Somos mais idólatras do que imaginamos

Jesus é um cara incômodo. Ele quer nos tirar de tudo que nos possa dar segurança. O Cristo não admite nos dividir com ídolo nenhum. A grande verdade é que o carpinteiro de Nazaré é alguém que traz para a nossa realidade um tanto de situações inconvenientes. Jesus olha a gente no olho, investiga nosso passado, confronta-nos com os nossos erros, sugere-nos a opção do arrependimento e oferece-nos de forma absolutamente gratuita o perdão.

Jesus é um incômodo.

Mas para além daquilo que estamos acostumados e frequentemente ouvimos nas nossas celebrações religiosas, as coisas não acabam por aqui. Jesus tem uma mensagem de contracultura, uma nova forma de viver.

Estudiosos bíblicos e personalidades humanitárias reconhecem estar resumida nos capítulos 5, 6 e 7 de Mateus uma fidedigna fé em Cristo. Um texto em que a construção de identidade daquele que professa a fé em Cristo é apresentada. Para os mais desatentos e que desconhecem a ação do Senhor, a mensagem é utópica e incoerente aos nossos corações. A prática da fé e a maneira dessa fé acontecer no cotidiano é apresentada no decorrer do capítulo 6 com um tom de subversividade, trazendo para nós uma crítica, como se tudo que a gente realiza na caminhada com Jesus, nos dias atuais, tivesse sofrido uma deturpação religiosa que enfoca mais o nosso desempenho que a ação graciosa de Deus em se relacionar conosco. E o capítulo 7 é um momento em que Jesus resolve confrontar seus discípulos de maneira dura e enfática, mostrando de verdade a dureza e a impossibilidade humana de seguir ao Senhor por vontade própria, sem o convencimento, auxílio e manutenção do Espírito.

É tudo muito lindo, mas como isso se torna real na minha vida cotidiana?

Falar de Jesus de Nazaré a partir da Bíblia, relacionando textos bíblicos com outros textos bíblicos e dizendo que a gente precisa melhorar na nossa prática de fé com Deus não é uma novidade. Já faz tempo que nós todos estamos no mesmo padrão e modelo de culto, que pouco interage, responde e questiona a vida da comunidade que se reúne semanalmente e até mais vezes por semana para aprender do Cristo.

A questão que gostaria de discutir, ainda pensando um pouco sobre o sermão da montanha, é a questão da idolatria e como nós nos fingimos imunes a essa realidade e não nos propomos de alguma forma a lutar contra ela. Acreditamos que em nossa fé, no padrão decorrente da reforma protestante de Lutero e Calvino, tenhamos acabado com a idolatria e não tenhamos mais dificuldades com adoração de coisas que não sejam o próprio Deus.

Rotulamos a prática de fé católica como limitada em sua compreensão bíblica e engessada em tradições que não permitem a ação do Espírito Santo. Todavia, nem nós mesmos somos honestos sobre as coisas que colocamos no lugar de Deus em nossos corações, como nossos ministérios, popularidade, vida familiar etc.

O autor Don Richardson, no maravilhoso livro chamado “O fator Melquisedeque”, afirma que em toda cultura, por mais alienada que ela esteja, tem rastros da bondade e da graça de Deus, ou seja, em todo lugar que formos e se usarmos um pouco da nossa compreensão bíblica e leitura da Palavra para encontrar uma ponte com o evangelho, conseguiremos pensar em uma melhor maneira de abordar essa realidade para falar da fé cristã e apresentar Jesus de Nazaré.

Pontes são pontes, não destinos. Os meios para o evangelho não podem se tornar um ídolo, a mensagem ainda é o Cristo crucificado.

Contudo, o que acontece conosco é que normalmente, ao conseguirmos compreender algo que propõe uma ponte de comunicação com uma cultura que esteja distante da nossa realidade, a gente acaba deusificando essa ponte, e ela acaba sendo tão importante, se não mais, que a mensagem que transmitimos, ou seja, aquilo que era para ser uma ferramenta torna-se a finalidade.

E o que isso tem a ver com idolatria?

O conceito de idolatria é a tomada do lugar no coração humano daquilo que pertencia a Deus. É a tomada da nossa dedicação, tempo, pensamento, sonho, de tudo. O ídolo, geralmente, não começa como um ídolo, começa com uma oportunidade de algo ser positivo para a nossa realidade e torna-se cada vez mais importante e forte na nossa vida. Isso chega ao ponto de, em algum momento, estarmos completamente obedientes e coniventes com qualquer demanda que o ídolo nos pedir.

Podem tornar-se ídolos as discussões políticas atuais, a dicotomização política nacional entre esquerda x direita (embora essa nomenclatura nem possa ser empregada realmente no Brasil no que tange ao seu significado real), as questões de gênero, as opiniões quanto a determinados candidatos etc.

A tendência humana natural, em virtude da natureza pecaminosa, é viver em uma eterna busca de Deus sem se relacionar com o próprio Deus na maneira que Ele estabeleceu: pela sua graça, mediante a fé, crendo que o Filho pagou o preço por nós na cruz. Essa é a revolução do cristianismo no mundo. Esse é o poder do evangelho em nós: não nos tornemos pessoas que se apaixonem por visões de mundo, mas pelo criador do mundo, plenamente revelado em Jesus de Nazaré.

A nossa resposta à idolatria é o evangelho, e o evangelho é Jesus.

O evangelho é um grito de socorro para uma reavaliação; um retorno à simplicidade do que nós somos e estamos nos tornando; um choque de humildade de gente que precisa de fé para vida real e uma fuga absurda das deturpações que a nossa mente é capaz de elaborar.

O reino é uma mensagem alternativa, na verdade, inovadora, porque o Rei pode falar o que bem entende, fazer o que bem entende e realizar o que bem entende. E os que assim creem sabem que não existe paraíso que não seja com esse Rei e que não existe uma maneira mais interessante de pensar que não seja com a mente de Cristo. Não existe deturpação maior do que dizer que se compreendeu Cristo e não existe maior clareza de consciência do que assumir que nada se sabe, mas depende exclusivamente daquilo que Deus revela a nós pelo Espírito. E quando isso acontece, a gente só pode obedecer.

A aniquilação da idolatria é saber que o Verbo se fez carne, foi aniquilado na cruz, ressuscitou, subiu ao céus e nos buscará naquele dia. Maranata!
Que Deus nos ajude a manter Deus no lugar Dele. Soli Deo Gloria.

Em amor e pelo amor.