Por uma igreja avivada e transformadora

Um verdadeiro avivamento da igreja não
se trata de uma realidade de si para si mesmo.

Fala-se muito de avivamento nos dias de hoje. Quase sempre recebo convites para participar de congressos de avivamento, conferências proféticas, encontros e outros eventos desse tipo, mas toda vez que observo e investigo a tônica do evento, percebo que tem alguma coisa errada na intenção, na proposta, no conceito e no objetivo desses eventos.

Que estrago fez o pensamento do individualismo moderno em nossas igrejas, seccionando a revelação completa de Deus, reduzindo a nossa mensagem em uma espécie de ginástica espiritual e um inconsequente exercício místico, atrofiando as nossas possibilidades de entendimento integral do Reino. Estamos reduzindo o Reino de Deus a uma prática religiosa, mesmo que os cenários que participamos continuem o mesmo.

Estamos todos atrás de um avivamento, que não é nada mais que uma “mandinga gospel”, um “friozinho na barriga” que não ensina a abrir os olhos e ver o outro, mas que foca na busca pessoal de vontades. Subtraímos o sentido real de avivamento e o modificamos para transformá-lo em um simples momento de êxtase sobrenatural. Normalmente, essa palavra está equivocadamente associada a uma espécie de frenesi espiritual. Para muitos, uma igreja avivada é uma igreja que chora diante de uma pregação, fecha os olhos durante uma música e tem “moveres do espírito”.

No entanto, entendo que um verdadeiro avivamento da igreja não se trata de uma realidade de si para si mesmo, não é uma atividade entre quatro paredes, mas é sim, de fato, uma luta pela cooperação da igreja junto a sua realidade, é um aceno para uma atividade profética para dentro da sociedade e dos meios sociais. Penso que uma igreja verdadeiramente avivada não consegue ser indiferente em relação ao outro. Não é uma realidade restritamente espiritual, mas uma realidade social e democrática. Não anunciamos Boas Novas metafísicas, mas Boas Novas para os que estão alheia a isso também. Estamos em uma luta constante pela dignidade dos demais, é um abraço aos desfavorecidos, uma escolha pelos não-escolhidos, um agente de transformação social por meio do amor proveniente do encontro com Deus. Se engana quem pensa que é uma realidade de forçar o céu neste tempo caído, mas é uma invocação a palhinha do tempo vindouro. Um reflexo dos que foram tocados pelo Graça de Deus.

Eu me entristeço em perceber que nós temos nos afastados as realidades bíblicas da nossa missão atual. A cada dia mais temos feitos guetos e temos sido não integrados à comunidade. Cada vez mais estamos sem disposição ao martírio, mas buscando os manjares do rei, incentivando o culto a Mamón, e crendo que a vida cristã é prosperidade e que a riqueza acumulada.

Fugimos dos desafios do mundo e escondemos nossas lâmpadas. Deixamos o mundo apodrecer e armazenamos o nosso sal. A vida cristã é, para a maioria, uma vida medíocre: de casa para o trabalho, do trabalho para casa e da casa para a igreja, na monotonia da rotina. Somos sonâmbulos entorpecidos por uma cultura sem engajamento. Vidas que nada contribuem para a História da humanidade. Comunidades de fé que não fazem a menor diferença na sociedade civil. Não economizam energias para sustentar programas voltados para si mesmo e jamais trazemos o Reino do Deus para este mundo quebrado. Não é que devemos querer o céu aqui, mas é que sendo cidadãos eternos do céu, queremos incluir nessa viagem o maior numero de pessoas possíveis atuando aqui e agora.

Não precisamos de uma cristandade que fala muito, mas fala sem propriedade. Cristãos que não se indignam com as injustiças do dia dia, que querem enxergar o transcendente sem entender as crises desse tempo, e que não tem como preocupação e meta a diminuição da indiferença. Uma igreja acomodada, desinformada, descomprometida, dividida, descontextualizada, que vive suspirando por favores e privilégios, atrás de riqueza e poder, preocupada com abobrinhas metafísicas, rogando uma paz interior egoísta e o enquadramento dos divergentes.

Uma igreja que não dialoga com a realidade fora das paredes. Formando clubes religiosos irrelevantes, times doutrinários desumanos, trabalhando na infusão de culpas neurotizantes, vivendo um legalismo doentio, sacralizando o ritos, invocando um espírito judaizante e demonizando todas as outras coisas. O compromisso deles não é com Deus, nem com o outro, mas consigo mesmo.

Precisamos de pastores verdadeiros. Pastores herdeiros de outros pastores. Pastores que olham para Dietrich Bonhoeffer, o luterano que morre por se lutar contra Hitler e o nazismo. Pastores herdeiros de Martin Luther King, que morreu por lutar pacificamente contra o racismo de sua pátria dita cristã. Pastores e comunidades que respiram justiça. Podemos, também no Brasil, vermos surgir uma geração cristãos sem medo?

Que 2014, seja um momento de despertamento da igreja, um avivamento que escolha tocar em vidas em vez de promover eventos espirituais de origem duvidosa. Igreja que não fale apenas da luz, mas que seja ela. E cada um de nós, sabendo que fazermos parte dessa consciência crística, possamos expressar a mensagem transformadora de Cristo.

Murillo Leal é jornalista e escreve também no blog Crerpensando.
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