O profeta Chorão, em “Não uso sapato”

Apesar de tudo, pretendo continuar chamando Alexandre de profeta. E apesar de todas as reclamações, vou afirmar sim que, particularmente o enxerguei dessa forma. Porque durante a minha adolescência, Chorão traduziu em palavras, muito bem combinadas por sinal com minhas emoções, minhas razões e meus dilemas.

Ainda o chamaria de profeta, por entender que Chorão fala ao coração do povo, principalmente da nossa juventude, de forma mais efetiva que os “loucos por alguma coisa”, os que não lambem alguma fruta por aí e aqueles que escolheram ver o tempo passar. Perdoem-me, mas Chorão traduz de Forma clara a realidade e não apenas conceitos ideais imaginários.

E a desaprovação geral dos evangélicos, não te incomoda? Vocês poderiam perguntar isso. E eu responderia que sim. No primeiro texto em que chamei de profecia a música: Champagne e Água Benta, a maioria das pessoas acharam exagerada a minha comparação. Mas não conheço um profeta bem recebido, nem que seja acariciado por todos. Só conheço os rasgados e humilhados pela mensagem que transmitem.

E ainda, a “vida torta” de Alexandre, talvez não seja diferente da “vida torta” de Davi. Mas novamente, vocês me chamarão a atenção e falarão da comparação blasfema. Perdoem-me. Contudo Chorão continua com profecias ao meu coração.

Vamos para próxima.

Não uso sapatos”. Que Deus nos ajude. Conto com sua misericórdia e que o Espírito Santo nos conduza na nossa meditação.

A música que pretendo falar hoje, se trata de uma canção escrita por quatro compositores. Além de Alexandre, os amigos: Champignon, Marcão e Pelado. Sendo composta por três estrofes, refrão e uma pequena modificação final de refrão também repetida várias vezes durante a música.

É assim que é / Eu vou mudar tudo que não me convém / Hoje tenho tudo que podia querer / Mas dinheiro não é tudo / Tenho muito a fazer / Quem não respeita o pai, não respeita a ninguém / Porque um homem de verdade vai ser pai também / Ame o seu pai, mesmo se ele for porco capitalista”;

Admiro a capacidade da banda Charlie Brown Junior em apresentar sentimentos de uma juventude tão claramente como eles fazem. A primeira estrofe é marcada por uma sede de revolucionar, “vou mudar tudo que não me convém”. Aliás, quero abrir um parênteses. Essa não é a marca da juventude atual, mas da geração anterior; a atual é marcada intensamente pelo comodismo, pela opinião comprada, pelo correr atrás do que todos dizem que se tem que correr, por um seguir o perfil que todos esperam encontrar em cada um dos papéis da sociedade. Talvez tenha me enganado, essa profecia de Alexandre tenha ficado para trás com o tempo. Fecha parênteses. E que a nossa luta com o conformismo comece. (Romanos 12.2).

A banda ainda traz uma verdade, que em minha opinião deveria ser gritada nos nossos púlpitos, nos momentos de discipulado e nas salas de aconselhamento. “Dinheiro não é tudo / Tenho muito a fazer”. Como isso deveria ser ensinado. Cada vez mais, gente que está vazia acha que comprando, consumindo, obtendo, possuindo será preenchida. Não reconhece que não adianta ganhar o mundo todo e perder a alma (Lucas 12.20 – Marcos 8.34). Porque não gritar mais pelas ruas a prisão que o dinheiro traz? Ou então, aquela paz que provérbios garante para quem tem somente o suficiente? (Provérbios 30.8-9)

E para encerrar a primeira estrofe, que tal um recado para os fanáticos políticos do nosso Brasil. Que defendem que os nordestinos são um peso e deveriam morrer, e aqueles que reclamam tanto daqueles que conseguiram batalhar e conquistar algum patrimônio próprio. “Ame o seu pai mesmo se ele for um porco capitalista”, em vários textos meus, dá para perceber uma opinião política pessoal definida. Não quero apresentá-la. Só quero dizer que o respeito é algo a ser vivenciado sempre. Por esse motivo, publiquei há algum tempo em uma rede social:

Você é de direita ou de esquerda? Sou do tipo de gente que acredita que a pobreza deve ser combatida e a riqueza não deve ser demonizada”.

A mensagem de Alexandre, por incrível que pareça (incrível para quem não o ouve, só o conhece de reportagens em sites de fofoca) é o amor.

Talvez a gente tenha o que aprender com ele.

