Quero uma filosofia que me custe a vida

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A filosofia pós moderna, com seus grandes expoentes, professores e excelentes mestres de universidades se propõem a debater os mais diversos temas da vida contemporânea. As participações de pensadores acadêmicos não-religiosos eram até um tempo atrás extremamente raras nos assuntos como: espiritualidade, fé, boas razões para se viver, meditações para uma vida e etc.

Hoje, até mesmo dentro das igrejas evangélicas, a formação acadêmica para alguém que deseja exercer ministério pastoral, não deve ser composta exclusivamente pelo curso de teologia. Isso já é consenso!
Mesmo a formação teológica sendo considerada pelas instituições tradicionais algo estritamente necessário, cada vez mais cresce o número de pastores com formações filosóficas, psicológicas, pedagógicas, e em outras tantas ciências. Não quero chancelar a formação de qualquer pessoa. Acredito que o conhecimento contribui para o discernimento daquilo a ser ensinado numa comunidade, contudo, penso que o academicismo, principalmente o teológico, pode matar a peregrinação espiritual de um povo inteiro.

O conhecimento de Deus e o dos homens

Recentemente, li o livro do filósofo alemão Friedrich Nietzsche chamado “Assim falou Zaratustra”. Confesso que é um livro bastante interessante. Me provocou, causou reflexões e confrontos. Apesar do autor ser considerado ateu, encontrei nele algumas pontes com o evangelho, opiniões que coincidiram, e até mesmo reforçaram aspectos da minha fé. Mas, claro, existem outros argumentos que me oponho aquilo que Zaratustra falou.

Durante a leitura das primeiras páginas desse livro, Logo percebi identificação entre Zaratustra e João Batista. Talvez o fato de serem chamados de “loucos”, afinal, João, você sabem, se vestia de pele de camelo, comia gafanhoto, mel. Não são características nada comuns. No entanto, ao final do livro, percebi que a maioria das páginas na verdade revelavam grande discrepância entre João Batista e Zaratustra.

Me perguntei: Até onde o que temos ouvido é mensagem de Deus? Seria apena mera divagação humana que só quer flertar com um pouco mais de conhecimento, questionamento, filosofia, cultura e crítica a uma sociedade que o cerca?
Então me lembrei da história da “reunião dos sacerdotes”. Foram convidados sacerdotes de todas as confissões religiosas de uma determinada região, a fim de que se ocorresse um debate à mesa do jantar.

Todos sentaram, comeram, beberam, e conversaram bastante. Após bastante tempo de conversa, brotavam conhecimento, sabedoria, experiência de vida, testemunho, relatos e notícias e então os sacerdotes concordaram que a existência de Deus era improvável, concluindo assim que Deus não existe.

Ao amanhecer o organizador do debate, feliz por comprovar seu ateísmo, saiu ao gramado da fazenda onde o jantar foi organizado, e encontrou o rabino que havia acordado mais cedo para uma caminhada, oração, contemplação, silêncio e agradecimento a Deus. Ao encontrá-lo indagou o rabino: “O que o senhor está fazendo por aqui?”, o rabino com toda educação e paciência inerente ao seu papel sacerdotal lhe respondeu: “Vim orar, falar com Deus e Deus comigo”, prontamente o organizador perguntou novamente: “Mas o senhor não concordou com a gente que não tem lógica que deus exista, e assim sendo, deus não existe”, o rabino com muita paciência e sabedoria lhe respondeu: “Concordei sim, mas o que Deus tem a ver com as nossas maluquices?”.

Ao ler Zaratustra, me propor estar sinceramente em um encontro e conversa reais com a personagem de Nietzsche, percebi que a mensagem era muito legal, sua filosofia e seu método de raciocínio, se o entendi, mesmo que de forma medíocre, é bastante convincente e polêmico, tanto para a época e contexto do autor quanto para a nossa sociedade atual. Mas me faltou algo. Não percebi paixão, não da personagem do livro pela mensagem que propagava.
Considero-me infinitamente menos sábio e com pouca prática na meditação e contemplação do Senhor quando comparado aos rabinos, aos místicos católicos ou aos outros que praticam uma vida intensa, sincera e fiel de oração, mas me identifiquei com o rabino da história ali em cima.

