Sobre células, cédulas, as multidões e o evangelho de Jesus

Antes de tudo, quero pedir perdão pelo tamanho do nosso texto, tentei de todas as formas resumi-lo, ser direto e conciso, contudo falhei. Dessa forma, o texto se alongou um pouco. Perdão.

Gostaria também de fazer mais um adendo, eu amo a visão em células, creio realmente na ação de Deus nessa forma de gestão de igreja, mas gostaria de fazer alguns questionamentos a respeito dela, e decidi compartilhá-los com vocês. Se possível, me perdoem, mas espero que Deus nos traga uma meditação a esse respeito.

Todos nós, ou melhor, todos os crentes modernos e atuais, já ouviram falar da conhecida visão ou modelo de gestão de igreja denominada “Igreja em células”, ou como alguns outros chamam “pequenos grupos”.

Essa visão tem por objetivo a promoção de comunhão, maior aceitação e acolhimento na comunidade local, como também um pastoreio mais efetivo, visto que durante a grande celebração dominical (ou em qualquer outro dia da semana), não se possibilitam esses fatores nos corredores e no hall do templo da igreja. Atendendo também as necessidades do rebanho, já que para os pastores é difícil o pastoreio de um número grande de pessoas da comunidade local, mesmo durante a semana.

Assim sendo, a célula é caracterizada por uma reunião onde algum tema bíblico é abordado (em algumas ocasiões, a reflexão dominical é retomada), e são compartilhados assuntos da vida cotidiana, da compreensão do sujeito sobre a pregação, de como aqueles ensinamentos do púlpito se tornaram práticos durante a semana, etc. Também é o momento onde pedidos de oração, crises pessoais e situações específicas vivenciadas pelos integrantes são compartilhadas e uns podem orar pelos outros, e ter suas necessidades sendo levadas a Deus em oração também por outras pessoas.

A reunião em si não é negativa. Promove aceitação, promove o acolhimento e amor fraternal entre os irmãos. Promove o aparecimento dos dons espirituais e práticas espirituais. Apresenta fatores importantes, defendidos pela reforma protestante como o sacerdócio universal, livre acesso às escrituras, liberdade de culto, etc. Demonstra ainda, aos mais atentos que não existe a necessidade do templo para uma manifestação espiritual, mas mostra que a reunião de pessoas em nome de Jesus, é de fato, o templo do Deus Altíssimo.

Mas a pergunta é: e se tratando em visão de crescimento, você concorda com a visão em células?

E então, sou obrigado a dar um ressoante não.

Quero deixar claro que não sou contra igrejas grandes. Em segundo lugar, quero deixar claro que não sou contra quem deseja evangelizar pessoas (isso também arde em meu coração). Em terceiro lugar, quero deixar claro que sou desconfiado quanto as intenções.

Agora explico. Sou contra qualquer visão de crescimento de igreja. Porque não consigo entender como uma igreja vai crescer sendo obedecidos e estabelecidos regras e padrões humanos (teologias, técnicas e afins).

É fácil demais compartamentalizar pessoas. Fazê-las acreditar que sem determinada reunião a vida dela não será a mesma. Ainda, que sem determinada pessoa a vida dela com Deus não será legal. Isso é demoníaco, é diabólico, é religião.

Igrejas têm de crescer sim, conforme Deus for dando a ela os que hão de ser salvos. Igrejas têm de impactar realidades sim, mas sua preocupação não é a de ser maior, mais populosa, mais numerosa, mas sim em ter no centro de si a visão de que Cristo é o motivo da reunião.

O pior de tudo, não é quando a coisa é vista da forma errada. No caso, como a “igreja em células” tem sido vista pela maioria dos pastores (como método de crescimento, como o “segredo do sucesso”), mas o duro é quando mesmo essa técnica de crescimento sendo “duvidosa” dá certo. Ou seja, aumenta o número de frequentadores do templo.

Porque de uma mentira, surgem outras. E dentro da visão de pequenos grupos, surge um grande mal hoje que assola o Brasil (na minha modesta opinião), chamado MDA.

