Pare de subestimar o sofrimento do outro

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Dizem por aí que a única que certeza que temos na vida é a de que vamos morrer. Bem, que todos vamos morrer disso não há a menor dúvida; mas daí a colocar essa certeza como a ‘única’ da vida me parece um pouco precipitado.

Da minha lista de ‘certezas que temos na vida’ há uma que vez ou outra me pega desprevenido em plena quarta-feira chuvosa: a de que todos vamos sofrer. Sim, do mais rico ao mais pobre, do mais crente ao incrédulo, do bonito ao feio, todo mundo vai enfrentar o sofrimento e aí aquele papo augustocuriano de que é preciso ser a pérola única de sua vida e enfrentar tudo com força parece não fazer tanto sentido assim.

O sofrimento não tem anatomia

Dito isso, preciso dizer mais uma coisinha, que é o motivo pelo qual escrevo essas palavras: pare de subestimar o sofrimento do outro. Não digo isso porque é certo que amanhã ou depois quem estará sofrendo é você e o outro é quem pode subestimar seu sofrimento. A ideia vai muito além da moral da fábula da cigarra e da formiga. Não subestime o sofrimento e o choro alheio simplesmente porque o sofrimento não tem anatomia e isso significa dizer que a sua maneira de lidar com o sofrimento é diferente da maneira que o outro lida.

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Pense em dois países recebendo uma catástrofe natural: um desenvolvido e um subdesenvolvido. Enquanto um já tem os fundos de assistência reservado, profissionais de defesa civil treinados, habitantes preparados e plano de reconstrução já arquitetado; o outro, subdesenvolvido, mal oferece aos seus habitantes acesso a direitos humanos fundamentais em condições normais, que dirá durante emergências. É mais ou menos assim que duas pessoas diferentes lidam até com o mesmo problema. E isso não necessariamente significar dizer que uma é mais ‘desenvolvida’ que a outra, mas sim que cresceram e se desenvolveram de maneira diferente, com circunstâncias diferentes em contextos diferentes.

Subestimar x Fechar a boca

O querido e saudoso Isaltino Gomes Coelho Filho foi quem me ensinou sobre a palavra ‘misericórdia’. Para ele, mesmo em português, a palavra tem um significado muito rico, que vem do latim ‘misere cardia’ e significa ‘dor no coração’. Obviamente, não se trata de angina ou ataque cardíaco. Refere-se a um sentimento profundo de compaixão, que faz doer o coração. É mais que “ter peninha” de alguém. Pelo fato de nós, seres humanos, sermos da mesma espécie, já bastaria para exercermos misericórdia com qualquer pessoa que sofresse próximo a nós. Mas não é o que acontece. Então, no conflito entre falar pelos cotovelos e subestimar o sofrimento alheio x fechar a boca, fique sempre com a segunda opção.

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Nem sempre as pessoas estão fazendo tempestade em copo d’água

 

Deixe-me exemplificar com algo que ocorreu comigo e para isso usarei nomes fictícios. A menos de um mês a Poli me procurou para contar um problema com o qual estava sofrendo. Eu a ouvi, mas cheguei a conclusão de que não era a pessoa mais indicada para aconselhar sobre aquele assunto. “Vamos falar com o Breno, ele sem dúvidas tem mais bagagem pra te ajudar sobre isso”, eu disse a ela. E lá fomos nós falar com o Breno. No entanto, ao ouvir o que a Poli tinha a dizer, o Breno disse que o sofrimento dela nem era assim tão grande, que ele tinha passado por problemas maiores e que ela estava fazendo tempestade em copo d´água. Meu coração acelerou, senti meu rosto queimando de raiva. Contornei a situação, tirei a Poli daquela situação e resolvi eu mesmo aconselhar e acompanhar.

Aprendi daquela situação que aquilo que não atinge a minha casa, pode derrubar a casa do meu vizinho. Aprendi também que a nós, cristãos, não cabe apenas ouvir sobre os sofrimentos dos outros, mas sim sentirmos as dores dos outros. Aprendi, por fim, que melhor do que oferecer respostas teológicas/filosóficas ou dar lição de moral é oferecer abraço e carinho.  É, meus amigos, oferecer um abraço ao ver alguém chorando deveria ser lei.

Pra variar, encerro fazendo um convite. Dessa vez o convite é para aquilo que chamo de ‘observação atenta’. Observe atentamente ao seu redor e converse com as pessoas que estão sofrendo. Considere sobre a possibilidade de você ser o canal do fim do sofrimento alheio. Mais do que isso, observe atentamente ao seu redor e pondere sobre a possibilidade de você ser causador de sofrimentos alheios e interrompa suas práticas de opressão imediatamente.