Afinal de contas, o que é que Deus tem a ver com Zaratustra?

Foi aí que decidi ficar com João Batista. Fiquei com João, porque a minha sincera impressão é que esse cara realmente foi diferente. Que sua mensagem, em sua época, em seu momento, no seu contexto foi extremamente mais revolucionário, até mais que Nietzsche.

João me fez perceber novamente que arrependimento é coisa séria. Que quando me disponho a ler a mensagem que o profeta pregava, mas desta vez contra mim, e não ao meu favor, me considerando um religioso e não como, comumente tenho o hábito de fazer, me identificando com o profeta, essa mensagem é poderosa, essa mensagem é evangelho.

Para mim, a água divisória das mensagens, de Zaratustra e João Batista, não é a forma de exposição, os conteúdos adicionais que essas mensagens necessitam para serem compreendidas de uma melhor forma, uma confissão de fé, convicção religiosa ou algo do tipo. O grande divisor se dá no fato de que João morre por sua mensagem. Um amigo, uma vez me disse: “Descobre-se uma mentira, quando se faz a conta daquilo ser ou não prejudicial demais à vida; uma verdade, nunca é prejudicial demais a vida, pois é a verdade”.

Por isso, de todo o coração, tome cuidado. Tome cuidado com as pomposas falas, com o excesso de conteúdo, com dúvidas e questionamentos que não te levem para os pés de Cristo em oração, mas te criam confusões demasiadamente, desnecessárias e te impossibilitam ser simples e sincero na relação com Jesus de Nazaré.

Todo cuidado é pouco!

Tome cuidado com argumentos que te impossibilitarão relacionamentos sinceros de gente que quer te amar, mesmo com dificuldades para isso; e acolha com afinco a possibilidade de, até mesmo, reduzir a intelectualidade das rodas de conversa para possibilitar mais abraços, sorrisos e amigos.

Tome cuidado com os pastores que julgam e querem saber tudo, negando-se a possibilidade e a realidade de não terem as respostas para tudo; e abrace a simplicidade de homens de fé, que diante de mazelas da sua história, se colocarão ao seu lado de joelhos em oração.

Tome cuidado com as igrejas que se comprometem e estabelecem argumentos sempre mais atrativos em comparação com as demais; e abrace, quando lhe for necessário, a oportunidade de congregar com pessoas simples, que não apresentam nenhuma outra característica que não seja o amor, um sorriso e um sincero desejo de te verem novamente.

Tome cuidado com aquilo que a gente chama de profeta, a gente se engana. Tome cuidado com aquilo que você com frequência avalia e até mesmo assume publicamente, como o único que fala ao seu coração no nível intelectual que está. Tome cuidado. Porque esse cara, muitas das vezes, não sabe nem ele mesmo no que crê, mas o seu conhecimento já se tornou barreira para assumir que precisa de ajuda e voltar a ser simples na fé, na vida diária com o Senhor e na consagração de sua vida.

Peça ao Senhor o dom de discernir o que se ouve, e quanto ao cuidado de nossas vidas, principalmente no que tange a nossa peregrinação espiritual, todo cuidado é pouco. Desmond Tutu diz que a vida humana é um solo sagrado, se pudesse parafraseá-lo, o seu coração é um solo sagrado.

Quero te dar um conselho: leia o máximo que puder; questione o máximo que conseguir; ore o tanto quanto lhe for possível; mas indistintamente, peça para que Deus lhe dê discernimento, sem isso, podemos correr o risco de passar longe do plano do Senhor para nossas vidas.

Em amor e pelo amor.