O profeta Chorão em
“Só por uma noite”

Acho que já passou a minha fase de escrever coisas para chamar a atenção, mandar recado para gente que eu não tinha coragem de falar frente a frente, para causar polêmica. Não julgo ter alcançado, mas uma coisa faço, escrevo porque acredito e para que, por obra de Cristo, se for da vontade Dele, vocês acreditem também.

A série do profeta Chorão, que alguns acharam se tratar de Jeremias e outros nem imaginavam que algum profeta bíblico pudesse ser chamado assim, não veio com a finalidade de provocar indignação no coração, para causar conflitos, problemas, discussões, embates e nem, tampouco, para que eu fosse xingado na internet, não gosto de provocar martírio pessoal.

Acredito que o anúncio da cruz continua a escandalizar e anunciá-la sempre nos causará algum tipo de perseguição. Logo, escrevendo sobre Chorão ou qualquer outra coisa, eu provocaria escândalo. Acabar com a “autojustiça”, tanto minha quanto dos outros, sempre gerará conflitos.

A verdade é que a graça é escândalo.

Sendo assim, a profecia de Alexandre que pretendo retratar hoje é: “Só por uma noite”, música escrita por Chorão e Champignon, os compadres de denúncia. Parece-me o caso bíblico de Jeremias e Macabeus, em que um ditava e o outro passava para o papel.

Começo pelo refrão, onde certamente aparecerão pessoas reclamando dos palavrões citados, então inicio daqui para as coisas ficarem esclarecidas desde já.

Fim de semana, eu sei lá vou viajar, vou me embalar, vou dar uma festa / Vou tocar um puteiro eu vou te esquecer, nem que for / Só por uma noite, só por uma noite / Só por uma noite, só por uma noite

Foi Fiódor Dostoiévski quem disse: “Existe no coração do homem um vazio exatamente do tamanho de Deus”. Foi Salomão, no livro de Eclesiastes (3.11), que disse que “Deus pôs no coração do homem um anseio pela eternidade”. Esse fim de semana onde rolará de tudo, onde não se sabe bem para onde ir e o que fazer, até perder-se em meio às mulheres (coisa que Salomão fazia bem), é sinal disso, de vazio no coração.

Agora, para você que se acha um santarrão, com justiça o suficiente para condenar alguém pelas letras de música que escreveu, pelo estilo de vida que viveu e dar-lhe um destino eterno, quero lhe contar três segredos:

Primeiro: Esse vazio também já esteve em seu coração.

Segundo: Esse vazio ainda pode estar no seu coração.

Terceiro: Essa vazio pode estar preenchido por algo que não é Deus.

Se depois de uma autoavaliação, você perceber que se encontra na primeira opção, convido-o a buscar misericórdia pelo outro que está em uma condição que já viveu; se está na segunda opção, convido-o a crer que Cristo é a resposta para completar o sentido da sua vida, sim, reafirmo isso categoricamente: Cristo é a nossa vida em abundância; caso seja a terceira opção, aí o convite para você é diferente, troque toda essa porcariada que você vive, seja ela “mundana” ou mesmo religiosa (e essa é bem mais difícil de ser abandonada) pelo Jesus Cristo real, que invade sua vida, seu coração e te enche de alegria, misericórdia, amor e empatia pela humanidade.

Eu procurei em outros corpos encontrar você / Eu procurei um bom motivo pra não, pra não falar / Procurei me manter afastado / Mas você me conhece, faço tudo errado, tudo errado

Sei bem, como todos vocês, que a música de Alexandre foi escrita em sentido amoroso, sentimental e romântico. Há um quesito de relacionamento com problemas e, talvez, que esteja no fim. Mas quero lembrar que não são poucas as vezes que a bíblia trata do relacionamento entre Deus e seu povo por meio de uma analogia ao casamento, relação homem e mulher. Vide, por exemplo, o livro de Cantares, também escrito por Salomão; a história do profeta Oseias, as profecias dos profetas maiores e menores que comparam Israel com uma prostituta; sem falar nas parábolas de Jesus, que nos comparam a virgens à espera do noivo.

