Síndrome de Doutor House

Voce conhece esta sindrome?

Há muito tempo eu não via um personagem tão bem construído quanto o “House”, interpretado por Hugh Larie. Não pela bela atuação, nem pela característica marcante do personagem, mas pela verdade que ele representa a sociedade de hoje em dia.

House é um homem cético, auto-suficiente, extremamente sarcástico, que apresenta uma frieza incomodadora e é o mais belo calculista que conheci na televisão. Tem comportamento de vilão, mas a carinha de mocinho. Ele é um médico, mas que por um golpe de irônia, sofre de um problema em uma das pernas que além de causar muita dor, faz com que o personagem seja um viciado em analgésico, pois sua enfermidade é incurável. Um dilema interessante para um “semi-deus” da medicina.

Apesar de se tratar de uma série de televisão, o caráter do House tem sido idolatrado por muitas pessoas de várias idades, e há até uma veneração colocando o personagem como um exemplo a ser seguido, pois o que mais valorizamos é que ele é um médico formidável e tem seu reconhecimento profissional. A sociedade do mérito aplaude caras como ele, enquanto engana aos tolos que acham que segui-lo é exemplar. Talvez a maioria das pessoas que o admiram quisessem, na verdade, fazer com que seus defeitos sejam esquecidos frente a sua grande competência, mas sabem que isso seria impossível, pois ser bom também necessita ser equilibrado emocionalmente.

Principalmente nas redes sociais, existe uma onda que celebra a rudeza, a frieza, e o ceticismo de Gregory House como se fosse a solução de resposta para o mundo, onde elas não são nada, nem ninguém. As duas frases prediletas do doutor são: “Everybody lies” (Todos mentem) e “People don’t change” (As pessoas Não mudam). Com essas duas frases é possível fazer com que o telespectador olhe a seu redor e note que o mundo é realmente construído por mentiras e que quase não sofre mudanças, tentando sugerir que assim também são as pessoas.

O problema dessa percepção do mundo é que quem geralmente assumimos como verdade o que House diz e criamos um certo distanciamento, não tendo coragem de se perguntar: “Pera ai, mas quem é “everbody”? Pera ai, mas quem são essas “Peoples”?” Ficamos sempre com uma impressão que estamos falando dos outros e que nós não fazemos parte desse grupo de mentirosos arrogantes, afinal, pensamos que somos competentes suficientes, e que sem nós, o mundo provavelmente seria pior. E que se não fossemos por nós, provavelmente muitas pessoas não seriam curadas. Uma soberba auto-sugestão de que somos insubstituíveis.

Por isso, cada vez mais as pessoas vão criando um altar para si próprias onde só é admitido conviver com aqueles que me veneram, onde eu só tenho amor por aqueles que me admiram, onde eu dou respostas convencidas para quando me pegar em um uma situação de fracasso, onde eu estou mais preocupado em me reafirmar quem sou a ter que me render a minha humanidade torpe e minhas mazelas. Vivemos escondendo quem somos porque achamos que ter a admiração de outros é o mais importante

  • House prefere animais, o evangelho prefere pessoas.
  • House prefere a medicina, o evangelho prefere milagres.
  • House prefere ter poucos amigos que o procurem, o evangelho prefere granjear amigos de verdade.
  • House prefere afirmar que é bom o bastante, o evangelho prefere entender que não dá pra ir longe sozinho.
  • House prefere apostar todas suas fichas em si próprio, o evangelho prefere dar créditos quantas vezes precisar aos outros.
  • House é um pessoa detestável, nós também somos, mas não nos orgulhamos disso.

O que tem no House é um pouco de vazio, um pouco de remorso, um pouco de sentimento de auto-justiça, um pouco de tolerância zero. O que resume o House e o que nos faz admirar é ter a impressão de que não precisamos mudar para que as pessoas nos admirem, não precisamos mais renunciar, não precisamos mais perdoar, não precisamos mais nos rebaixar, agora, o ódio não é mais tão ruim, e você não precisa mais mudar de opinião, voce não precisa mais deixar sua teimosia de lado, você não precisa deixar de mentir, você só tem que convencer as pessoas a te amarem obrigatoriamente pelo que você tem de melhor.

A vida de House é uma grande mentira! Desculpem-me, mas eu não quero a vida solitária dos frios e calculistas, eu não quero a certeza de que sou bom demais no que faço para que não caia no engano de me achar alto e auto-suficiente, eu não quero o ceticismo dos homens que pensam ser detentores de sua própria vida, eu não quero as pessoas me admirando unicamente pelo que faço de melhor, mas anseio que tenha a quem recorrer na hora da dor, eu não quero passar a vida toda sob efeito dos analgésicos que dão a sensação que a dor acabou mas que no fundo volta a qualquer hora, eu não quero ser um ser humano machucado pela sensação de que falta sempre alguma coisa para que eu alcance a felicidade, eu não quero ser uma pessoa que desempenha muito bem seu lado profissional, mas é e emocionalmente imatura, eu não quero ser atingido pela síndrome do Doutor House.

Deixo o House para a ficção, e vivo a realidade que tem para ser vivida e encarada, baseado na verdade relacional, na dependência de outros e no amor que supera arrogância. E espero que você esteja comigo nessa!

Murillo Leal é jornalista e escreve também no blog Crerpensando.
Contato: mumaleal@gmail.com http://about.me/lealmurillo