Sou homem ou um rato?

Eu acho que devo mesmo ser um camundongo.

Quantas e quantas vezes questionei minha cristandade, não porque não me reconheça na pessoa do Cristo, mas porque não consigo me sentir confortável em casa e em muitos lugares comuns dos meus queridos pares cristãos.

Foi Dostoiévski quem disse que o homem normal é como um touro que só é parado quando se depara com uma parede a sua frente e depois de ter arrebentado o chifre, aceita tal condição como se dissesse: “aqui é o ponto final”. Pois muito bem, como o escritor russo temo ter a mesma suspeita de achar que não sou como um dos homens normais. E isso não é um autoelogio, muito pelo contrário. Talvez seja mesmo um camundongo. Que briga consigo mesmo a ponto de arquitetar vinganças mitológicas contra alguém que tenha causado dor a mim ou a um dos meus, imaginando todo o cenário das cenas de embate, com as falas e a dramaturgia impecáveis, como nos filmes épicos de guerra, mas que na hora do “vamo vê” oferece um abraço cheio de afago frustrando minhas próprias intenções impetuosas.

As paredes do vocabulário religioso evangélico estão longe de fornecer qualquer tipo de alívio às inquietações da minha alma. A pergunta que fica de mim pra mim mesmo é: “por que você foi chamado?” E respondo: “Tem gente demais fazendo o que você faz e melhor, aceitam bem o fluxo das respostas pré-formatadas e herdadas dos nossos pais sem qualquer tipo de debate ou questionamento acerca de que tema for”

Talvez tenha sido chamado pra intersectar tradição e vanguarda, só se esqueceram de me dizer como ficar em paz com esta tarefa. Até porque nem sei se de fato é com este propósito que vim a este planeta. Posso deixar estas afirmações soarem como arrogância. Mas talvez eu seja mesmo arrogante. Soberbo. Invejoso. Como queria calar na chifrada.

Aos de dentro atuo como se fosse de dentro, aos de fora tento vender uma imagem de que estar dentro é legal, mas no fundo nem eu mesmo sei onde termina dentro e onde começa fora. Faz sentido pra você? Posso colocar a culpa no nosso cenário cristão pseudo-avivado dos nossos dias? Posso colocar a culpa no nosso discurso religioso xiita que se importa mais com as aparências do templo e do funcionamento litúrgico dos cultos? Posso colocar a culpa na tradição e dizer que nosso discurso caducou? Ou a culpa de tudo isso está nos meus olhos e a maneira como enxergo o que está a minha volta?

Reformado? Pentecostal? Pastor? Teólogo? Publicitário? Escritor? Músico? Cristão? Alienado? Hipócrita? Sou tudo isso e nada disso. Sou um turbilhão de interrogações. Mas uma coisa é certa, estou firme e bem sustentado pelo alicerce da fé de um Deus que fez com que uma de suas pessoas fosse homem como eu, com todas as condições para ser efêmero e transitório como sou, mas que me ensinou um novo jeito de ser gente.

Tenho aprendido com o mestre e minha mente pode passear nos cantos mais escuros da (in)consciência, mas minha fé no homem Deus permanece intacta e além do mais é a mola propulsora que me faz questionar as diretrizes da minha própria “casa”.

Quer um conselho? Se tiver de escolher entre Jesus e a religião, escolha a primeira opção.

Não me refiro a abandonar nossas comunidades de fé, muito pelo contrário, precisamos delas pra que nossa tentação de fazer apenas o que nos traga prazer seja confrontada. Escolha a Cristo, ou ser Cristo, no trato, no serviço, na misericórdia, ciente de que ninguém é e jamais será como você e que aquilo que recebeu como dom de presente, seja usado pra iluminar e rechear de sentido a vida de alguém que esteja ao seu redor e na mesma condição que você. O sentimento é exatamente este, como descrito pelo Phillip Yancey comentando sobre Henri Nouwen, como alguém que está ferido, mas que é canal de Deus pra curar feridas.

Vamos seguindo no caminho da piedosa confiança de que nossas incertezas encontram-se certas no Filho de Deus, que supera nossa teologia e nos faz viver (observar) sua Palavra muito além de conhecê-la.

Nele.