A pornografia nossa de cada dia

Sempre gostei de conversar com pessoas, e confesso que assumi um voto e um compromisso cedo em minha vida. Não sou o tipo de cara puritano e combatente exagerado das mentiras e hipocrisias, mas assumi no fim da minha adolescência que, pelo menos no que faz menção aos pecados, principalmente os secretos e intenções do coração, a minha sinceridade deveria reinar. O abrir do coração nunca foi algo “tão” complicado pra mim, mas somente uma etapa necessária daqueles que querem caminhar e prosseguir na prática da espiritualidade com Jesus e nos modelos que Ele propõe.

Confesso que por ter assumido esse voto, de sempre ser sincero em expor minhas mazelas e lutas, já fui mal compreendido, taxado com apelidos e características que não são minhas, até mesmo criticado com veemência.

Escrevo esse texto por amar essa geração atual, onde, infelizmente, a “pastorada” por aí não tem dado muita atenção. Falo dos adolescentes, nossos queridos meninos.

Exerço o ministério com adolescentes na minha comunidade local. Estou constantemente conversando, discipulando, aconselhando e caminhando com essa galera. E não é novidade para ninguém que a sexualidade desses queridos, mesmo tão novos, está a todo vapor. Eles pensam, oram, choram pelas mudanças, desejos, paixões e até mesmo relações que vêm estabelecendo.

Recentemente, num momento de discipulado, alguém me confessa enfrentar problemas sérios quanto a masturbação e uso frequente da pornografia. E, quando questionado se sentia-se culpado ou considerava pecado, este me responde que entendia como sinal mais claro da ação de Deus na sua vida.

Achei interessante a sua colocação e o deixei complementar. Então me explicou: “Eu oro na sala de aula, antes de chegar em casa, para que fique a tarde toda sozinho e tenha meus momentos de masturbação e fantasia sexual. E essa é a minha oração mais atendida por Deus”.

Mais uma vez me vi sem poder usar os clichês, sem vontade nenhuma de culpabilizá-lo e fazê-lo sentir-se um lixo. Ele chorava muito ao dizer essas coisas, e minha única reação foi abraçá-lo e chorar junto com ele por algum tempo.

Venho mais uma vez falar sobre pornografia porque não considero, apesar da constante repreensão de líderes e amigos (que não tratam do assunto, acham que só devemos falar do amor de Deus e do projeto maravilhoso que Ele tem para as nossas vidas) por conta, talvez, de ignorância, considere esse um pecado maior do que qualquer outro. Ao contrário, considero exatamente o inverso, e a falta de se conversar sobre o assunto é um problema que a igreja deveria repensar e agir de forma diferente.

Abro parênteses. O pensar não é falar de algo segundo as próprias fontes de conhecimento e opiniões, utilizando-se somente de jargões estabelecidos. Mas, pensar é estudar, compreender e conhecer fontes teóricas e gente da prática sobre esse assunto para que o conteúdo a ser ministrado seja de qualidade e não retrógrado. Menos opinião e mais conteúdo. Menos achismo e mais conhecimento. Fecha parênteses.

Sendo assim, proponho aqui, algumas ideias simples, que me ajudam a caminhar de forma mais tranquila, com qualquer um que apresente problemas com pornografia, ou “pecados” de cunho sexual.

Ouvir

A primeira coisa que eu aprendo e que me ajuda tanto com adolescentes, quanto jovens, adultos e até mesmo pessoas casadas, é ouvir. Sim, ouvir. A igreja peca, achando que a omissão é uma boa saída, mas peca de mesma forma achando que opiniões ridículas como boicote de marcas de perfume devam ser levados à sério.

Ouça, antes de ir com tudo pra cima do homossexual com sua opinião formada sobre o mundo, sem nenhuma preocupação com a pessoa, mas interessado somente com a sua forma particular de pensar; ouça, antes de atacar com culpa o adolescente que está cheio de crises e transformações no corpo; ouça, antes de culpar o jovem que será pai na juventude ou antes de aplicar disciplina àqueles que não se sujeitam aos caprichos morais institucionalizados.

Entenda: homossexuais, adúlteros, prostitutas, viciados em pornografia e os que mantém relação sexual antes do casamento não precisam de nada que não parta da graça de Cristo. E conforme disse Dallas Willard, graça: “é o contrário do mérito e não do esforço” e esta (graça) os ajudará a serem transformados naquilo que Deus deseja transformá-los, dando-lhes força para resistir no que deixarem Deus trabalhar, e se não o fizerem, a mesa é de Cristo, não sou eu que os privarei de qualquer relação com o Pai, tanto em amor, quanto em serviço ao corpo de Cristo. Assim, entendo que aquele que se propõe a ajudar, o faz, estando perto e junto daquele que sofre, caminhando, orando, e principalmente, ouvindo o abrir do coração, cheio de mazelas, crendo que somente o Senhor pode convencer a respeito do que for. E Deus conhece cada uma das falhas e tropeços de todos, inclusive os seus e os meus e, mesmo assim, insiste em nos amar.

