Só existe direito porque não há amor

Certo dia, uma pessoa colocou uma estaca em um pedaço de terra qualquer e decretou que a merecia, fazendo dali o seu (exclusivo) lugar. Desde então, o mundo se divide entre aqueles que têm posses e os que não tem. E o amor começa a se esfriar…

Sempre me perguntei como surgiu a ideia do dinheiro e em que momento da história as pessoas aceitaram que ele comandasse opressivamente nossas vidas. Aprendi na escola as teorias mercantilistas, mas isso não satisfez a minha incapacidade de aceitar que alguém achou bom e conseguiu convencer (ou oprimir) a outros de que essa seria a solução para os problemas – porque, de fato, não acredito que seja.

Sabemos que o amor nos torna solidários, altruístas e caridosos, então pensando dessa forma, ninguém separaria para si e se autonomearia dono exclusivo de algo que só traria um bem estar coletivo.

O amor, claramente, tem se esfriado nos últimos dias e já tínhamos sido alertados a respeito, para que nos preparássemos para enfrentar as consequências difíceis desse fato. Ainda assim, oro para que no seu e no meu coração, ninguém a não ser o Deus Amor tenha espaço para ser definitivamente o Rei. Oro também – todos os dias, cada vez mais assustada – para que nunca nos tirem o direito humano de: nos sentirmos seguros, de nos alimentarmos, estudarmos, vivermos e, principalmente, amarmos e sermos amados.

Não quero que você sinta-se culpado por ter alguma coisa, nem dizer que o fato de buscar uma vida mais confortável te faça contribuir com um sistema falho de “merecimento vs oportunidade” (claro que existe uma linha bem tênue aí e espero que você sempre analise para ver se não a ultrapassou). O que quero que entenda é que em seu coração, independente do que possua, você sempre lembre de que foi Deus quem te deu tudo o que possui e todos esses recursos não são exclusivamente seus, mas foram entregues em suas mãos para que com eles você ajude na construção do Reino de Deus, um Reino feito de Amor, pelo Amor e para o Amor. Um Reino onde não há miséria, mas compartilhamento e doação; não há egoísmo, mas existe desapego; não há meritocracia, mas prevalece a graça.

“Todos os que creram pensavam e sentiam do mesmo modo. Ninguém dizia que as coisas que possuía eram somente suas, mas todos repartiam uns com os outros tudo o que tinham” (Atos 4.32). Esse é o exemplo de Igreja que devemos seguir. É dessa forma que aqueles que foram constrangidos pelo Amor aprendem a viver. Cristo por amor deu a Sua preciosa vida por aqueles que não eram merecedores, por aqueles que de forma alguma jamais seriam capazes de retribuir o Seu favor. Ele abriu mão do seu direito para nos livrar do nosso dever e não pediu nada em troca. Ele mostrou que o Amor está acima do direito, mas pelo que sentia por cada um de nós, Ele nos deu tudo o que precisávamos para vivermos abundantemente.

Quando o amor reger nossa vida (e não nosso intrínseco egoísmo), não serão necessários artigos e mais artigos para definir nossos direitos, porque cada um terá plena consciência de onde acaba seu espaço para começar o do seu próximo, todos farão aos outros o que gostariam que fizessem com eles e entenderão como viver em comunhão e harmonia. Não sei se esse dia chegará (sem ser pessimista, acho que a tendência não é a de que isso ocorra), mas independente dos outros, recoloquemos Cristo como administrador de cada pedaço do nosso coração e que, assim, pelo Amor, possamos desfrutar do real significado de “koynonia”, lutando para que o outro tenha, mesmo que sem merecer, seus direitos garantidos, da mesma forma como eu espero e desejo que os meus estejam sempre assegurados.