Para alguns, a sigla significa: Meu Discípulo Amado; para outros: Método de Discipulado Apostólico.

Na minha concepção, pode-se chamar: “furada”. Marketing evangélico americano.

Até porque na bíblia, nenhum apóstolo discipulou alguém como sugere esse método. Os apóstolos não controlavam as vidas uns dos outros, não tinham senhas repartidas, não eram obrigados a nada. Os apóstolos confiavam uns nos outros por entender que Cristo em você, tem muito para acrescentar à mim, e o nosso relacionamento comunitária glorifica o nosso Pai dos céus.

E não são poucos os traumatizados por terem seus celulares vigiados, seus e-mails monitorados, suas redes sociais abandonadas. Serem seguidos por seus discipuladores. E por aí vai.

Vocês podem estar achando que peguei pesado. Mas tenho um trauma. Há algum tempo atrás esteve aqui na minha igreja uma preletora que defendia o MDA, de forma tão acentuada que quase considerei o líder da igreja dela (um dos fundadores da visão) o maior entre os homens. Contudo a fala dela, baseada no controle, em “agradar a Deus”, em horas de oração, em obrigações pesadas era claro durante todo momento. Sendo ela evangelizada, discipulada e hoje prega por aí, tudo no modelo citado.

Minha grande pergunta aos pastores. E eu realmente gostaria que esses me respondessem, é: Se você tem um amor tão grande por vidas, a ponto de desejar cada dia mais vidas em suas comunidades locais, por que não se dedicar àquelas que Deus já te colocou como bispo sobre elas, ao invés de se preocupar com metas de células, multiplicações e o número de membros?

Teve um carpinteiro que andou com 12. Fugiu das multidões. Ele mudou o mundo. Ele salvou o a humanidade.

Nós, com nossas misérias, queremos que o mundo se exploda. Queremos as multidões aos nossos pés. E que o nosso sucesso seja individual.

Por favor, paremos então de nos preocupar com a quantidade de membros arrolados na nossa comunidade. Paremos de nos preocupar com a quantidade da arrecadação. Paremos de nos preocupar com a quantidade de multiplicações das nossas células. Paremos de nos preocupar com o crescimento que quem dá é o Espírito de Deus. Paremos de nos preocupar com o sucesso. Paremos de nos preocupar com o nosso nome. Paremos de nos preocupar com o que dá certo.

Pare de querer dar certo. Pare de procurar o segredo. O segredo é não descer da cruz, deixar Deus aparecer e a graça abundar sobre os pecados, os corações sedentos e as vidas destroçadas. O segredo é amar a Cristo a ponto de não atrapalhá-lO no governo da Sua igreja. O segredo é crer que Deus dará pessoas, fundos, números se assim for da sua vontade, e se isso não nos for corromper. O segredo é estar preocupado com o evangelho e não se a visão dará certo.

O evangelho sempre foi o poder de Deus para salvar. Se esse for pregado com fidelidade, seja em célula, seja em rede ministerial, seja em evento, seja em acampamentos, seja no que for. Poderá levar pecadores desgraçados ao Cristo santo que se fez pecado para nos possibilitar o amor de Deus.

Então, em nome de Jesus, você pastor, pastora, diácono, presbítero, obreiro, não se atente aos números, nem se preocupe com eles. Atente-se a Deus que não pode ser contado, nem mensurado. Atente-se a esse amor maravilhoso, que num rasgo de misericórdia, pode te levar a pensar diferente e descrer da numerologia, e te fazer crer novamente no verbo feito carne, que vem como pão do céu alimentar a fome da sua alma.

“Habite ricamente em vocês a palavra de Cristo; ensinem e aconselhem-se uns aos outros com toda a sabedoria e cantem salmos, hinos e cânticos espirituais com gratidão a Deus em seu coração. Tudo o que fizerem, seja em palavra seja em ação, façam-no em nome do Senhor Jesus, dando por meio dele graças a Deus Pai.” (‭Colossenses‬ ‭3‬:‭16-17‬)

Que Deus nos abençoe. Que Deus nos liberte. Que Deus tenha misericórdia de nós. Em amor.