Nosso papel é ser instrumento e não agentes definitivos da história. Que Deus nos ajude a ouvir.

Aliviar a culpa

A segunda coisa que eu aprendo e que até hoje tem me ajudado é aliviar a culpa. O moralismo impera. O legalismo também. Não é de uma vida reta que a nossa geração está carecendo, mas por uma vida com significado. Explico. Gerações anteriores quiseram ter estabilidade e segurança a partir de planejamentos e etc. A geração atual quer novos desafios. O moralismo já teve seu papel de transformação, mas a geração anterior a nossa foi recheada de falhas morais, cheias de falhas no caráter e que não nos inspiraram muito, pra não dizer quase nada. Ouvimos gente com mais de 30 anos de diferença de nós, quando pessoas com 10 ou no máximo 15 anos mais velhas é quem deveriam nos ensinar e inspirar. Aliviar a culpa, não quer dizer dar margem para todo mundo fazer o que quer. Mas como diz Ed René Kivitz: “conscientizar é mais difícil do que comportamentalizar”.

Já escrevi em outro texto que “o evangelho é transformação de ser, religião é adestramento comportamental”. Realmente acredito que a transformação de mente, ou a renovação dela (Romanos 12.2), vai acontecer em três momentos, provocando o verdadeiro arrependimento.

  • Acesso a informação
    Não se enganem, os adolescentes/jovens/adultos sabem de muita coisa, leem muita coisa e acessam muita coisa. Não use a desculpa que falar sobre sexo é incentivo para praticá-lo, mas mostre os dados, as consequências e os erros que podem ser provocados com a vida sexual prematura.
  • O exemplo
    Você pode se enganar dizendo que você não é responsável por nada apenas por informar verdades, mas nenhuma mensagem pregada unicamente pela verbalização será inspiradora. Francisco de Assis nos diria: “evangelize em todo tempo e se necessário, use palavras”.
  • Deixe que o transformador seja o Senhor
    Gaste mais tempo com Deus do que postando coisas na internet, mandando mensagens de controle. Seja um libertador de pessoas e não um aprisionador, mesmo que seja num novo compromisso religioso semanal, vulgo aconselhamento, discipulado, etc. Deixe a pessoa livre, ela precisa reconhecer que precisa de ajuda, e o nosso papel é simplesmente ajudar, enquanto ela quiser e reconhecer a necessidade. Deus é o transformador e não nós.

Você também é responsável

A terceira coisa que me ajuda muito em casos assim, é me considerar responsável disso também. Responsável não é culpado, responsável não é quem tem de arcar com as consequências. Considerar-se responsável é compreender e sentir as dores e angústias do outro que sofre preconceito e apanha na rua por gente intelectualmente duvidosa e perceber-se inútil e hipócrita quando não estiver lá para acolher, proteger e para dizer: NÃO, isso não é evangelho e defesa da fé cristã.

Quando uma adolescente se masturba em frente a uma web cam, com alguém que promete amor, carinhos e etc, o nosso sentimento deve ser o de: deveria estar lá para dizer “você não precisa ser acolhido por homens, mas pelo nosso Deus, o verdadeiro amor que você precisa e a caminhada que te dispõe confiança, amor e afeto, e que certamente a vida com lhe trará alguém que valerá a pena entregar não só o seu corpo, mas o seu coração”.

Quando a mulher está se dispondo a gravar um filme pornográfico, o sentimento deve ser o de: deveria estar lá pra dizer “Querida, quero conhecer seus traumas, suas angústias e dramas. Você não precisa se sujeitar a ouvir xingamentos enquanto alguém toca o seu corpo e abusam sexualmente de você, com objetos e cenas indizíveis. Você tem valor e não é o valor sexual que mais importa sobre você”.

Eu sou responsável porque faço parte do consumo. Eu sou responsável porque não quero ensinar o diferente do que eu vivo. Eu sou responsável porque eu me anulei.

Com o tempo eu percebi e tomei uma decisão: a de cooperar na luta pela paz. Não vamos restaurar o mundo, vamos lutar para que onde houver qualquer tipo de injustiça contra a humanidade, qualquer abuso com a natureza, que eu me sinta inspirado violentamente pelo Espírito Santo a me posicionar em favor do injustiçado e lutar pela sua causa.

Sendo assim, convido você a ouvir, aliviar as culpas e a se responsabilizar com o mundo, com a injustiça e com a ação redentora de Deus na humanidade. A pornografia é uma prisão, para quem protagoniza e para quem consome.

Espero contar com você. E se precisar compartilhar, chorar, e quiser um menino disposto a ajudar, estamos aqui. Vamos juntos com o carpinteiro.

Que Deus te abençoe.
Em amor e pelo amor.

Entre em contato com a gente: minhavidacrista@gmail.com