Sobre Narciso e a minha intolerância

“Falando a verdade com espírito de amor, cresçamos em tudo até alcançarmos a altura espiritual de Cristo, que é a cabeça.” (Efésios 4:15)

Quem nunca ouviu a expressão “Narciso acha feio tudo o que não é espelho” não sabe o que é perder uma amizade por causa de uma divergência de opiniões ou deixar alguém de escanteio porque não é “seu tipo preferido de amigo ou ser a própria pessoa deslocada por não se enquadrar nos padrões do grupo. Ou então é porque não deu uma breve olhada no facebook pra notar o verdadeiro ringue eleitoral que se formou nesses últimos dias.

Não brigamos por causa de religião, política ou futebol, na verdade brigamos por que existem pessoas com opiniões e padrões diferentes dos nossos e temos dificuldade de conviver com aquilo que não é espelho, ou seja, com o que difere de nós mesmos. Temos um grupo perfeito, um casamento perfeito ou uma amizade perfeita até o momento que descobrimos que o outro não é nosso espelho, mas que tem impressões próprias, vontade própria e pensamentos próprios, e a chateação pelo outro ser diferente é reflexo de nossa intolerância. Para nós o outro é quem está errado e tem que mudar de idéia sempre e é nossa missão convencê-lo disso.

A intolerância está presente na historia da humanidade e com o cristianismo não foi diferente. Os primeiros cristãos se tornaram mártires porque declaravam algo contrário ao contexto político e religioso da época.

Mas hoje presencio uma intolerância dos cristãos com aqueles que não são, ao passo que Jesus mandou amar (sem reservas e independente de quem seja) mas hoje preferimos criticar, aborrecer ou não se misturar, atitude bem diferente de Jesus que amou até o último instante e que não se incomodava em conversar com prostitutas, jantar com publicanos ou se ajuntar com pecadores, ele amou todos sem reservas e até o fim, já quanto a nós…

Ah… mas a nossa intolerância não atinge apenas as pessoas que estão de fora de nosso clube “perfeito de cristãos”, ela também se aplica aos que estão dentro do clube, pode acreditar, bastando para isso apenas variar uma versão teológica, vejam só, os Calvinistas zombam dos Arminianos, e os Arminiamos acusam os Calvinistas, e os dois criticam os que estão em cima do muro, os de uma igreja tradicional criticam os pentecostais e vice versa. Já presenciei verdadeiras guerras teológicas nesse sentido e podem acreditar, não me acrescentou em nada apenas me chateou de ver pessoas impondo suas interpretações sem exercitar nenhum pouco de tolerância.

Eu acredito que se colocássemos em evidencia as nossas semelhanças ao invés de supervalorizar as nossas diferenças cresceríamos bem mais e seria mais fácil de nos unir por um bem comum, propagar o reino de Deus e amar as pessoas com ações, independente do que elas pensam ou fazem.

Nos sentimos impacientes com os que pensam diferente e quando acreditamos em algo que temos como verdade não basta ensiná-las, temos a necessidade praticamente de arremessá-las  contra os outros  e chamá-los de ignorantes por não saber ou não conseguir entender aquilo que temos como absoluto, resumindo chamamos de ignorantes por não serem nosso espelho.

Não quero dizer com isso que devemos omitir nossa opinião ou mudar de idéia a cada instante pra evitar o conflito, mas não podemos confundir nossa opinião com a verdade absoluta e mesmo a verdade deve ser dita com amor, sem a intenção de humilhar o outro, mas sim corrigir.

Expor o que pensamos é diferente de impor, às vezes tenho a impressão que não ficamos satisfeitos apenas em expor aquilo que acreditamos, temos que impor nosso padrão e se ele não for aceito apenas por meio de argumentos se passa a discussão e por fim a violência, aos poucos as pessoas foram perdendo a capacidade de dialogar sem ofender. Praticar o amor é também praticar a tolerância e a tolerância só é praticada em meio à divergência de pensamentos, idéias e posturas. Isso produz crescimento.

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