O profeta Chorão em
“Me encontra” – parte II

Prometi e hoje vim cumprir! Há alguns dias escrevi o texto “o Profeta Chorão em ‘Me Encontra”, prometendo no texto uma segunda parte que pretendia falar sobre teologia. Cá estou.

Não considero mais necessário defender os atributos de Chorão como profeta, na minha modesta opinião. Caso considere necessário, peço-te que abra os links dos textos mais antigos (“O profeta Chorão em Champagne e Água Benta“, “O profeta Chorão em Não uso sapatos” e “O profeta Chorão em Me encontra” sua primeira parte).

Gostaria de comentar esse interesse repentino, de uma grande parcela da juventude cristã, por teologia e gostaria de pensar nessa primeira instância no refrão da música, nas duas correntes teológicas “rivais” de vários séculos.

De um lado, com todo o apoio mais pentecostal, embora isso seja uma generalização da minha parte, a teologia de Arminius, que, em sua tese inicial, defendeu que o homem nasceu bom, e o pecado o corrompeu. Agora o homem pode escolher a bondade, a graça e o favor de Deus, sendo alguém que “escolhe” por meio do uso de seu “livre arbítrio” aquilo que tem ou não em relação a Deus, suas manifestações etc.

Do outro lado, temos os tradicionalíssimos calvinistas, que, entre outras coisas, defendem a total depravação do homem, a sua inabilidade de escolher o bem e a ação total de Deus em todas as esferas, atribuindo a Deus controle exclusivo da história.

Exageros à parte, essa é a grande rixa, velha e atual, da teologia histórica. Você escolhe Deus ou Ele te escolhe? Deus me encontra ou me deixa encontrá-lo?

É exatamente aqui que eu considero Chorão alguém com quem Deus falava e, quando penso nessa ‘rixa’ teológica, a música de Chorão fala muito sobre o bom senso que nos traz o evangelho, não importa se Cristo me chama (Mateus 9.9-14) ou se eu gritei a Ele desesperado (Mateus 15.21-28). O que importa é a noção adquirida, por intermédio de Deus, ou profunda reflexão de que necessitamos de Cristo, necessitamos caminhar com Ele e sob a sua orientação. Temos o carpinteiro disposto a nos amar, tratar e ensinar o nosso coração.

Nosso amigo Murillo Leal, em um desses finais de semana enquanto comíamos uma pizza, disse que o padrão é a regeneração. Ir a pé a alguma festa ou de carona não importa tanto quando existe a possibilidade de não se chegar lá. Essa discussão não leva a lugar nenhum.

O que Alexandre (Chorão) me ensina em sua música é que existem preocupações reais do dia a dia que não gostamos muito de discutir, mas discutimos coisas ridículas, que a nível de interesse fora do ‘acadêmico’ teológico, não servem para a vida prática de quem se encontra na rua, vagando com pensamentos específicos e reais do cotidiano, como enfermidades, doenças, dívidas, crises e carências.

Possuem teorias sobre salvação, mas não pregam a pessoa da Salvação, Jesus. Possuem elocubrações poéticas, mas que não têm a ver com a poesia e autoridade do Cristo. Possuem muita leitura de livros acadêmicos teológicos, mas não concebem a revelação que o Pai dá aos pequeninos, e não aos maiores conhecedores.

A solução para esse tipo de rixa é a saída da Academia e uma boa dose de problemas reais, de pessoas reais, com crises reais, gente que não concebe a bondade de Deus no estupro, que sofre e chora em sua frente por isso, por exemplo. Gente que apanha dos pais desde bebê e não compreende como chamar Deus de Pai, outro caso comum. É esse tipo de gente que está precisando de resposta, sem malabarismo teológico, mas companhia no dia a dia, ensino real e prático da palavra de Deus.

A teologia é primordial para pessoas que não têm o que fazer. Para quem tem gente para cuidar, teologia é ferramenta, e o evangelho é a prática.

Teologia tem papel no ensino e formação de pensamento de quem cuida, mas não pode, ou não deveria, fazer-nos perder tanto tempo com vãs filosofias e doutrinas, discussões que não nos levam a lugar algum. Cristo é maior do que essa discussão infantil que nós fizemos questão de criar e fomentar em nossas redes sociais.

A nossa preocupação tem que ser com gente que sai a fim de encontrar um amor todos os dias, que está esperando a um longo tempo e ainda não rolou algo que lhe valesse a vida; com pessoas que esperam ansiosamente por esse encontro e, dia a dia, essa esperança renova-se e o vento diz que pode ser hoje, mas nunca ocorre. É esse o povo que precisa nos ouvir.

Teologia real promove a fé no carpinteiro por meio da simplicidade sem promover complexidade, mas a integridade de um sujeito que anseia por vida diferente, abundante e consciente de que, na verdade, esse carpinteiro é Deus.

Isso que essa música me ensina. Em amor e pelo amor.