O que aprendi com Monsenhor Benvindo (Os Miseráveis)

“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Ame o seu próximo e odeie o seu inimigo” Mas eu lhes digo: Amem os seus inimigos e orem por aqueles que os perseguem, para que vocês venham a ser filhos de seu Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos. Se vocês amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso! E se vocês saudarem apenas os seus irmãos, o que estarão fazendo de mais? Até os pagãos fazem isso!” (Mateus 5.43-47)

Engraçado como temos a capacidade de ser bons com as pessoas boas e negar a misericórdia àqueles que realmente necessitam dela. Mas fazemos isso mesmo, nem sempre nos damos conta, mas fazemos. Já não é tão fácil depositar nossa confiança em alguém, imagine acreditar nessa pessoa depois de uma decepção.

Ajudar alguém a mudar de vida quando esse quer mudar de vida é nobre, mas e quanto a ajudar alguém que simplesmente teima em voltar para a mesma situação deplorável que se encontrava antes? Isso não é nobre, mas é cristão. Sabe bem disso quem convive diretamente com dependentes químicos e moradores de rua dentre tantos outros. É estar disposto a dar de graça o que de graça foi recebido, e isso todos os dias e talvez várias vezes por dia para a mesma pessoa.

Não é fácil, porém é possível se tivermos a consciência de que não somos melhores que as pessoas que necessitam de misericórdia, porque também necessitamos dessa misericórdia e a recebemos.

Costumo tirar lições para minha vida em fatos cotidianos simples e nem sempre convencionais como rodas de conversa, trechos de músicas, cenas de filmes e até comerciais de TV, pequenas coisas do dia-a-dia costumam me levar a grandes reflexões sobre as verdades divinas. Mas dessa vez algo de fato inspirador me levou a questionar meu comportamento, foi à atitude do Monsenhor Benvindo, o bispo do livro “Os Miseráveis”.

Trata-se de um romance Francês, escrito por Victor Hugo, que conta a história de um ex-prisioneiro, Jean Valjean, que teve sua vida transformada após seu encontro com o perdão e a graça. Mas não é sobre o personagem principal que quero falar, apesar dele ser igualmente inspirador, mas sim sobre alguém que aparece apenas na primeira parte do livro, mas que graças a sua atitude foi capaz de influenciar a vida de todos os participantes do enredo, o Monsenhor Benvindo.

Quando Valjean, depois de ter sido recusado em todas hospedarias da cidade por ser ex-prisioneiro, havia passado 19 anos preso, foi na casa do Monsenhor que ele encontrou abrigo. Mesmo sabendo da condição de ex-prisioneiro e sem saber se era de fato perigoso ou não, o bispo o ofereceu tratamento semelhante ao de qualquer hóspede de honra, colocou seus talheres de prata a mesa e iluminou o ambiente com castiçais também de prata e ofereceu um quarto vizinho ao seu para dormir. Não preciso nem dizer o quão confuso e surpreso o viajante ficou. Mas mesmo assim durante a noite Valjean fugiu com os talheres de prata de quem tão amavelmente havia estendido a mão, mas ele foi pego pelos policiais da cidade e pela manhã quando foram ao bispo avisar que haviam pego o ladrão que o roubara, o Monsenhor Benvindo não somente falou que tinha dado aqueles talheres como também lhe entregou os castiçais de prata que valia muito dinheiro. Disse que era um engano ter prendido o pobre homem. O bispo pediu a Valjean que prometesse que usaria aquele dinheiro para ser um homem honesto. E a vida de Jean Valjean nunca mais foi a mesma, depois disso até historia de uma cidade foi mudada por esse ato de redenção e as pessoas que passaram pela vida desse ex-prisioneiro eram inundadas também por compaixão e misericórdia, ele retribuiu o bem que o bispo o fez, expandindo esse bem aos outros.

Dessa atitude do Bispo Benvindo algumas lições me fizeram refletir acerca de minhas próprias atitudes. Certamente eu abriria minha casa para abrigar alguém que necessitasse de acolhida, mas e se eu soubesse que essa pessoa tinha um passado manchado, será que faria o mesmo? Até que ponto eu acredito na mudança de vida das pessoas? Até que ponto estigmas me impede de amar sem restrições? Outro ponto, por mais que eu decidisse acreditar em alguém que errou muito no passado, e se ele tivesse uma recaída? Eu confiaria nele novamente? Continuaria ajudando a mudar de vida?

Por outro lado, o que eu faço com o perdão e misericórdia que recebi? Estaria disposta a passar adiante ou seria como o servo da parábola bíblica que foi perdoado pelo seu senhor numa grande quantia de dinheiro, mas que foi incapaz de perdoar seu conservo numa quantia bem inferior? É boa a sensação de ter sido tratada com misericórdia por Deus, mas eu estou disposta a tratar os outros com o mesma misericórdia?

Deus te ama mesmo sem você ser digno do amor dele, o amor dele é de graça, nada temos que fazer para conquistar. Devemos agir da mesma forma com os demais. O bispo Benvindo sabia que aquele forasteiro nada teria para dar em troca da janta, da hospedagem e da confiança depositada nele, mas mesmo assim escolheu tratar com misericórdia, por que ele como homem religioso que era, conhecia bem o poder curativo do amor genuíno.

Não devemos nutrir uma superioridade moral e/ou espiritual diante das pessoas, isso nos torna distante e de certa forma hipócritas, pois se alguém que tinha de fato motivos para se manter distante de nós por sua santidade escolheu fazer o contrario, porque nós faríamos diferente?

Não posso me tornar aceitável a Deus mediante meus bons atos, mas mesmo assim ele me amou e me aceitou por meio do sacrifício de Cristo. A aceitação divina não esta condicionada a meu comportamento exemplar (ainda bem!!!) porque devo exigir das pessoas atitudes irrepreensíveis para que eu as aceite e ame? O bispo optou por ter benevolência apesar de tudo.
Talvez você esteja se perguntando por qual foi o crime Jean Valjean foi condenado a 19 anos de prisão, bem seu crime foi ter nascido pobre em meio a uma aristocracia cruel, ele roubou pães para dar a sua família que estava padecendo de fome.

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