A oração do Pai Nosso e um novo sentido pra vida.

Com certeza, a gente não percebe as coisas boas e profundas da vida, exatamente por todas elas carregarem uma característica maravilhosa, a imperciptibilidade. O extraordinário, o é exatamente por não estarmos atentos a ele. A companhia da pessoa que a gente ama, não precisa de uma ação propriamente especial, só o estar presente, disponível pra gente, já viabiliza o amor em reciprocidade. O abraço apertado e cheio de afeto, e dado tantas vezes como um abraço sem gosto, sem resgate, que a gente não percebe que as pessoas precisam deles, querem ser tocadas, afagadas, mais até do que compreendidas, somente escutadas.

Parei para pensar nisso, quando assistia um episódio da série “How I met your mother” onde o casal apaixonado: Ted e Vitória, estão prestes a ter um momento íntimo de relação sexual, marcado por um cem número de elogios, carícias etc, e o casal Marshall e Lily estão ouvindo tudo do banheiro e se sentem mal, por estarem nove anos juntos e seu relacionamento não ter mais essa profundidade e romantismo. Na “cabeça” de Marshall e Lily, o casal estava perdendo tempo com todos esses elogios, e não estavam aproveitando a oportunidade de irem direto ao ponto.

Perder tempo, é ganhar sentido.

E em relação a vida humana, tenho percebido que a gente perde tempo não perdendo tempo. A gente prefere não ganhar em sentido e significado, atribuindo o sucesso e o procedimento a realizar as coisas com a maior agilidade possível. Os casais já não atribuem valor a espera e compromisso para intimidade. Os filhos não sabem o valor de um diálogo lúcido e alongado com os pais. As esposas não sabem como é agradável ao marido escutar um elogio, mesmo que imerecido, e constrangedor para ele. Os maridos não sabem como é importante para esposa, uma vez que seja, colocá-la em prioridade em vez do trabalho.

Na oração do Pai Nosso, temo que essa seja exatamente a situação que nos tenha ocorrido. Costumeiramente, quando vou estudar um texto para pregar, peço a Deus para me mostrar algo que salte aos olhos: um versículo, uma expressão, algo assim… Para a partir dele, compreender todo o texto. Sei que os teólogos de plantão me farão críticas, e pedirão que eu passe a ler textos nos originais, busque comentários profundamente ortodoxos, com fundamentos histórico-teológicos de padrões específicos. Compreendo, confesso que consumo esse tipo de conteúdo, mas também gosto de me manter em busca de uma expressão bíblica mais forte ao meu coração. É uma opção pessoal, não quero dizer que seja correta.

Mas para “compreender” o Pai Nosso, isso foi absurdamente, impossível. O texto parece-me tão interligado, tão profundamente contínuo, tão absurdamente junto, que não consegui. Aliás, acredito que o erro no nosso círculo evangélico não é a leitura bíblica, mas a finalidade dessa. Não lemos o evangelho para compreender o que o Senhor diz, para pensar, para elocubrar mentalmente, produzir filosofia, pelo menos não deveria ser. Preferível é ler a Palavra de Deus para que essa se torne prática em nós. Não jogo fora o senso crítico, o estudo contínuo e perseverante no momento devocional. Estou me referindo a se preocupar mais em praticá-la do que em entendê-la. As coisas andam juntas, e temo que estamos extremamente preocupados em sermos críticos, e não vivos. A nossa fé compreende, mas não transforma. Que Deus nos dê piedade, para a Bíblia ser o que ela é para ser, viva e eficaz em nossos corações e realidades.

Por quê foi impossível compreender o “Pai-Nosso” sob uma única expressão?

Primeiro porque a oração como conhecemos se dá de uma mistura dos textos de Mateus 6:9-14 e Lucas 11:1-3. Segundo, porque as expressões do Pai Nosso não são orações (conjunções gramaticais, que se encerram nelas mesmas, mas que pedem a próxima oração em seguida para complementação de sentido, isso acontece principalmente, em Mateus 6). E terceiro, porque essa oração sendo feita em pequenos pedaços, seria exatamente o contrário do que Jesus pretendia. Além de ser uma oração que abrange as três esferas de relação humana: com Deus, consigo mesmo e com o próximo. Ela traz à tona toda a queda da elitização da oração, e ressalta a simplicidade.

E apesar de algum tempo atrás, a notícia da “Baleia azul” ter vindo a tona, nessa última parece que a situação ganhou proporções maiores. O jogo que consiste na realização de desafios que propunham perigo e machucados a si mesmo, está popularizado e sendo disseminado em todo o país. E é incrível o medo que temos de falar sobre suicídio, e particularmente, tenho gastado um precioso tempo pensando no quão desesperado e desatento somos nós para entrar num desafio como a Baleia Azul. Ou na verdade, quão atentos nós somos para entrar nesse jogo. Estamos tão atentos em tantas tragédias, atentos nos desastres naturais, no momento político do país, a “Baleia Azul” não é um pedido impossível, indiscreto, mas resposta ao nosso anseio de resolver problemas rapidamente. Poderíamos ser um pouco mais desatentos ao caos, e atentos ao benefício humano, ao sorriso, as mensagens (mesmo que de correntes do whatsapp), de gente que está preocupada conosco, e expressa nesses pequenos momentos.

Assim, o Pai Nosso nos serve, para ganhar sentido novamente de vida, é um combate profundo a desatenção de vida em estamos sujeitos a viver. O suicídio é uma luta humana bastante conhecida. É impossível descrever e imaginar o sofrimento psíquico de alguém que pensa, deseja e comete suicídio. É impossível imaginar a quantidade de lutas, e sofrimento. Não tem como afirmar que se dá por um único motivo.