O que entendo aqui e a analogia que proponho é a de que Alexandre possa muito bem ter procurado em outros corpos, estátuas, monumentos, esculturas, substâncias químicas e em tudo mais aquilo que só se encontra em um corpo só, o de Cristo.

Bem sabemos o tanto que chorão precisava ter encontrado Cristo em tantos momentos da vida dele e sabemos o tanto que ele procurou em outras coisas aquilo que só Cristo poderia dar. Mas também entendo que Chorão podia estar tentando passar essa mensagem. Esse “você” que tanto foi procurado, e ainda o é, pela nossa juventude é alguém que existe desde antes da fundação do mundo e espera-nos também na eternidade. Esse “você” é o carpinteiro que não mensurará a quantidade de erros que cometemos ao longo de toda a vida, mas nos esperará de braços abertos, em um tempo onde nada mais ocupará a nossa mente, nem a morte, nem pranto, nem dor e nem clamor, porque essas primeiras coisas já terão passado.

Mas só de ouvir a sua voz eu já me sinto bem / Mas se é difícil pra você tudo bem / Muita gente se diverte com o que tem / Só de ouvir a sua voz eu já me sinto bem / Mas se é difícil pra você tudo bem /Muita gente se diverte com o que tem / Se diverte com o que tem / Só por uma noite

Profetas falam com Deus. Falam sobre Deus. Ouvem a Deus. Ouvem e repassam a Sua mensagem.

Ouvir é uma dádiva que Deus nos deu na criação e que usamos tão pouco. Discernir em meditação profunda sobre o que se ouve então, parece que isso nunca nos foi dado. Nem tudo que escutamos deve ser ouvido, dada a devida atenção. Escutar é perceber ruído, ouvir é dar atenção, viver a emoção de atentar a algo.

Desmond Tutu, em seu livro “Nascidos para o bem”, disse que: “precisamos parar, encontrar um lugar, um momento do dia, para que os ruídos do dia a dia não se tornem o que Deus deseja falar conosco”. Os ruídos diários não são a nossa trilha sonora de fato, mas a música de fundo, precisamos ouvir “a voz” acima da agitação cotidiana. Precisamos da orientação de Deus acima dos conselhos dos programas televisivos de família. Precisamos ouvi-lO constantemente, mais do que a nossa forma de pensar e enfrentar a vida. Nós precisamos reconhecer e ouvir Aquele que tem as palavras de vida eterna, mesmo em uma música que em hipótese alguma esperaríamos ouvir.

Eu procurei abrir meus olhos e enxergar você / Eu procurei um bom motivo pra não, pra não estar lá / Procurei me manter afastado

Da mesma forma que não ouvimos, tampouco vemos. Por aí estão aqueles que defendem com unhas e dentes que o mundo está falido, desgraçado e fadado ao caos. Usam esse discurso por não ter a coragem de colocar o pé na lama, iniciar um trabalho relevante e apegar-se ao zelo e ao cuidado dos marginalizados e oprimidos. É o tipo de discurso que reforça o comodismo, a dicotomização (separação do que é sagrado do profano).

Eu, particularmente, fico com Eugene Peterson: “prefiro ver Deus num pôr do sol, num poema, numa janta tranquila com os amigos”. Nada de cultos de poder, não que não os admire e os deseje, mas prefiro enxergar o Senhor no cotidiano, onde posso vê-lo todo dia, não só nos finais de semana em celebrações religiosas.

Quero deixar claro que não considero sagrado o que é profano, mas não consigo enxergar o diabo tantas vezes como a maioria dos cristãos. Não é porque algo não foi feito para Deus (no sentido de evidenciação clara disso no trabalho) que Deus não o possa ter inspirado.

Ainda prefiro Chorão em meus momentos de oração e de meditação para pregar uma mensagem aos jovens a ouvir os grupos que sempre fazem o “mais do mesmo”.

Perdoem-me por pensar assim. Não sou alguém que cabe mais na religião e, verdadeiramente, espero que você também não.

Que Deus te abençoe!

Em amor.