falar o que quiser, mas em Cristo não tem nada que eu desejo. Jesus “brinca” de viver de um jeito muito pesado. Para Ele, essa história de viver é marcada por amor, auto-doação, partilha, empatia, compaixão. Sentimentos que sempre foram raros, e que pra Ele, é identidade primária de seus seguidores. Jesus é um cara que troca status e representações sociais por comprometimento com reino, com a verdade e com a Palavra. Não, eu não desejo isso, e você talvez também não. Se você investigar bem aí dentro de você, notará coisas que você quer que não condizem com a sua fé, à isso o nome de depravação total do homem algo decorrente da queda (o pecado original). Não desejamos o carpinteiro, desejamos o Rei. Só não concebemos ainda que no reino de Deus, o carpinteiro é rei, e é para isso que somos conduzidos: não sermos nada aqui, para que Nele sejamos alguém conforme Ele deseja.

A segunda coisa que aprendo quando olho para Jesus nos termos de Isaías é que não preciso brigar por aceitação.

Aqui, eu preciso de um pouquinho mais de atenção. O meu padrão de vida é Cristo. O meu mestre é Cristo. O meu jeito de viver é Cristo. A minha vida é Cristo. Cristo é tudo em mim. E sabendo que Aquele que é em mim não foi admirado, e eu desejo segui-Lo em tudo, não o serei pelos homens também. Jesus incomoda com seu jeito de pensar, falar e questionar as pessoas. Para Ele quem aparenta fazer tudo certinho, bonitinho, como manda o figurino é questionado quanto a sua motivação, e essa galera, em sua grande maioria não aceita o amor de Deus por todos. Questiona o porquê jantar com determinado público, o porquê se atentar à determinada classe social e até mesmo o porquê de não ter tido algum benefício, mesmo não necessitando de nada. É gente que até diz que não tem nada de bom em si, mas sempre questiona: quem você pensa que é… O que você já fez por Jesus, pelo evangelho ou pela comunidade local… Quanto tempo está aqui… etc. Quem se identifica com Jesus, não pode esperar outra coisa a não ser isso: sofrer pelo reino de Deus, tomar a sua cruz e agir sempre como seu mestre e Senhor agiria. E esperar a mesma recompensa que Ele teve, foi pregado no madeiro.

A terceira coisa que aprendo quando olho para Jesus nos termos de Isaías, é que o sofrimento não é um mau caminho.

Eu tendo a fugir do sofrimento, tendo a evitar o confronto pessoal, tendo a evitar a vergonha, o desprezo. Tendo ao uso de máscaras para que não conheçam minhas falhas e dramas interiores. Tendo a desejar um papel de forte, confiante e seguro, não quero ser vulnerável, ser sincero, ser o que sou. Em Jesus e em todos os personagens bíblicos noto uma dependência clara de Deus e uma condição que nega o conforto, neles, se nota a busca do benefício de outros, não são egoístas. O conforto que eu desejo, é um risco para que me esqueça de Deus e do que Ele sempre tem sido por mim. Quero continuar lutando contra o conforto, matando aquilo que me separa de Deus, e mortificando a carne.

Espero ter te abençoado, e pensar que nem passamos do versículo 3, em. Que Deus te abençoe.

Em amor.