Quando perguntaram a Dostoiévski como ele conseguia escrever tão bem sobre o ser humano, ele respondeu: eu sofro.

Mas nós vivemos tão ocupados, tantos papéis para desempenharmos, atividades na agenda, compromissos a cumprir, obrigações morais que a nossa vida não é uma preocupação nossa, apesar de ela ser a nossa vida, e a vida ser nossa. Não entramos em contato conosco mesmos mais. Não falamos do que precisamos falar, sofremos em silêncio, não temos noção mais do que significa estar com o Pai, que é nosso.

Por isso ao orar o Pai Nosso, principalmente no momento azul que estamos vivendo é bastante importante lembrar:

Por resgatarmos o pertencimento coletivo. O pai, o pão e a fé são nossas. Uma das correntes em torno do desafio da baleia azul é a discussão do tempo familiar gasto em volta da mesa, em casa. A presença efetiva dos pais nos conflitos dos filhos. Se é verdade que os pais precisam se dispor aos filhos, é verdade que os filhos precisam novamente recorrer aos pais. A paternidade ou maternidade, é uma benção de Deus. É um senso de responsabilidade absurdo, onde o outro se torna parte de você e não alienado ou diferente. O outro sou eu, é meu e eu dele.

Ao chamar Deus de Pai, e nos ensinar isso, Jesus está dizendo que Deus tem uma inclinação no coração Dele, chamada de graça, em que pode nos visitar independente do que aconteça. Apesar de a paternidade ter perdido sentido, e os filhos se acharem os responsáveis por si mesmos quando bem entendem. O Pai Nosso nos ensina que precisamos voltar a nossa consciência de que o Senhor é ativo na história.

Oração pede ação. Somos respostas das nossas próprias orações.

Se é verdade que orar é falar, também é agir. Mas quando a gente ora, não somos nós quem agimos, mas o Senhor. E resgatar a figura da ação do nosso Deus como Pai, é ter o privilégio de ser abençoado profundamente por alguém que sabe a importância das coisas como elas realmente são. Só Deus pode trazer de volta a profundidade de vida que a vida exige para ter sentido. Deus é quem restaura aquilo que nós deturpamos, o nosso Pai. E isso não é um benefício individual. Um benefício individual é usufruído apenas por mim. Um benefício coletivo, pode ser prioritariamente para mim, mas todos são impactados e transformados. E a oração, por mais que seja um momento particular e secreto, no quarto secreto, gera benefícios eternos. Avivamentos começam através da oração, curas são ministradas através da oração, bençãos são ditas na Bíblia através da oração, o Senhor fala com seu povo, pela oração de gente.

A oração é um ato coletivo, a Trindade participa em relação íntima com toda a humanidade, num ser humano de joelhos.

Por isso, quando um ora, não é uma pessoa quem ora, mas a humanidade está em oração. Quando um sofre, não é uma pessoa quem sofre, mas a está humanidade em sofrimento. Enquanto nós não resgatarmos o pertencimento coletivo, nós estaremos falando de socorrer emergências e não suprir vazios existenciais.

Na oração do Pai-Nosso, Jesus resgata a benção da vida para a eternidade. Foi Salomão quem escreveu que Deus colocou no coração do homem um anseio pela eternidade (Eclesiastes 3:11). E enquanto não nos dispormos a viver os valores do Reino na terra como são no céus, viveremos alienados e suscetíveis a perseguição de sentido em coisas que não suprem o sentido.

Aqui na terra, servir é aspecto de humilhação, nos céus é a condição de vida de todos. Na terra, amar é para quem nos ama ou traz algum benefício, nos céus é a todos. Na terra a corrida é individual e competitiva, nos seus é colaborativa e cooperativa. Aqui na terra a gente conversa sobre concorrência, no seu a gente conversa sobre eficiência. E ao orar o Pai Nosso, você é convidado a dar esse salto de consciência. Mesmo que isso te custe caro, é questão de natureza, não de tarefas.

O nosso problema, e eu estou profundamente incluso nisso, é que somos gananciosos por sucesso e não por sentido. Nossos pacotes são todos comparáveis e não cooperativos. Dizemos que amamos para poder dizer que amamos, e não para fazer alguém feliz. Servimos para poder dizer que servimos, e não para o outro ser beneficiado.

No Reino, não é assim.

O pecado do irmão serve para me tratar.

Por último, o Pai Nosso nos pede uma vida mais coerente com a santidade de Deus. Não sou alguém que fica em cima dos pecados, batendo em cima, falando, punindo, etc. Mas uma coisa é verdade, se você pertence a mim como ser humano, quando você peca, eu peco. E o pecado serve para nos tratar. O pecado não é uma ferramenta maligna somente, é denúncia de que você não consegue sozinho, e isso não é problema, por isso temos a Igreja.

A igreja é uma reunião de pecadores em volta do nome de Jesus, na ação do Espirito, para glória do Pai. Na igreja a gente aprende a ser gente. Tanto o perfil que a gente pode ser: Cristo. Quanto o que não deve ser: Adão. Mas longe da comunidade local, longe de gente que esteja interessada no seu coração, você sofrerá sozinho e recorrerá a situações absurdas. Então, em nome de Jesus, compreenda a benção de se viver pertencendo e crescendo em comunidade; compreenda os valores e a profundidade do Reino ao invés dos sistemas humanos; e compreenda a benção que é passar pelo sofrimento em companhia de gente que ama ao Senhor na sua vida, que é a igreja.

Estamos a sua disposição. Você não tem o direito de sofrer sozinho.

Em amor e pelo amor.
Mateus Machado