Eu não sei fazer poesia / Mas que se f$%# / Eu odeio gente chique / Eu não uso sapato / Mas que se f$%#

Quero fazer um adendo, dizendo que há uma outra parte também repetida como refrão em que se diz, na primeira parte do mesmo: “eu odeio hipocrisia / mas que se f$%# / Eu odeio gente chique / Eu não uso sapato / Mas que se f$%#”.

Particularmente me sinto muito à vontade com esse refrão, e mesmo depois de “convertido”, não o considero impuro, mundano ou o que quer que seja. Vou explicar. Em determinado momento da vida, a exclusão fez parte da minha história, por não concordar com o jeito a ser pensado, não ser o padrãozinho daquilo que se esperava de mim ou daquilo que deveria fazer.

Ouvir em coro, com outros amigos meus, da mesma idade, que não fazer poesia, praticar determinada modalidade esportiva, usar determinado tipo de roupa, falar com determinada sofisticação gramatical, não queria dizer necessariamente não ser aceito por outras pessoas e principalmente por Deus, me trouxe grande alívio ao coração.

Sim, foi nessa época que mais senti a falta do calor do Senhor, e tive algumas experiências que marcaram a minha vida, e que só comprovam para mim que o reino de Deus não é comida nem bebida, nem roupas a se vestir, nem determinado jeito de falar, mas de vivenciar com Deus o contexto que estou inserido com uma mensagem de libertação (Romanos 14.17). Libertação dos preconceitos sofridos, das angústias experimemto e do modo como reajo.

As músicas de Chorão me libertaram da tentação de agradar o mundo.

O estilo musical que ouço desde o fim da minha infância (rap, hip hop e um “rock meio rap”), faz parte da construção da minha personalidade. Sou alguém que não foge do embate, porque admito e admiro gente como Mano Brown, Mv Bill, Chorão e outros que escrevem em forma de protesto, lutando por direitos. Querendo mudar a história.

Então não importa o que o padrão está querendo colocar. Não quero saber se a moda agora é ler caras que escreveram há mais de quinhentos anos, se é um modelo de gestão de igreja que visa o crescimento numérico à todo custo, se é se dizer louco, virgem ou qualquer coisa desse tipo. Sei que não me envergonho do evangelho e este é possível na cultura que vivencio. Creio nas boas novas que faz tudo para com todos afim de proclamar salvação à alguns (1 Coríntios 9.22).

Logo, grito com Chorão, não sei um monte de coisas que todo mundo acha que eu deveria saber. Não faço um monte de coisas que todo mundo acha que eu deveria fazer. Mas não quero ser chamado de insensato, como os gálatas, que caíram da fé para lei (Gálatas 3). Quero permanecer na fé, crendo que a mesma graça que o santarrão precisa, eu também preciso.

Cristo não nos salva por conduta, mas por fé.

E, em vários momentos de minha vida, Alexandre foi boca de Deus, e a sua música, em tantos outros, poderiam ser traduzidas como as minhas orações para o Deus que creio. Tenho de admitir isso.

Hoje você picha quem já te ajudou / E vem falando mal de quem já te fortaleceu / Mas um homem de verdade não se faz só com palavras / Você perdeu a moral e quem perdeu, perdeu / Se você pisar na bola / Aí rapá, você vai ser cobrado / E se você pisar na bola / Ê moleque, tu vai ser cobrado

Aqui, Chorão, nos ensina algo tão longe da realidade da nossa igreja brasileira. Tanta gente reclamona. Tanta gente que murmura achando que está abrindo o coração, que reclama sem ter um problema real, que não sabe mais enfrentar nada sem estar em “grande crise”.

Alexandre nos convida a sermos mais gratos. Aprendermos que muita coisa poderia ser muito melhor em nossa vida sim. Mas que muita coisa é muita boa e por isso deveríamos ser gratos a Deus.

Gratos porque o Pai tem nos dado tanto mais do que pensávamos em circunstâncias adversas que já enfrentamos. Gratos porque Deus tem colocado tanta gente boa ao nosso redor para ser alívio nessa nossa manha infantil. Gratos por Deus não nos ter castigado tantas vezes como merecíamos, a começar pelo inferno garantido, se não fosse à graça de Deus.

Essa música me ensina que posso trocar meu egoísmo pela gratidão.

Ela fala tudo isso ao meu coração. Mas confesso que tenho que procurá-las dentro de mim, e encontra-las lá. E ao seu? Por que é que ela nunca lhe proporcionou esse tipo de pensamento?

Que Deus te abençoe e até a próxima profecia do profeta Chorão.