Quando a porta do quarto se fecha, mas não para orar

A pornografia é um mal que assola a sociedade hoje. Na nossa dita pós-modernidade caracterizada pelas verdades negociadas, valores não compreendidos e apregoados, e o prazer como a regra a ser defendida a todo momento, não dá pra ser diferente.

Não quero defender, como alguns a liberalidade do assunto. Não quero também, impor sobre os ombros daqueles que sofrem com esse mal, um jugo pesado. Quero propor uma reflexão, um momento de atenção direcionado ao assunto, tão pouco tratado, ou acompanhado dentro das instituições. E quando esse acompanhamento ocorre, se dá de forma vergonhosa gerando culpa e não aceitação.

Assim sendo, entendo que a igreja não deve ignorar, mas aprender a dialogar sobre os assuntos mais delicados sempre com a intenção de trazer luz.

Hoje, para nos ajudar ou não, temos duas correntes que tratam sobre o assunto.

1. A galera do “legalismo”.

Nesse time, temos os quase quinhentos anos de reforma, as tradições e história da igreja, os testemunhos dos homens que levavam o pecado até a última consequência, fugiam de tudo quanto parecia mal. Os ditos puritanos, que hoje são representados pelos neopentecostais, os reformólatras e os que chamamos hoje de “neo-puritanismo”.

Gente de Deus, que entende de bíblia, grego e hebraico. Sabe contexto do texto sagrado, sabe como fazer uma exegese e uma hermenêutica, mas não sabe dialogar. Não admite falhas dentro de si, e não admite dentro de si a humanidade própria do ser humano, que possui desejos, monstros internos, e a vida cotidiana, que admitindo ou não, hoje pode ser bem diferente da realidade dos textos usados para criar a cartilha comportamental “evangélica”.

2. A galera da graça permissiva.

Essa é a galera do “tudo pode”. Não precisam de transformação, e dizem em alto e bom som que Deus os ama assim, logo não precisam de mais nada, nem de transformação e muito menos do tratamento dos seus pecados. Essa galera é mais complicada, pois acham-se diferentes dos legalistas, contudo, só estão no outro extremo.

É uma galera que se acha dona da verdade, mas que não deixa a verdade transformar a si mesmo, porque o que eles proferem, não apresenta o Deus Santo, Justo e Bom da bíblia, apresenta um Deus que não deseja nada, somente abençoá-los e aceita-los. Contudo, o próprio Cristo transformou gente de “pescadores de peixes” para “pescadores de homens”, faz de nós “pecadores”, “santos em Cristo”.

“Graça é contrário do mérito e não do esforço” – Dallas Willard.

Lutamos contra o pecado, com todas as forças que entendemos ter em Jesus e ser gerada por Ele em nós, pelo Espírito Santo. É por essa inclinação do coração de Deus que encontro força para lutar com aquilo que entendo que não O agrada.

Quando penso em pornografia, masturbação e outros pecados sexuais, penso que o melhor método de tratar é caminhar junto. Estar disposto a ouvir e não confinar, aprisionar e demonizar esse assunto fora do “casamento”. Não ajudamos apontando o dedo, afastando da comunhão e da comunidade.

Pornografia é pecado. Masturbação é pecado. Adultério é pecado. Mas mentira, fofoca, pensamentos impuros e maledicência também são, e não agimos da mesma forma contra esses. E eu nunca entendi o “por que?”. Com o mentiroso estamos dispostos a conversar, com o adúltero não? A gente abraça o viciado em drogas e o pervertido na questão sexual não?

Penso que a igreja se perdeu em como tratar as coisas.

Pensar no que pode e o que não pode é simples acesso à informação. Agora ajudar o sofrimento, a auto aceitação e o amor do Pai independente dessa condição não se dá por informação, mas por ação, por prática de gente que ama e cuida de gente que sofre.

Para isso precisamos de tempo, de intervenção amorosa e de muito poder do Espírito para que as vidas sejam tratadas. Então, quanto à culpa por se masturbar, está o perdão poderoso de Deus.

Quanto ao seu julgamento precoce, o mesmo perdão, pois seu pecado não é diferente.
Quanto à necessidade de transformação, a ação do Espírito Santo. Geralmente a gente mais atrapalha do que ajuda.

E como ajudar?

Ame, cada um desses. Esteja perto. Eles precisam de gente amiga e aceitação, assim como você e eu.

Então, pensemos em pecados sexuais não como um pecado diferente ou mais “especial” do que outros. Mas como uma realidade a ser enfrentada, por todos juntos, em abraço amoroso.

E eu preciso dizer isso. Não que eu não admire e não me alimente de teologia sistemática, mas prefiro a teologia pastoral. Ao invés de definições, o cuidado. Ao invés de juiz, um ombro acolhedor para chorar e ouvir.

Certamente não precisamos de sacrifícios (sacrificar a vida e a sexualidade desses queridos), precisamos de misericórdia (chorar a cada nova queda e ser confiável, banco de segredos de gente que precisa compartilhar).

Que a teologia sistemática se atente as definições e nos esclareça. E que a teologia pastoral aconteça para compreensão, amor, cuidado e defesa dos carentes da graça. Em nome de Jesus.

E que você que sofre desse mal, encontre alguém para compartilhar, caminhar, orar e estar junto. Que o Senhor te ajude. E estamos à disposição.

Em amor.