Pessoas invisíveis, homens insensíveis.

“Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos como estrangeiro e te acolhemos, ou necessitado de roupas e te vestimos? Quando te vimos enfermo ou preso e fomos te visitar? O Rei responderá: Digo-lhes a verdade: o que vocês fizeram a algum dos meus menores irmãos, a mim o fizeram” (Mateus 25:37-40).

Empatia é a capacidade de colocar-se no lugar do outro, sentir a dor ou a alegria que é do outro, é “chorar com os que choram e se alegrar com os que se alegram”. É a empatia que explica em parte o fato de algumas pessoas abrirem mão de algo para si em prol do outro. Não é uma atitude típica de um herói altruísta, mas de um ser humano que reconhece a sua humanidade no outro.

Por algum motivo, hoje as pessoas estão mais insensíveis às dores dos outros e mais preocupadas consigo mesmas. Temos vivido tempos difíceis em que as pessoas parecem cada vez mais indiferentes ao seu semelhante. “E por se multiplicar a iniquidade o amor de muitos esfriará”. É como se aquele que sofre se tornasse transparente aos nossos olhos, são pessoas invisíveis.

As pessoas invisíveis estão em toda parte, são homens, mulheres, crianças e idosos que ficam no sinal, nas calçadas e nas portas das igrejas. Na maioria das vezes ficam nos lugares mais sombrios da cidade. Você e eu nem sempre conseguimos enxergá-las porque elas se tornaram invisíveis aos nossos olhos. Acredito que deixamos de vê-las porque é difícil demais admitir que aquelas pessoas, numa situação muitas vezes tão degradante, é nosso semelhante. Evitamos olhar para eles porque temos medo de admitir que de alguma forma somos responsáveis por eles. Já que está em nossas mãos fazer o bem e quando não fazemos somos omissos, então é mais fácil fingir que não percebemos.

Outras vezes, se torna mais fácil passar por um pedinte e entregar algumas moedas sem nem ao menos olhar nos seus olhos ou perceber sua dor, afinal de contas, já fizemos nossa parte, nossa boa ação do dia, pra que se incomodar mais? São pessoas invisíveis a quem tememos direcionar nosso olhar e nossa atenção.

Alguns homens invisíveis dormem nas portas da igreja por anos a fio, e mesmo assim continuamos lá dentro, a falar sobre amor e comunhão, quando alguns deles têm a coragem de entrar ou mesmo ficar na porta durante uma celebração, são vistos como ameaçadores incômodos e possivelmente perigosos, ou seja, eles deixam de ser invisíveis quando passam a incomodar.

A igreja poderia fazer algo, afinal de contas foi para isso que fomos chamados também, mas quem vai querer se responsabilizar por um homem invisível? É só mais um em meio de tantos, e outra coisa, a igreja já tem tantos outros problemas para resolver como o próximo congresso de Jovens, ou os dispendiosos gastos com a nova reforma ou talvez picnic das crianças, e tudo para promover o reino de Deus e a comunhão aqui na terra.  Meu Deus, a que ponto chegamos?! Porque nosso amor esfriou tanto assim? Não sou contra essas coisas, pelo contrario, gosto delas e participo, mas acredito que proclamar o Reino de Deus e sua Justiça seja algo bem mais amplo que eventos entre os membros de uma igreja. Já fui acusada de romantizar demais o evangelho por pensar assim, lamento que pensem assim, mas sinceramente não consigo fazer uma leitura diferente do que a bíblia fala sobre Reino de Deus e sua Justiça.

Alguns de nós, de fato, percebemos essa carência e a necessidade de intervir de alguma forma, mas nem sempre sabemos por onde começar, afinal cuidar do outro, seja como for, exige amor, dedicação e doação. É a primeira parte rumo à morte do egoísmo. E isso às vezes custa abrir mão de nossa vontade, do nosso tempo e do nosso dinheiro. Isso me faz lembrar a parábola do bom samaritano, ele poderia ter simplesmente passado e olhado de longe o moribundo que estava à beira do caminho, mas ele optou por investir seu tempo, sua atenção e seu dinheiro para cuidar de alguém que ele nem sequer conhecia. Ele poderia apenas ter olhado pra ele e ter dito como muitas vezes dizemos: Deus abençoa esse pobre homem, mas ele escolheu fazer mais, ele escolheu ser a própria benção de Deus para aquele desconhecido.

Sim eu tenho um sonho: de ver os seres humanos tratando uns aos outros como semelhantes, nem mais, nem menos, apenas iguais, e sei que quando esse dia chegar não haverá discriminação, preconceito, egoísmo ou rivalidade, apenas pessoas que amam umas as outras da mesma forma que Cristo as amou. Isso parece muito romântico para você? Pois para mim parece Reino de Deus se cumprindo.

Posts relacionados

Comentários